Folha Dirigida, 20/07/2011 - Rio de Janeiro RJ
*Acordo em desacordo*
Mário Boechat Próximo de encerrar o prazo para adaptação definitiva ao
Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa - previsto para dezembro de
2012 -, as polêmicas em torno dos benefícios gerados pelas mudanças das
normas parecem não ter fim. Para o escritor, conferencista e autor nas áreas
de gramática, linguística, teoria e análise literária, Ernani Pimentel, a
população ainda não aprendeu as novas regras. E ele vai além: há diferenças
entre o Acordo e o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), que
incorpora as novas normas estabelecidas pelo Acordo Ortográfico de 1990,
regulamentado no Brasil em setembro de 2008, na Academia Brasileira de
Letras (ABL), e em vigor desde 1º de janeiro de 2009.
Para Ernani Pimentel, essa distinção dos dois documentos é prejudicial para
todos os profissionais que utilizam a Língua Portuguesa como meio de
trabalho, sem excluir a população em geral, haja vista que é o idioma
materno dos brasileiros. "O Acordo, assinado por oito países, inclusive o
nosso, representa um compromisso internacional, que deve ser seguido pelo
Brasil tal qual estipula o seu texto. A ABL ficou de implementá-lo e o fez
por meio da publicação da 5ª Edição do Volp, mas, surpreendentemente, ao
arrepio de qualquer autorização legal, modificou o teor do texto acordado.
Quaisquer que sejam as explicações, submeteu-se o texto original do Acordo a
alterações, sem a aprovação devida do Congresso Nacional do Brasil e das
Assembleias Nacionais dos outros países, o que está previsto e implícito na
Lei", explica Pimentel. *Dois anos e meio após a implantação do Acordo
Ortográfico, como o senhor analisa a aceitação das novas regras por parte da
população?*
*Ernani Pimentel -* De um modo geral, a população está insatisfeita e
inconformada com as contradições das novas normas e se pergunta por que
substituir regras mal formuladas e inconsistentes por outras também mal
formuladas e inconsistentes. O povo não aprendeu as novas regras. Os alunos
nas escolas e nas universidades não aprenderam as novas regras. Os
professores de Português não aprenderam as novas regras, porque são tantas
as exceções e particularidades que só com um dicionário na mão. Aliás, quais
novas regras? As estipuladas pelo Acordo ou as inseridas no Vocabulário
Ortográfico da Língua Portuguesa, o problemático Volp? As contradições das
novas normas criaram uma grande insegurança na hora de escrever.
*Há diferenças entre as regras do Acordo e as do Volp?*
Desafortunadamente, há. O Acordo, assinado por oito países, inclusive o
nosso, representa um compromisso internacional, que deve ser seguido pelo
Brasil tal qual estipula o seu texto. A Academia Brasileira de Letras ficou
de implementá-lo e o fez por meio da publicação da 5ª Edição do Volp, mas,
surpreendentemente, ao arrepio de qualquer autorização legal, modificou o
teor do texto acordado. Eis alguns casos: pelo Acordo, grafa-se re-haver,
re-eleição, pelo Volp, reaver, reeleição. Há outros casos como azeite de
dendê, água de coco, sem hífens, pelo Acordo, e azeite-de-dendê,
água-de-coco, hifenados, pelo Volp. O Acordo prescreve que "r" e "s"
antecedidos de vogal devem ser dobrados e não usam hífen (biorritmo,
microssistema). O Vocabulário Ortográfico, contrariando-o, registra com
hífen para- raios, para-sol, guarda-raios, guarda-redes, guarda-rios,
guarda-rodas, guarda-roupa, guarda-sexo, guarda-sol. O respeito ao Acordo
exigiria o hífen ser substituído pelas consoantes dobradas. Quaisquer que
sejam as explicações, submeteu-se o texto original do Acordo a alterações,
sem a aprovação devida do Congresso Nacional do Brasil e das Assembleias
Nacionais dos outros países, o que está previsto e implícito na Lei.
*Quais têm sido as grandes dificuldades enfrentadas pela população para
apreender as novas regras?*
As dificuldades são várias e apontamos as mais importantes, sendo que a
primeira é a causadora das demais. A falta de lógica e de senso prático,
compatíveis com nosso século XXI. A educação moderna prescreve que os
professores devem ensinar o aluno a raciocinar para entender e não se
importar com a "decoreba". O raciocínio deve, pois, ser lógico para que o
cidadão possa transformar o aprendizado em algo útil, a ser empregado na sua
vida. Não existe lógica em se dizer que São Paulo, Porto Alegre, Cabo Verde
e todos os nomes de lugares compostos se escrevem sem hífen, mas
Guiné-Bissau e Timor-Leste são hifenados. Não há lógica em ensinar que as
consoantes que deixaram de ser pronunciadas não mais se escrevem, como em
óptimo e jacto, e mandar escrever o "h" inicial não mais pronunciado, como
em homem e hoje. Não há lógica em dizer que guarda-chuva deve ter hífen e
mandachuva, não. Não há lógica em obrigar uma população inteira a decorar
lista de exceções, ou andar com um dicionário a tiracolo, quando o mais
fácil seria eliminá-las, submetendo-as às regras. Se o Acordo veio para
mudar o uso, não há o mínimo de lógica em manter listas de exceções, com o
argumento absurdo de que "estão consagradas pelo uso". Ninguém quer perder
tempo com ilogicidades. O desrespeito à didática do nosso século é outra
dificuldade. Ensina-se e se aprende, entendendo os porquês. Como se pode
aprender ou entender que pé de chinelo não tem hífen, mas pé-de-meia tem;
cor de bonina não tem hífen, mas cor-de-rosa tem; água-de-colônia tem hífen
e água de cheiro, não; pontapé não tem hífen, mas finca-pé tem. Há falta de
padrão também. Primitivos e derivados deveriam ter o mesmo tratamento, mas
não têm. Por que pré-eleito/preeleito, pré-eleição/preeleição, com duas
grafias, se são derivados de preeleger, que só tem uma? Por que duas grafias
corretas para adrenal/ad-renal, com ou sem hífen, mas uma só, sem hífen,
para os derivados adrenalina e adrenalite? Há contradições implícitas.
*Cite mais alguns casos.*
O trema, a partir do Acordo, só será usado nas palavras estrangeiras, como
em Müller, mülleriano, Caraïbes. Então, reconhecemos sua importância para as
outras línguas e sua desimportância para a nossa? O Acordo se chama
"ortográfico" - correta mais escrita -, para alterar apenas a grafia, sem
mexer na pronúncia. É assim que já aconteceu anteriormente, quando "fallar"
e "Hespanha" tornaram-se falar e Espanha, mostrando que a queda de uma letra
manteve inalterada a sonoridade da palavra. A função do trema em qualquer
palavra, como em eqüidistância e eqüidistante, é mostrar que o "u" deve ser
pronunciado átono (ekuidistância, ekuidistante). A sua eliminação leva o
leitor à eliminação do som "u" (ekidistância, ekidistante), alterando a
pronúncia, o que foge ao ambiente da ortografia para instalar-se no campo da
ortofonia. Afinal, o trema tem ou não tem função? Se tem, como está provado,
não se pode, pois, simplesmente eliminá-lo sem lhe dar um substituto gráfico
que preserve inalterada a pronúncia da sílaba. A solução proposta por este
Acordo parece ser cada cidadão andar com um dicionário a tiracolo, para
consulta de pronúncia ante qualquer palavra nova que apresente uma sílaba
"que", "qui", "gue", "gui". Além disso, não se pensou na possível
padronização gráfica de radicais e temos de decorar que estender e mais de
uma dezena de seus derivados se escrevem com s, ao passo que extensão e mais
de uma dezena de seus derivados se grafam com x, quando no latim só havia
uma grafia para todas essas muitas palavras - extendere, extensione,
extense.
*O senhor chegou a afirmar que alguns tópicos do acordo eram ilegais, porque
não passaram pela aprovação do Congresso. Existe alguma mobilização dos
parlamentares no sentido de rediscutir o acordo?*
A rigor, afirmo que o que se está implantando no Brasil como Acordo
Ortográfico é o que preconiza o Volp e este muda em vários pontos o texto
original do Acordo. Portanto, o Brasil está pregando o desrespeito ao
acordado. Mais que isso, o Volp está impondo insubordinação à Lei, pois o
Art. 1º do Decreto 6.583 da nossa Presidência da República determina que o
Acordo "deve ser executado e cumprido tão inteiramente como nele se contém".
Tratados e acordos internacionais pertencem ao âmbito do Senado Federal,
cuja Comissão de Educação, Cultura e Esporte, em audiência pública, em 4 de
novembro de 2009, tomou conhecimento desses problemas, e ficou de buscar
solução. Diga-se de passagem que todos os pontos apresentados pelo nosso
movimento foram aceitos sem contestação por todos os presentes. No ano
passado, nada foi feito, estando em prioridade a preocupação com os assuntos
eleitorais. Em 2011, só recentemente se redefiniram os integrantes das
comissões, entre as quais a de Educação, e estamos solicitando a retomada do
assunto ao atual presidente, senador Roberto Requião. É de se elogiar a
atuação consciente de vários parlamentares, destacando-se o trabalho
especial do senador Cristovam Buarque.
*Em entrevista recente, o professor Sérgio Nogueira afirmou que pouca coisa
mudou após a aprovação das novas regras. Essa também é a sua opinião?*
Houve realmente poucas mudanças. No que se refere à acentuação gráfica,
houve simplificação, embora alguns detalhes precisem talvez ser melhorados.
A inclusão das letras K, W e Y deu-se apenas para oficializar o que já era
normal: a grafia de topônimos e antropônimos estrangeiros e seus derivados,
como Kant, Kubitschek, Kuwait, kantistmo, kubitschekiano, kuwaitiano; de
siglas, como TWA e KLM; de símbolos; de abreviaturas de unidades de medidas
internacionais. No tocante ao uso do hífen, o que era ruim tornou-se pior.
As regras de hifenação pouquíssimas pessoas, inclusive raros professores, as
conheciam – apenas quem ao longo dos anos foi criando sofridos recursos
mnemônicos. Tudo porque tinham sido construídas numa época em que regra era
para ser decorada e não entendida. Com o tempo, a Pedagogia passou a
demonstrar que o ensino devia tornar-se mais prático e objetivo para
tornar-se ferramenta útil na vida do cidadão, cujo cérebro é mais afeito nos
tempos pós-modernos ao entendimento e às relações lógicas, que à pura e
simples memorização. É por isso e pelo acúmulo de várias outras prioridades
do mundo pós-moderno que 99% dos leitores não aprenderam, não sabem nem
querem saber as antigas regras de uso do hífen – a "decoreba" não tem mais
sentido. A esperança estava em que algo realmente mudasse na visão e na
aplicabilidade desse maldito sinalzinho. Para constrangimento geral, o
Acordo que agora se vai implantando tem base lá nos idos de 1975 e pretende
trazer para a nossa época a imposição dos mesmos padrões educacionais
falidos dos séculos passados. As posições do Acordo, em si, estão
anacrônicas e são inadmissíveis e inapreensíveis na Educação de hoje. Não
bastante esse desastre, o Volp, como arlequim às avessas, com pretensões de
esmagar colombinas, contribui com fortes e atordoantes dissonâncias, capazes
de superar e desbancar o genial Stanislaw Ponte Preta, com o seu 'Samba do
Crioulo Doido'.
*O senhor preside um movimento para rediscutir as mudanças na ortografia, o
"Acordar Melhor". Em que consiste essa proposta?*
O <www.acordarmelhor.com.br> nasceu junto com o início da implantação do
Acordo Ortográfico no Brasil, nos primeiros meses de 2009, mostrando os
vários problemas que um texto mal redigido, sobre um assunto mal estudado,
poderia trazer aos países subscritores. Desde então, a cada dia ou mês que
se passa, mais se comprovam as verdades que apontávamos no livro crítico
Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, e o Acordo vem literalmente
naufragando, como também mostramos no artigo Alerta Oportuno ao Congresso
Nacional. O que queremos é simplificar a ortografia, eliminando exceções,
duplas grafias, padronizando sempre que possível a escrita dos radicais,
reduzindo as atuais regras a um mínimo, concatenadas, convergentes e
lógicas. Queremos uma discussão ampla e democrática nas universidades, nas
escolas, nas associações, e em todas as entidades voltadas à cultura e à
língua. Queremos a criação de um organismo competente, aberto
democraticamente à participação de quem tenha a língua escrita como
ferramenta, ou que com ela se preocupe - linguistas, filólogos, gramáticos,
escritores, advogados, jornalistas, sociólogos, filósofos, professores,
pedagogos -, com a responsabilidade de ensinar, divulgar, manter e defender
os princípios aprovados e acordados. Não se pode deixar essa tarefa a cargo
de uma ou duas academias que se mostraram incompetentes para uma tarefa de
tal magnitude. Nosso objetivo é escrever sem a obrigatoriedade recorrente de
consultar o dicionário e que a ortografia deixe de ser um fator de
segregação e se torne um forte instrumento de inclusão social e de
aproximação dos povos.
*Quais são as próximas atividades a serem desenvolvidas?*
Estamos desenvolvendo quatro atividades simultâneas. A primeira é o
abaixo-assinado. Pedimos que todos entrem no site do Acordar Melhor e leiam
o texto Nova Ortografia e Escravidão, cliquem em "Eu assino o manifesto" e,
finalmente, em "Assinar". Daí em diante é só divulgar todos os dias para
amigas e amigos fazerem o mesmo. A segunda são os contatos com a Comissão de
Educação do Senado, buscando a continuidade da ação interrompida. Como
terceira atividade, estamos proferindo palestras e debates em universidades,
faculdades, colégios, cursos, associações, órgãos e entidades interessadas
em que a Educação em nossos países se torne mais eficaz e menos dispendiosa
para o Estado e para toda a população. Para finalizar, estamos sempre à
disposição da imprensa para entrevistas, matérias e artigos. Contudo, o mais
importante é que o leitor assine o abaixo-assinado em nosso site e o
divulgue sempre, para nos fortalecermos e conseguirmos antecipar a
simplificação ortográfica, tão benéfica a todos.
*É possível possuir a mesma ortografia em países tão distintos e com
culturas tão diferentes como as nações lusófonas?*
É perfeitamente possível. A língua castelhana é falada por mais países que a
portuguesa, com todas suas variadas culturas, no entanto a grafia se mantém
unificada graças ao trabalho da Real Academia Española, em que nos
inspiramos para sugerir a criação de um organismo competente como tutor de
nossa ortografia, adequado às nossas realidades étnicas, sociais, culturais,
históricas e de século XXI.
Fátima Santos
Também virei blogueira!: http://educadoresdalinguagem.blogspot.com/
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