A integridade, a honestidade e a conduta moral são elementos essenciais em um bom líder. Muitos concordariam com tal proposição. O desacordo ocorre quando esses padrões são aplicados indistintamente tanto à vida pessoal quanto à vida profissional. O pensamento geral da sociedade de hoje mantém que "se a ninguém além de nós ferirmos, podemos fazer o que quisermos. O que fazemos em nossa vida pessoal é problema nosso. Nosso empregador não tem o direito de julgar-nos ou punir-nos em virtude de nossa conduta privada, desde que não seja degradado o nosso desempenho no trabalho." Esta filosofia é aplicada - especialmente nos setores civis - ao uso de drogas, ao consumo de álcool, à atividade sexual, às mentiras e às fraudes. De modo crescente, os tribunais concordam com esta posição.
Nas forças armadas, adotamos uma concepção diferente. As drogas não são toleradas. O abuso do álcool arruína uma carreira. É disciplinado - ou em muitos casos proibido - o envolvimento sexual com outras pessoas do ambiente de trabalho. A desonestidade é punida com severidade.
Desde que me tornei oficial-general, venho ouvindo muitas vezes chefes mais graduados dizerem, em reuniões de oficiais-generais a portas fechadas, que "Se você anda dormindo com outra pessoa que não sua esposa, pare com isso! Você será descoberto. Se insistir em tal conduta, tenha a integridade de renunciar à carreira e abandonar o uniforme." Estas são palavras fortes, cuja implicação é clara: para líderes mais graduados, as linhas divisórias entre o público e o privado são quase apagadas. Não temos a liberdade de conduzirmo-nos do modo que desejarmos na esfera privada.
No mundo aquisitivo, a conduta ética dos funcionários do governo tem sido cuidadosamente investigada. Em tempos recentes, amplo volume de diretrizes éticas foram publicadas. Fomos considerados responsáveis diante dessas diretrizes antes mesmo de lê-las. Tais diretrizes aplicam-se a conflitos de interesse, presentes, exercícios de influência, jantares e privilégios. Disse-me certa vez um oficial, "Imagino o que haverá de errado com aquela lista de uma página, chamada Os Dez Mandamentos…"
O incidente Tailhook, casos múltiplos de assédio sexual amplamente divulgados, e a expulsão de líderes mais graduados por má conduta sexual conduziram à publicação recente de diretrizes de convívio, assédio e conduta sexuais. Instituímos treinamento obrigatório para implementar estas diretrizes. Aparentemente, necessitamos delas.
A mensagem é que temos um problema. Algo mudou em nossa sociedade. Não mais podemos supor que a ética e a integridade sejam dados inquestionáveis para pessoas que solenemente mantêm seu juramento profissional como membros das forças armadas. Assim, devemos instituir controles e responsabilidades. Ao fazê-lo, estamos afirmando que a ética profissional e a ética pessoal devem ser uma só.
Embora eu tenha escrito muito sobre este tema,1 uma conferência há três anos fez-me refletir sobre esse tópico no contexto militar. Pavel Grachev, Ministro da Defesa da Comunidade dos Estados Independentes [Commonwealth], convidou membros do nosso Departamento de Defesa para participar, em Moscou, de um congresso intitulado "Os Fundamentos Espirituais e Morais dos Exércitos da Rússia e dos Estados Unidos".
Nesta conferência de sete dias, que reuniu 550 comandantes de campanha russos, todos de alta patente e de todas Forças Singulares, os participantes investigaram exploratoriamente a reconstrução e os fundamentos éticos. Os russos haviam vivido 70 anos com uma filosofia ateísta determinando que a ética interna fosse governada pelo medo e pela retaliação. Com a remoção de restrições, eles sentiram necessidade de construir um novo fundamento para os valores éticos e morais, percebendo nos EUA e nos países da OTAN fundamentos éticos e espirituais que a Rússia não tinha.
Podemos garantir o comportamento ético somente por meio da lei, do medo ou de convicções pessoais. Leis e regras estabelecem diretrizes de comportamentos esperados ou proibidos. Tais regras têm um efeito limitado porque não podemos prescrever todas as circunstâncias concebíveis. A lei é o último abrigo quando a moralidade privada não prevalece.
O Prof. Edwin Epstein defende a idéia da responsabilidade social corporativa porque "ser ético vem antes da lei".2 Similarmente, Andrew Stark comenta, sobre motivações externas para comportamento ético, que elas são "nada menos do que ferramentas de geren- ciamento como a autoridade, o poder, o incentivo e a liderança. Repousar sobre tais ferramentas motivacionais … é apenas uma forma sofisticada de coerção, sendo portanto moralmente errado."3 Leis e regras são limitadas e relativamente fracas. Estão longe de ser uma solução para o comportamento ético.
O medo é uma motivação poderosa. Os governos repressores tornam-no sua ferramenta primeira de coerção e submissão. Na realidade, o medo também afeta muito de nossa cultura. Os medos do desencami-nhamento de carreiras, da exposição pública, da corte marcial, da instabilidade no trabalho - todos fornecem significativa motivação para constrangir nossos eus primitivos no sentido de adequá-los a um conjunto de regras morais. Tanto o medo quanto a lei leva as pessoas a viver dentro dos limites desse conjunto de regras, violando-as às vezes ou sendo excessivamente escrupulosas não por convicção pessoal do certo ou do errado, mas por autopreservação. O medo e a lei são eficazes apenas de modo limitado.
Convicções pessoais são a base mais eficaz para o comportamento ético e moral. O sonho de todo comandante é o de ter pessoas que fazem instintivamente o que é certo, com ou sem a orientação de regulamentos. Infelizmente, as convicções sociais mudam com a sociedade. O relativismo - que sustenta a inexistência de um certo ou um errado claros, especialmente em áreas de conduta sexual e comportamental - conquistou a maior parte da comunidade intelectual e educacional.
O código de honra da Academia da Força Aérea dos Estados Unidos - Não mentiremos, não roubaremos, não fraudaremos, nem tole-raremos entre nós alguém que o faça - simplesmente não é aceito como um padrão apropriado pela sociedade. A resposta aos que defenderiam qualquer norma ética é: - Como ousas dizer-me o que devo fazer em minha vida privada? Note-se outra vez a separação, aí implicada, entre comportamento privado e comportamento profissional.
Gosto de pensar que todos deveríamos ter um sistema inercial de orientação capaz de detectar quando estamos fora de curso e iniciar correção imediata. Precisamos de uma bússola moral.
Convicções pessoais se desenvolvem a partir da família, da comunidade, da educação, da formação religiosa/espiritual e da influência de nossos pares. Reconhecemos essas influências, boas ou más, como dados na vida de cada um dos jovens de 18 ou 22 anos que entram na Força Aérea. Vivemos com os resultados e tentamos trazer esses jovens, de seu estado corrente de convicções morais, para um estado que definimos em nossa profissão.
O Prof. Kenneth Andrews assinala com sabedoria que "o caráter moral é moldado pela família, pela igreja e pela educação muito antes de um indivíduo ingressar em uma companhia para ganhar a vida".4 Todas essas influências são hoje problemáticas. A estrutura familiar e sua influência estão se rompendo. Ainda assim, a família é a pedra fundamental do ensinamento moral. Embora não possamos mudar o background familiar de uma pessoa, podemos fazer muito para ajudar e assistir famílias de militares na instrução e na influência da próxima geração. Dou meus aplausos a todos os esforços que envidamos hoje para tornar a Força Aérea mais afeita à família, bem como centrada na família.
Meus anos de infância foram vividos em uma pequena comunidade de fazendas do Estado de Iowa, onde os adultos mantinham-se atentos aos mais jovens e impunham um semblante de controle moral. Esse tipo de comunidade está desaparecendo, dando lugar à moralidade em declínio no núcleo das cidades e nos subúrbios metropolitanos. Reais comunidades são coisas do passado. Novamente, em nossa comunidade da Força Aérea, temos muito maiores oportunidades de construir um lugar para nossas famílias. Nossos comandantes de base precisam ter os poderes e ser encorajados a propiciar tal construção.
A educação perdeu seu impacto moral. Permeia hoje nosso sistema educacional a crença de que não devemos ensinar valores morais que delineiem o certo e o errado. Chuck Miller escreve que "um levantamento feito em 1940 junto a autoridades educacionais localizou como principais problemas disciplinares a tagarelice, mascar chiclete, fazer barulho, correr, vestir-se impropriamente e sujar o chão. Uma equipe de educadores em 1986 listou o estupro, o furto, o assalto, os arrombamentos, os incêndios dolosos, os ataques com bomba, os assassinatos, os suicídios, a deserção, o vanda-lismo, o abuso de drogas, o abuso de álcool, as guerras entre gangues, a gravidez, o aborto e as doenças venéreas."5 Estamos vivendo em um mundo diferente!
A religião e a formação espiritual são ainda muito eficazes, mas um número decrescente de jovens estão caindo sob a influência da igreja. Em décadas anteriores, os pais enviavam seus filhos à educação religiosa mesmo quando os próprios pais não concorriam à atividade religiosa. Não mais existe este sentido de obrigação em expor as crianças ao treinamento religioso e seus conseqüentes mandamentos morais. Esta situação é exacerbada pelo debate entre a igreja e o estado, que chega a apresentar mais uma barreira à influência da igreja.
O efeito das companhias é óbvio: "Não vos enganeis. As más companhias corrompem os bons costumes" (I Cor. 15:33). A maior parte da imoralidade sobre drogas, álcool, sexo, mentira e fraude resulta de uma influência de pares.
Há um grau crescente de cinismo e sofisticação em nossa sociedade, um sentido de que todas as coisas sejam relativas e que nada é certo ou errado de modo absoluto.
- Jody Powell<R>Secretário de Imprensa do Presidente Jimmy Carter
Para ilustrar nosso problema que é nacional, Daniel R. Levine assinala que "a ho-nestidade e a integridade foram substituídas, em muitas salas de aula, por uma atitude de sempre levar vantagem em tudo, que coloca a classificação, a aptidão e o ganho pessoal acima de qualquer coisa".6 Mais do que isso, "Os padrões morais sofreram tal erosão que muitas crianças não mais podem discernir entre o certo e o errado",7 afirma Kevin Ryan, diretor fundador do Centro de Progresso da Ética e do Caráter na Universidade de Boston. Segundo Stephen F. Davis, um professor de psicologia, "Não há remorso. Entre estudantes, a fraude é um meio de vida."8 Ryan comenta ainda que "as crianças não têm qualquer outra bússola moral que não um pronunciado interesse pessoal"; Ryan culpa as escolas do país por abandonarem seu papel tradicional de oferecer aos estudantes orientação moral.9 Similarmente, Jay Mulkey - do Instituto de Educação do Caráter em San Antonio - observa que "os estudantes que fraudam na sala de aula poderão muito bem fraudar em seu trabalho ou no casamento. Quando estamos em um país que não valoriza a honestidade e considera o caráter pouco importante, que tipo de sociedade temos?"10
Outra ilustração vem de um professor da Universidade Rutgers, que dirigiu um levantamento de 31 faculdades altamente seletivas (14 com códigos de honra e 17 sem tais códigos). Trinta porcento das faculdades com um código de honra relataram fraudes em provas em 1995 - contra quase 24 porcento em 1990. Quarenta e sete porcento das faculdades sem um código de honra relataram fraudes em testes em 1995 - contra 45 porcento em 1990.11 Tais estatísticas conferem alguma credibilidade a ter um código de honra.
Estou firmemente convencido de que a integridade e a ética têm que ser construídas de dentro para fora, reservando-se a lei e o medo apenas como últimas escolhas. A verdadeira questão é: Como fazermos isso? Submeto à consideração as seguintes sugestões:
1. Temos que reconhecer que os jovens que trazemos hoje para a Força Aérea, no essencial, não aprenderam ética e moralidade. Eles refletem as estatísticas nacionais de fraudar e mentir. Impor-lhes simplesmente um novo conjunto de regras, sob ameaças de punição, não irá mudá-los.
2. Enquanto esses jovens submetem-se ao treinamento básico e à Escola de Treinamento de Oficiais, não devemos supor que eles tenham um fundamento consistente de integridade, moralidade e ética. Necessitamos definir e ensinar o comportamento moral - tanto público como privado. Devemos fazê-lo repetida e consistentemente, dando-lhe grande ênfase.
3. Precisamos ajudar nosso contingente a construir uma bússola moral interna, utilizando para esse propósito o Corpo de Capelães. Precisamos encorajar e capacitar nossos capelães a ensinar não apenas filosofia, mas princípios espirituais de comportamento ético, sob o ponto de vista de suas crenças religiosas. Os Dez Mandamentos e o Livro de Provérbios são um bom ponto de partida, já que contêm postulados aceitos por quase todos os credos. Com certeza não devemos coagir as pessoas à instrução religiosa, mas podemos e devemos encorajá-las. Enfatizo este aspecto porque a crença religiosa demanda uma transformação interna, mais do que apenas uma mudança de comportamento. É interessante notar que raramente a literatura secular sequer menciona a instrução religiosa como uma parte da solução - uma exclusão enigmática, considerando-se a posição histórica expressiva que essa instrução mantém na formação dos conceitos morais de nossa nação.
4. Comandantes e líderes em todos os níveis devem dar o exemplo. Se nossas vidas refletirem moralidade e integridade, nossa influência será grande. Os comandantes devem falar abertamente e com freqüência sobre esses tópicos, recompensando a integridade e punindo a falta de integridade.
5. Devemos ter e praticar uma política de intolerância ao assédio sexual - não porque tal política se adequa ao humor momentâneo do nosso mundo social, mas porque o assédio social é moralmente errado.
6. Precisamos ajudar as famílias de nossa Força Aérea na tarefa de educar a próxima geração. Através de nossos capelães, nosso aconselhamento e recursos de seminários, precisamos trabalhar na construção e preservação dos matrimônios.
Para ser um líder, um homem deve ter seguidores. E para ter seguidores, um homem deve ter deles a confiança. Daí a qualidade suprema de um líder ser inquestionavelmente a integridade. Sem ela, nenhum êxito verdadeiro é possível, não importa que seja em uma turma de operários, em um campo de futebol, em um exército ou em um escritório. A primeira grande necessidade, portanto, se constitui da integridade e dos propósitos elevados.
- Gen Dwight Eisenhower
Iniciei este artigo contrastando a ética pessoal e a ética profissional. Em nossa profissão elas não podem ser separadas. Estamos a trabalho 24 horas por dia. A ética pessoal, a moralidade e a integridade irão influenciar fortemente a conduta ética profissional de um indivíduo. Integridade significa um todo ou uma completitude - a continuidade da vida em todas as suas ações. Como líderes, desejamos exibir esse tipo de integridade. Como educadores da próxima geração, desejamos encorajar esse tipo de integridade. Não devemos trair-nos a nós mesmos, ou aos que lideramos, pela crença de que possamos praticar a ética e a moralidade apenas em nossas vidas profissionais, divorciados do mesmo nível de prática e convicções em nossa conduta privada.
1. Jerry White, Honesty, Morality and Conscience (Colorado Springs, Colo.: Navpress, 1978).
2. Citado em Andrew Stark, "What's the Matter with Business Ethics?" Harvard Business Review, May-June 1993, 39.
3. Ibid., 40.
4. Kenneth R. Andrews, "Ethics in Practice," Harvard Business Review, September-October 1989, 99.
5. Citado em Perspective: A Bi-Weekly Devotional Letter 43, no. 12 (5 June 1991).
6. Daniel R. Levine, "Cheating in Our Schools: A National Scandal," Reader's Digest, October 1995, 66.
7. Citado em ibid.
8. Citado em ibid.
9. Citado em ibid., 67.
10. Citado em ibid., 70.
11. "Cheating Up on Campuses with Honor Codes," USA Today, 11 March 1996.
O Major General Jerry E. White (Bacharel de Ciências, University of Washington; Mestrado em Ciências, Air Force Institute of Technology; Doutorado, Purdue University) é assessor para assuntos de mobilização do Comandante, QG do Comando de Material da Força Aérea, Wright-Patterson AFB, Ohio. O Gen White ingressou na Força Aérea em 1959 como graduado com distinção do programa de Preparação de Oficiais da Reserva da Universidade de Washington. Foi controlador de missão no auge do programa espacial. Lecionou por seis anos na Academia da USAF, foi co-autor de um livro-texto a nível nacional sobre astrodinâmica que ainda constitui texto padrão. Como civil, é presidente e superinten- dente de The Navigators — uma organização cristã internacional sediada em Colorado Springs, Colorado, com 3.600 auxiliares em 95 países. O Gen White cursou a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, a Escola de Comando e Estado-Maior e o Air War College, todos da USAF.
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solidão: a panacéia a todos os males!