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Opinião
Avanços da Medicina
Li com muito interesse a matéria intitulada Cirurgia
inédita devolve chance de criança andar, publicada no Correio
Popular de domingo, 8 de março, sobre a menina portadora de uma
deficiência congênita nos membros inferiores e que será submetida a cirurgia
de alongamento ósseo gradual de uma das pernas. Ficou claro a todos os
leitores que a técnica inovadora realizada na PUC-Campinas consiste na
preparação dos tecidos musculares, ligamentares e ósseos para a cirurgia óssea
definitiva que aumentará o comprimento do membro acometido.
A história da cirurgia do alongamento ósseo gradual é realmente muito
interessante. Esta técnica foi criada por um ortopedista russo chamado Ilizarov
que, na década de 50, trabalhava na Sibéria tratando os pacientes vítimas de
fratura dos membros durante a Segunda Guerra Mundial. Ele utilizava fixadores
externos em formato de anel para garantir a consolidação do osso fraturado.
Ilizarov observou em um dos pacientes que a mobilização acidental dos segmentos
metálicos dos fixadores externos provocou o crescimento ósseo no meio da
fratura. Baseado nesta observação, desenvolveu a técnica de alongamento ósseo
gradual. Grandes descobertas da medicina foram, sem dúvida, conseqüências de um
grande processo observacional associado a uma dose de acaso.
Na década de 50, 60 e 70, o mundo passou por um contexto de Guerra Fria e
isolamento, portanto as grandes contribuições de Ilizarov chegaram ao mundo
ocidental somente na década de 80.
A influência de Ilizarov transcendeu continentes e
especialidades.
No final da década de 80, o cirurgião plástico americano Joseph McCarthy adaptou
a técnica de Ilizarov para a mandíbula de cachorros e observou que os pacientes
que nasciam sem mandíbula poderiam ter tratamento e se beneficiar muito com
esta técnica cirúrgica. No final da década de 80, Cássio Menezes Raposo do
Amaral, fundador da Sobrapar, foi a Nova York para conhecer o professor
Ilizarov, que ministrava um curso sobre alongamento ósseo gradual.
Após uma viagem de 15 dias, o professor Cássio voltou extremamente motivado e
confiante de que a técnica de Ilizarov teria uma grande aplicação clínica para
os pacientes portadores de deformidades craniofaciais, como Síndrome de Crouzon
e Apert. Em 1994, o cirurgião plástico brasileiro realizou a primeira cirurgia
do mundo de avanço da face utilizando a técnica de Ilizarov com os aparelhos
criados por ele e confeccionados artesanalmente por Nelson Bolzani, da
Unicamp.
Suas observações foram publicadas em revista médica internacional e este
trabalho foi eleito o principal trabalho clínico daquele ano. É realmente muito
interessante observar como apenas uma pessoa pode influenciar positivamente
tantas gerações. Hoje, a técnica de Ilizarov ganha modificações e
aperfeiçoamento como as sugeridas pelo dr. Zabeu. A técnica de alongamento
ósseo gradual criada por Ilizarov foi, sem dúvida, a semente pioneira do que
chamamos hoje de engenharia de tecidos, uma área multidisciplinar da ciência
que se transformou na esperança de cura para muitos pacientes com deformidade
congênitas e adquiridas.
Cássio Eduardo Raposo do
Amaral é cirurgião plástico e vice-presidente do Hospital da
Sobrapar