Estimado amigo Dr. Franklin,
Confesso que desconhecia o talento literário de Fernando Haddad. No texto que você compartilhou, percebe-se com nitidez não apenas sua ambição intelectual, mas uma certa ânsia — quase angústia — de compreender as questões estruturais do nosso tempo. Chama atenção, sobretudo, sua honestidade intelectual ao dialogar com autores de diferentes matrizes — revolucionárias, reformistas e conservadoras — numa tentativa sincera de apreender a complexidade do capitalismo contemporâneo.
O artigo examina a reflexão de Haddad sobre as classes sociais a partir de seu livro Capitalismo Superindustrial – Caminhos Diversos, Destino Comum. Destaca-se ali algo cada vez mais raro: embora a política costume desprezar a escrita sistemática e a elaboração conceitual, Haddad surge como uma exceção, ao conjugar prática política com produção intelectual consistente — algo que, em outros tempos, era quase um requisito da vida pública.
Ao percorrer a formação e a transformação das classes sociais desde a Antiguidade até a modernidade, Haddad sustenta que o capitalismo atual — por ele denominado “superindustrial” — amplia desigualdades e reconfigura profundamente as relações entre trabalho, conhecimento e poder. Nesse novo arranjo, o saber científico e tecnológico torna-se o eixo central da produção, dando origem a uma elite técnico-cognitiva — engenheiros, cientistas, gestores — organicamente integrada ao capital.
Nesse ponto, caminho com ele. Também busco compreender o presente e o futuro. Divergimos, talvez, apenas quanto à permanência de um “capitalismo global” como destino inevitável. Não sei se caminhamos para sua reformulação ou para a emergência de outro sistema que venha, de fato, a substituí-lo.
Tenho refletido sobre alguns cenários possíveis:
1. Pós-capitalismo e economia da abundância
A tese pós-capitalista sugere que a tecnologia vem reduzindo o custo marginal de bens e serviços a quase zero. Modelos de colaboração em rede — como a commons-based peer production, exemplificada pela Wikipedia ou pelo Linux — apontam para estruturas não hierárquicas, baseadas em cooperação aberta. A automação e a IA, nesse cenário, poderiam libertar a humanidade do trabalho compulsório, deslocando o foco da produção do lucro para a gestão racional da abundância.
2. Tecnofeudalismo ou rentismo digital
Outros autores, contudo, veem um movimento regressivo: grandes plataformas digitais passam a controlar o “território” virtual, extraindo renda não pela produção, mas pela posse da infraestrutura. O dado converte-se na nova terra; os usuários, nos novos servos. Mais do que lucro, cobra-se “aluguel” — taxas, dados, atenção.
3. Sistemas descentralizados e economia blockchain
Há ainda a hipótese de uma transição para economias descentralizadas, baseadas em blockchain. DAOs poderiam gerir recursos sem intermediários estatais ou financeiros; a tokenização democratizaria o acesso a ativos antes concentrados. Trata-se de uma promessa de soberania tecnológica, ainda em disputa.
4. Cenários de governança digital
Pesquisadores identificam, ao menos, quatro trajetórias possíveis:
– democracia digital e bens públicos digitais;
– autoritarismo digital, baseado em vigilância extrema;
– localismo digital, com economias circulares e produção distribuída;
– e modelos híbridos ainda em gestação.
Ao escrever meu livro INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – Regulamento (UE) 2024/1689: Fundamentos, obrigações e perspectivas para uma governação ética e responsável da tecnologia, publicado no ano passado na Espanha, algo me chamou fortemente a atenção:
Grande parte da literatura político-científica ainda desconsidera o impacto das tecnologias digitais avançadas — e, mais ainda, das tecnologias quânticas. Abro aqui um parêntese: essa omissão lembra, em certa medida, a teologia eurocêntrica que por séculos ignorou a Ásia e, sobretudo, a África em sua exegese e hermenêutica profética.
Talvez, como bem sugere o artigo, poucos escrevem hoje — e os que escrevem pertencem, em sua maioria, à geração analógica, como nós. Não sentem plenamente os efeitos dessa revolução. Os mais jovens, que já operam dentro dessa nova lógica, percebem tudo isso com clareza, mas quase não escrevem sobre o que vivem.
O fato é que essa revolução tecnológica — que alguns chamam de quinta, outros de sexta onda — implode tanto os antigos pressupostos do socialismo clássico quanto começa a empurrar o próprio capitalismo para a obsolescência conceitual. Como sustentar, por exemplo, a ideia de “ditadura do proletariado” quando o próprio proletariado industrial se dissolve? Os jovens já não se submetem ao modelo celetista tradicional; optam por arranjos fluidos, por microempreendedorismo, por economias comunitárias — fenômeno visível, inclusive, nas periferias e favelas das grandes metrópoles.
No âmbito dos ciclos longos de Kondratiev, parece claro que entramos numa nova fase: se a quinta onda foi marcada pela conectividade, esta nova etapa — chame-se sexta onda ou Indústria 5.0 — é definida pela cognição (IA), pela automação radical e pela regeneração socioambiental. A questão central passa a ser: substituiremos o humano pela máquina ou humanizaremos a tecnologia para enfrentar os dilemas climáticos e sociais?
Nesse contexto, a Inteligência Artificial surge como motor de produtividade e a Renda Básica Universal como possível amortecedor social. A IA colapsa o custo marginal; a RBU preserva a coesão social e o consumo. Mas o risco permanece: a consolidação de um tecnofeudalismo, no qual poucos senhores digitais concentram poder e riqueza.
Concluo com uma impressão pessoal: ao tangenciar o modelo produtivo que desponta no horizonte — baseado na colaboração humano-máquina — e ao insistir na permanência de um “capitalismo global”, Haddad talvez se equivoque. Ainda assim, mérito maior lhe deve ser reconhecido: a coragem de expressar a angústia existencial do intelectual honesto, que se recusa a aceitar respostas fáceis para perguntas difíceis.
Independentemente de divergências doutrinárias, creio que, como intelectuais e livres pensadores, devemos insistir no diálogo, no intercâmbio de ideias e na busca por convergências que façam avançar o pensamento — e, quem sabe, a própria civilização.
Receba meu fraterno abraço,