Pesquisa da UnB feita em quatro capitais revela que número de
moradores de rua no Recife cresceu 84%, entre 2004 e
2005
Ciara Carvalho
[EMAIL]ci...@jc.com.br
[/EMAIL]A Praça Maciel Pinheiro, no bairro da Boa Vista, no
Centro do Recife, parece um albergue ao ar livre. Em um dos bancos, uma
roda de mendigos se forma em poucos minutos. São mulheres, homens,
velhos e crianças morando na rua como se fossem uma grande família. Uma
família cada vez mais numerosa e que vive entregue à própria sorte. Um
estudo comparativo da população de rua do Recife entre 2004 e 2005
revelou um aumento de 84% na quantidade de mendigos na capital
pernambucana. Os dados mostram que o total de moradores com esse perfil
pulou de 653 para 1.390 em apenas um ano. A pesquisa, realizada pela
Universidade de Brasília (UnB), vai além e compara também a situação da
capital com a de outras três regiões metropolitanas do País. E o
resultado não poderia ser pior: os nossos mendigos chegam às ruas mais
cedo, são menos escolarizados, possuem uma taxa de ocupação mais baixa e
recorrem mais à mendicância como atividade para conseguir alguma forma
de sustento.
Luzitânia Maria da Silva, 32 anos, nem lembra mais direito quando
chegou à rua. “Bota janeiro nisso”, responde, para depois arriscar que
já devem ter passado mais de 20 anos. Ela não sabe ler nem escrever. Diz
que tudo o que aprendeu foi pelos becos e calçadas do Recife. Foi na rua
que deu à luz a filha, que, agora, lhe faz companhia nos bancos de
praça. A garota tem 8 anos e nunca pôs os pés na escola. “Vai se formar
na mesma faculdade em que eu me criei”, conforma-se a mãe. Luzitânia não
sabe o que é carteira assinada e vive de “vigiar” os carros estacionados
perto da Praça Maciel Pinheiro. Os trocados que junta usa para dar
comida à filha e comprar remédios. “Vivi e vou morrer na rua”,
decreta.
Sobre o
crescimento da população de rua, a cidade também possui o dado mais
preocupante. Nas outras capitais, o percentual não chegou a 30%. Maria
Lúcia, no entanto, faz questão de ressaltar dois fatores que devem ser
considerados na comparação entre as estatísticas de 2004 e 2005. O
primeiro é o período da pesquisa. No primeiro levantamento, o censo foi
feito em outubro, e no segundo, em novembro. “Isso influi, porque a
população aumenta muito quando se aproxima o fim do ano”, explica. Outro
ponto é o fato de que apenas a segunda contagem incluiu os moradores de
albergues. “Essas variáveis devem ter contribuído para dar uma certa
distorção no percentual, mas a situação do Recife, de fato, é a mais
complicada”, analisou a
pesquisadora.