Estrelas além do tempo (Hidden Figures) é um filme marcante, mas não por contar a história norte-americana da corrida espacial nos anos 60. O cerne da narrativa está nas dificuldades vividas por mulheres e, em particular mulheres negras, em conquistarem o seu devido reconhecimento tanto na ciência, como na engenharia.
O drama biográfico recebeu avaliações majoritariamente positivas pela crítica e arrecadou cerca de US$ 236 milhões até setembro de 2021, sendo US$ 2,1 milhões apenas nas bilheterias do Brasil (BOX OFFICE MOJO, 2021BOX OFFICE MOJO. Hidden Figures. Box Office Mojo, 2021. Disponível em Disponível em . Acesso em 03/09/2021.
). O longa retrata o ambiente de segregação na NASA dos anos 1960, a partir da ótica da matemática Katherine Johnson (interpretada pela atriz Taraji P. Henson), responsável por calcular as trajetórias de voo de missões espaciais. A trama também acompanha Dorothy Vaughan (Octavia Spencer), uma das primeiras pessoas negras a chefiar uma equipe na NASA, e Mary Jackson (Janelle Monáe), a primeira engenheira mulher negra da instituição. Baseado no livro Hidden Figures: The American Dream and the Untold Story of the Black Women Who Helped Win the Space Race (2016), da escritora Margot Lee Shetterly, o filme representa o trabalho dessas três mulheres e suas vivências em um ambiente de discriminação racial e de gênero, enfrentando situações como o apagamento da autoria de suas produções; a descrença em relação às suas capacidades intelectuais; e a segregação de espaços como banheiros, refeitórios e bibliotecas (ESTRELAS, 2016ESTRELAS além do tempo. Direção de Theodore Melfi. Los Angeles: 20th Century Fox, 2016. 1 vídeo. (127 min.).).
Desse modo, a análise das conversações em torno de Estrelas Além do Tempo é capaz de fornecer importantes insumos para compreender a percepção pública da ciência e as disputas de sentido que atravessam o campo. Para investigar os sentidos produzidos pelos espectadores do filme, é preciso situar suas representações em uma perspectiva de análise sobre as intersecções entre gênero, raça e ciência. O pioneirismo das cientistas retratadas na obra e os processos de discriminação sofridos pelas personagens remetem a uma história de exclusão e de invisibilidade das mulheres negras no campo científico, cujos efeitos persistem em assimetrias contemporâneas.
Em suma, Katherine, Mary e Dorothy são, como demonstra o título original do filme, figuras escondidas em uma narrativa histórica da ciência em que os sujeitos autorizados a produzir conhecimento são homens brancos. Portanto, entre as potências e limites de suas representações, analisar as percepções públicas em torno de Estrelas além do tempo é uma oportunidade de investigar de que maneira as intersecções entre raça, gênero e ciência foram compreendidas pelos espectadores e de que modo foram apropriadas por eles em suas produções de sentido em conversações digitais.
Frente às representações propostas pelo filme, é possível observar entre os comentários posicionamentos hegemônicos, oposicionais e, principalmente, negociados. A própria obra expressa contradições contemporâneas, uma vez que atende a anseios por representatividade mais diversa e traz à luz personagens e acontecimentos negligenciados pela historiografia da ciência. Por outro lado, a produção se alinharia a um discurso neoliberal de valorização do mérito individual frente a assimetrias estruturais. Essas incongruências são percebidas pelos interagentes, que reconhecem a relevância do filme ao mesmo tempo em que não deixam de sublinhar problemas de representação.
Portanto, a análise dos comentários sobre o filme Estrelas Além do Tempo nos permite entrever dinâmicas da conversação em rede sobre ciência e os debates contemporâneos sobre o lugar dos sujeitos sociais, sobretudo periféricos, na produção científica. De tal modo, esse trabalho indica que iniciativas de popularização da C&T devem ter em vista a forma como o campo se articula com outras esferas sociais. Assim, buscamos compreender as controvérsias sobre as representações raciais e de gênero nas conversações em rede e contribuir com a reflexão sobre atravessamentos sociais na percepção pública da ciência.
Não gostei tanto da atuação de Octavia Spencer a ponto de dar a ela uma indicação ao Oscar, mas fiquei positivamente surpreso com Janelle Monáe (que também atuou bem em Moonlight). Dois filmes destacados em uma temporada, um deles ganhando Melhor Filme. E ainda canta. Tá pouco?
Além de precisarem provar sua competência diariamente como mulheres na organização, que em sua maioria é constituída por homens, as cientistas ainda lidam com a intensa segregação racial vivida nos Estados Unidos em tempos de Guerra Fria. O país vivia na disputa da corrida espacial com a União Soviética.