A sabedoria do equilíbrio, por
mestre Bechara
O principal ensinamento do
professor mantém-se muito atual: o falante do português deve ser um poliglota na
própria língua
(Francisco Quinteiro
Pires)
Aos 80 anos, completados no mês
passado, o professor Evanildo Bechara segue como um dos maiores combatentes dos
preconceitos lingüísticos no Brasil. Para ele, o erro e o equívoco só podem
envergonhar aqueles que pensam saber muito, mas na realidade nada sabem.
Ignorante é quem faz da língua instrumento de humilhação. Para comemorar a
trajetória do mestre gramático e filólogo, atento aos avanços da lingüística, as
professoras Dieli Vesaro Palma, Maria Mercedes Saraiva Hackerott, Neusa Barbosa
Bastos e Rosemeire Leão Silva Faccina organizaram Homenagem: 80 Anos de Evanildo
Bechara (Nova Fronteira, 200 págs., R$ 29,90), reunião de entrevista e 11
artigos que focam o seu percurso profissional e teórico.
Diante dos
ensinamentos de Bechara, membro da Academia Brasileira de Letras (cadeira 33), o
certo e o errado se relativizam. Além de regras, a língua portuguesa têm
variações: a escrita, a falada, a exemplar, a culta, a formal, a informal, etc.
O certo, no caso, é ser 'poliglota na própria língua'.
'Hoje existe a
idéia errônea de que a pessoa não deve estudar gramática, a preocupação é apenas
com a expressão', ele diz. Não basta só a comunicação, a manifestação
lingüística deve estar amparada em outros conhecimentos. Aí entra o poliglota na
própria língua, que deve ter desde o domínio da escrita de um texto formal até a
consciência a respeito de uma conversa com um analfabeto. 'Muita gente pensa que
a língua é unitária, homogênea, sem variedades.' A ocasião faz o falante. Essa
coisa que parece óbvia não é simples: a língua deve ser usada de acordo com a
vontade efetiva de fazer entender-se. 'O uso reflexivo da língua é um exigência
da boa transmissão de idéia.'E o estudo do idioma é uma obrigação de todos.
Quando a Academia Brasileira de Letras foi criada em 1897, nenhum gramático
estava em seu seio, ele lembra. A preocupação com especialistas da língua é
recente, a provar as eleições de Aurélio Buarque de Holanda, Celso Cunha e
Antonio Houaiss, ao qual Bechara sucedeu. 'Agora a língua começou a ser estudada
cientificamente na Academia.'
Bechara é o autor da Moderna Gramática
Portuguesa (Lucerna), cuja primeira edição é de 1961 e que, até o fim do ano,
vai ser atualizada. Embora tenha incorporado novidades dos estudos lingüísticos,
como as teorias do romeno Eugenio Coseriu e a distinção entre diacronia e
sincronia, proposta pelo francês Ferdinand Saussure, a lição da sua gramática é
a mesma em mais de 40 anos: um professor não pode se restringir a ensinar a
diferença entre sujeito e predicado. Ele tem de ensinar aos alunos os efeitos da
consciência desse saber no uso cotidiano da língua. O emprego das habilidades
lingüísticas, Bechara alerta, transita entre os pólos da liberdade e da
opressão. Língua é poder. Ou mais do que isso. 'A troca da sua língua é quase
igual à troca da sua própria alma, segundo dizia Gaston Paris, um filólogo
francês do século 19.' Um gramático tradicional, mas nunca um purista, Evanildo
Bechara preocupa-se com a língua exemplar, a da gramática, cuja fonte, para o
filólogo homenageado, está nas obras de escritores consagrados. Ele afirma
continuar forte a idéia de que é possível escrever como se fala. A conseqüência
de tal pressuposto é a valorização da língua falada em detrimento da
escrita.
Segundo o filólogo, a língua exemplar não pode cair na mão de
pessoas despreparadas, que ditam lições inventadas em 'consultórios
gramaticais', como as seções de jornais nas quais se discutem dúvidas
elementares, uma forma de preencher as lacunas que os leitores trazem do sistema
educacional brasileiro. Professor honoris causa da Universidade de Coimbra,
Bechara tem a fórmula para identificar o despreparo dos cuspidores de regras: a
visita aos mestres ou, por outra, a tradição. Em Homenagem: 80 anos de Evanildo
Bechara, o membro da Academia Brasileira de Letras, para onde foi eleito em
2000, dedica-se a comentar o contato com os mestres, sobretudo com o filólogo
Said Ali (1861-1953), autor de Dificuldades da Língua Portuguesa, que comemora
um século neste ano e será reeditado pela ABL. Said Ali foi pioneiro ao adotar o
prisma científico nos estudos filológicos e gramaticais. 'Que é o prisma adotado
hoje, como prova a lingüística, por isso ele avançou no tempo.'
Bechara
diz que Said abordava os assuntos com originalidade, como o problema da
colocação de pronomes. Enquanto todos discutiam que palavras atraíam os
pronomes, Said dizia ser absurda essa teoria da atração. 'No fundo, os pronomes
se colocam pelo ritmo da língua e, como o ritmo da fala brasileira não é igual
ao da portuguesa, os brasileiros não podiam espontaneamente empregá-los como
faziam os portugueses, ele dizia.' E isso não é a defesa de uma 'língua
brasileira'.
Quando conheceu Said Ali, então um octogenário, o
pernambucano Bechara era um adolescente de 15 anos, morador do Rio de Janeiro. O
convívio durou 11 anos. 'Ele me ensinou que devemos nos aproximar dos autores
que cometem erros - e todos nós os cometemos - com menos freqüência.' A partir
daí, ele soube separar os livros ruins, com os quais não deveria perder tempo
precioso, das boas leituras.
Quanto aos conflitos entre os especialistas
da língua, que na primeira metade do século 20 começavam nas páginas da imprensa
para depois se tornarem rixas pessoais, Said Ali ensinou o seguinte ao pupilo:
'Durante minha carreira briguei muito e dessas brigas não trouxe nenhum
benefício para velhice.' Esse ensinamento calou fundo no aluno: 'Nunca mantive
uma polêmica azeda com os meus colegas.'
Bechara é um homem que vai pelo
caminho do meio. Ele buscou o equilíbrio. 'No meu tempo, para um jovem subir um
dos expedientes usados era atacar os mais velhos.' Lançar argumentos contra os
mestres consagrados se tornava um corredor para o iniciante angariar o que
pretendia. O gramático pernambucano percebeu que não adotava a estratégia, ao
receber um comentário elogioso de um de seus professores, o filólogo Antenor de
Veras Nascentes (1886-1972): 'Este para subir não atacou nenhum de seus
mestres.' Ele os superou.
'Se aprendemos com os mestres e se chegamos a
um ponto mais longe, devemos ter gratidão e não palavras de menosprezo', diz
Bechara. A evolução do tempo, segundo o filólogo homenageado, reservou um lugar
para Said Ali e Nascentes, enquanto os jovens e suas críticas foram engolidos
pela história sem nela fazer marcas. Evanildo Bechara está entre aqueles que
deixam marcas.
O Estado de S.
Paulo, 6 abr. 2008.