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RAIA – O POÇO DO DESESPERO
I
Mónica Antão estava felicíssima com a paisagem que a rodeava. Apesar de ainda não se sentir adaptada ao calor ardente e sufocante, e ao elevado grau da humidade de Goa (Índia), ela, contudo, reconhecia-se compensada com o que contemplava. À sua direita situava-se o vasto arrozal que se alargava até a montanha esverdeada, em cujo topo se destacava uma bonita capela caiada de branco, dedicada ao Anjo S. Gabriel. À sua esquerda ficava uma lagoa de água retida das chuvas de Monção e que se estendia até as outras montanhas cobertas de um manto mais esverdeado do que o lado oposto. No arrozal viam-se alguns camponeses controlando o fluxo da água da lagoa que iria alimentar a segunda sementeira de arroz. As terras, em socalcos, estavam muito divididas em pequenos quadrados e pertenciam, umas, aos particulares e legadas pelas famílias de geração em geração, e, outras, à comunidade. Mónica não conseguia entender como é que aqueles homens e sobretudo as mulheres conseguiam expor-se ao cruel e impiedoso sol durante tantas horas. Estavam todos descalços e com água que lhes nivelava os joelhos. Algumas cabeças estavam cobertas com panos que lhes serviam de chapéus.
Debruçados, uns traçavam com varas círculos no terreno ensopado, enquanto outros riscavam longos sulcos. As primeiras colheitas (sorôdio) foram laboradas no final da Monção e agora no princípio deste mês de Dezembro já estavam a preparar-se para as segundas (vangana), graças à abundante água retida no outro lado da “banda” (terra amontoada que servia, simultaneamente, de estrada e dique). O panorama que ficava à sua esquerda era deslumbrante. A lagoa cobria-se de muitas plantas lacustres, entre as quais uma espécie de nenúfares que emitiam da sua parte central uma vistosa flor vermelha. Uma variedade de pássaros sobrevoavam aquelas plantas, enquanto as garças (bokim) e as gaivotas (sounnim) se atreviam a pousar naquelas ilhas flutuantes, exibindo-se de modo muito barulhento como que tentando intimidar a temível águia (gonn) esfomeada que pairava, alguns metros acima, em busca de uma presa. Lá mais adiante, as elevações estavam atapetadas por uma vegetação de um verde muito forte, tendo por fundo um céu azul turquesado completamente limpo. Certamente se o pintor Van Gog fosse vivo não deixaria de fixar na tela aquele pedaço do paraíso que ficava a dois passos da igreja de Raia (Salcete), e muito próximo do Seminário de Rachol, tendo como vizinho o rio Zúari.
Os pais da Mónica possuíam uma casa ancestral que ficava entre o seminário e a estrada principal que apontava para a agitada cidade de Margão. Ela nascera em Ottawa, (Canadá), para onde os pais, em 1950, tinham emigrado em busca de melhores perspetivas já que a sociedade goesa, sob domínio colonial, estagnara e não se vislumbrava qualquer mudança nos tempos mais próximos quer no desenvolvimento quer na liberdade. Naturalmente para aquela aventura incidiu uma influência: Freddy, um anglo-indiano, que do Canadá remetia longas cartas para o seu amigo, Carlos, pai da Mónica. Este tentava imaginar como seria aquela terra que Freddy descrevia com rasgados elogios, falando-lhe da disciplina, competência, desenvolvimento, riqueza, salários altos, quintas a perder de vista, grandes prédios e de um grande futuro.
Mónica, agora com 40 anos de idade, colaboradora ativa da sua paróquia católica, solteira que não tencionava dar o nó porque prezava muito a sua liberdade (ou não fosse ela canadiana), e licenciada em gestão de empresas, pertencia aos quadros superiores do South Canada Bank.
Além disso, pela forte educação religiosa que os pais lhe transmitiram, achava os homens canadianos demasiados materialistas, egoístas e até presumidos. Filha única, era muito inteligente, culta e sabia o que queria. A civilização indiana dizia-lhe muito.
Encontrava-se de férias na Índia pela décima vez, e no ano anterior adquirira um apartamento de luxo em Miramar, Panaji, próximo de D.Paula. Pelas contas dela e pelo seu nível de vida, o T3 que comprara era baratíssimo, pois que em Ottawa pagaria dez vezes mais. Nesta visita a Índia repartiu o mês das férias em três estadias: Os primeiros 10 dias foram passados entre Nova Delhi e Agra, os 10 seguintes em Panaji, no seu apartamento, e os restantes dias em Raia, em casa dos tios. Não conseguia esquecer o espetáculo maravilhoso, aquele que assistira na cidade de Agra, quando, depois de ter visitado o Agra Red Fort, subiu os degraus e deu de caras com o Taj Mahal. Aquela que é considerada uma das sete maravilhas do mundo deixou-a de boca aberta. Já tinha lido muita coisa, já tinha visto postais e vídeos, mas…estar naquele lugar e observar o mausoléu ao vivo, era de cortar a respiração.
Este ano, Panaji surpreendeu-a pelas movimentações e azáfama em torno das obras em andamento entre o Miramar e a Ponte Patto, com vista à realização do 35º Festival Internacional do Cinema Indiano. O jeep Mahindra, que alugara, tinha que ser conduzido muito lentamente naquela artéria.Com agrado verificou que o Mercado de Panaji estava ordenado e bem mais disciplinado do que no ano anterior e sempre bem abastecido não faltando nada nem mesmo os grandes e apetitosos caranguejos (curli) ainda vivos.
Mónica achou que já era tempo de regressar ao jeep que estacionara na parte mais larga da estrada. Permanecera aí, seguramente, mais de uma hora perdida nesse sonho real tão diferente das distantes terras frias do Canadá. Era quase meio-dia. Os imponentes coqueiros nas bermas formavam duas longas alas como se de guardas se tratassem, indo de um extremo ao outro.
Caminhava lentamente quanto reparou nas conhecidas plantas sensitivas “as noivas envergonhadas” (lojechem okol) que tanta admiração lhe causara quando visitara Goa pela primeira vez. Debruçou-se e com as chaves do Mahindra tocou nelas. As plantas executaram dois movimentos simultaneamente: fecharam as minúsculas folhas e baixaram os ténues raminhos espinhosos, colando-se ao chão vermelho e tornando-se quase invisíveis. «Fantástico!» -pensou. Estava naquela posição durante longos minutos, quando um velho camponês de tronco nu, conduzindo dois búfalos sujos de lama, aproximou-se dela:- «Kitem zalem, bhai? (Que se passa, menina?)». Mónica aprendera o konkani com os pais (coisa rara entre os goeses emigrantes), mas por falta de prática só dominava cerca de 50 por cento, o suficiente para se fazer entender como acontecia regularmente quando ia ao mercado de Panaji. Entendia quase tudo mas sentia alguma dificuldade quando queria expor as suas opiniões. Virou-se para o homem e com um bonito sorriso respondeu-lhe lentamente: -«Hem... zadd…coslem….tem… poittam.» (Estou a observar esta planta).
O homem de nome Gabru (corruptela de Gabriel, à boa maneira goesa), sempre curioso, perguntou-lhe ainda quem ela era, onde morava, o que fazia,...enfim, entabulou uma conversa e por fim aconselhou-a a não ficar muito tempo naquele local, porquanto mais abaixo ficava um poço, no qual ainda muito recentemente uma jovem estudante se suicidara e por isso que aquele lugar era agora considerado maldito e, onde, sobretudo à noite, ocorriam coisas estranhas. Mónica, ainda agachada, levantou a cabeça e viu o referido poço num dos cantos de um socalco. Gabru, como que arrepiado, abalou de imediato, deixando a indo-canadiana pensativa e ao mesmo tempo incrédula. Quando o velho se afastou uns metros, Mónica levantou-se, sacudiu a terra vermelha do joelho direito das calças blue-jeans e observou melhor o poço que tinha água até à borda circular, razão porque não o notara, pois confundira com a água que o cercava.
II
Durante o almoço evocou a história do suicídio e indagou por mais detalhes. Dominic, o primo mais velho e estudante, narrou-lhe que naquele poço, construído por gigantes de nome Paulistas, segundo uma antiga lenda goesa, fora encontrado o corpo de uma jovem de 18 anos. A estudante de nome Regina Dourado, perdida de amores e muita deprimida por não ser correspondida, pusera termo à sua vida. Dias mais tarde, de acordo com os boatos que circulavam, alguns moradores viram, próximo do lugar fatídico e bem noite dentro, um vulto feminino de braços estendidos para o céu como que a suplicar algo. O vulto não estava em terreno seco mas na lama, e por vezes parecia pairar no ar. O mistério adensara-se, acrescentaria Dominic, depois de um tal Gabru ter relatado aos amigos que numa determinada noite ao passar pelo local ouvira uma voz feminina sussurrando: - «Mujea Deva...Mujea Deva...» (Meu Deus…Meu Deus.) ao mesmo tempo que a água no interior do poço se agitava, embora não se avistasse nenhum vulto. Apenas sons ecoados de alguém numa situação de grande desespero.
Quando se deitou pelas 10 horas da noite, Mónica recordou-se dos inúmeros livros que lera e que descreviam os misteriosos relatos registados na milenária Índia. Os sanyasis (homens santos) nos Himalaias, seminus, enfrentando temperaturas abaixo de zero graus ou levitando-se no espaço como os flocos de algodão, as almas penadas dos soldados ingleses deambulando pelos fortes abandonados, a história dos gigantes Paulistas que numa só noite cavaram 12 poços em locais dispersos de Goa, utilizando pedras enormes para a sua construção e em especial as aparições da Nossa Senhora em Batim (Ganxim), próximo de Agaçaim.
Mónica interessara-se pelas aparições de Batim porque a vidente de origem goesa Yvetta Gomes também vivia no Canadá, mais precisamente em Marmora (Toronto), embora não a conhecesse pessoalmente. Yvetta, mãe de dois filhos, era natural da chamada ex-África Oriental Britânica tal como o seu marido, e um dia estando a rezar o terço numa quinta em Marmora passou por uma experiência mística. Contou que Nossa Senhora lhe tinha aparecido e pedido para viajar a Goa, onde a visitaria mais vezes. Assim, depois de ter examinado vários templos cristãos, deparou-se-lhe uma igreja decrépita numa pequena colina em Batim, onde a 24 de Setembro de 1994 assistiu à primeira Visão em Goa perante uma multidão. Este acontecimento extraordinário está registado no livro, editado várias vezes, "Was Mary There?", sendo seu autor o jornalista Marc de Souza da revista Goa Today. Este episódio ainda não foi reconhecido pela Igreja, apesar de Marc de Souza continuar a recolher testemunhos de "milagres".
III
Dois dias depois Mónica, levando como passageiros os tios e os primos, rumou à Velha Goa. Ia assistir à exposição das relíquias sagradas do Patrono de Goa, S. Francisco Xavier. Era uma manhã de segunda-feira, dia pouco concorrido, e a tia Adelina preparara um bom farnel que incluía uma garrafa-termo contendo o famoso "tea-rose" indiano que a indo-canadiana tanto apreciava e nunca se esquecia de o levar consigo, pelo menos 2 quilos, de regresso ao Canada. Depois de uma curta discussão sobre a melhor forma de atingir o destino, optou-se por evitar a taluka (distrito) de Ponda e circular por Margão, Verna, Cortalim, Agaçaim até próximo de Pilar. Daqui, por um atalho indicado por Dominic, alcançaram rapidamente Velha Goa. Arrumado a viatura no parque pago, caminharam para o cruzamento, onde cinco polícias controlavam o trânsito não permitindo qualquer circulação na avenida principal. Passaram por dezenas de tendas atulhadas de tudo, desde as refeições até ao vestuário. Resistiram ao ataque dos vendedores de velas e, finalmente, alcançaram a avenida principal. Do lado esquerdo ficava a Basílica do Bom Jesus e do lado oposto a Catedral, onde estava exposto o corpo de S. Francisco Xavier. Mónica mostrou-se alegre porque gostava daquele ambiente festivo que apresentava as duas faces, a religiosa e a profana. Lá estava o cunho tipicamente indiano, a religiosidade, o cruzar das pessoas de várias religiões, o vestuário diverso e garrido, as tendas do grão, bojé, sarapatel, gelebi, kalliô-bolliô, sumo de cana-de-açúcar, brinquedos, calçado, etc.
Como a missa só começaria às 15.00 horas, aproveitaram o tempo para tributarem veneração ao Santo. Desta vez, os fiéis em fila, estavam protegidos do sol pelo tecto da faixa de lona colorida que serpenteava até a entrada lateral da Catedral. No interior dois leigos esforçavam-se para que os fiéis não perdessem muito tempo junto da redoma de vidro com o Santo, a fim de que outras pessoas também pudessem avançar. Os jornais de Goa previam uma afluência de largos milhares de pessoas até ao encerramento da exposição. Mónica constatou a presença de alguns turistas europeus, da Alemanha e Grã-Bretanha, principalmente e, até da Rússia. A religiosidade destes naturalmente seria fraca ou nula, estavam lá como turistas e nada mais. Ela conhecia bem o Canadá e a vida material da grande maioria dos seus habitantes. Achava-os vazios por dentro, obcecados pelo dinheiro e sucesso. Muitos dos seus colegas da Universidade viram as suas vidas familiares terminadas em divórcios litigiosos. Mónica que, em termos de cultura adquirida, oscilava entre o Canadá e a Índia, aderia aos seus aspetos positivos. Assim, por um lado, apreciava o rigor e a disciplina do mundo anglo-saxónico, e por outro lado, a religiosidade e a serenidade do mundo indiano. Recordava-se da frase da sua grande heroína, a Madre Teresa de Calcutá: «-Os pobres da Índia eram mais felizes do que os pobres do Ocidente, porque eram crentes e tinham uma Fé e isso queria dizer Esperança.». A vida não se resume apenas a bens materiais. Que o diga o seu amigo canadiano Carl Olensonn, descendente de nórdicos, cujo casamento terminou mal, lançando os dois filhos para o mundo de droga. Teve tudo para ser feliz. É vice-presidente de uma importante empresa canadiana com ramificações nos Estados Unidos, Europa e Japão. A ex-esposa era advogada, e os dois filhos eram adoráveis, mas o vazio familiar tecera a sua trama. Hoje Carl era um homem destroçado por dentro, embora exteriormente exalasse sucesso por causa do seu Ferrari, da gravata de seda, do fato de boa qualidade, da vivenda e de outros sinais exteriores de riqueza. Na sociedade moderna, se a Fé não estiver edificada sobre rocha firme, tudo se perde. Durante a missa a indo-canadiana não conseguia esquecer o drama do poço da Raia. Será que o problema que tinha atormentado Regina Dourado teria sido somente passional? Ou haveria um segredo inacessível? Rezou pela sua alma para que Deus lhe desse o eterno descanso, já que na terra ninguém a tinha auxiliado.
IV
A tia Adelina não visitava a capital todos os dias e com a vantagem de se hospedar no luxuoso apartamento da sobrinha em Miramar. Os restantes familiares não a acompanharam devido a outros afazeres e aqui o luxo e o movimento de viaturas no exterior contrastavam com a paz na sua velha casa rústica. Aqui todas as comodidades eram tangíveis, mas faltava o calor humano. Raia era rica em arvoredo e contactos afáveis com familiares e vizinhos à toda a hora. Ela tinha completado 80 anos mas ainda se sentia forte e ativa no seu dia a dia e por isso aceitou o convite para assistir a um dos espetáculos programados pelos organizadores do IFFI (Festival Internacional do Cinema Indiano). Como acontece em qualquer canto do mundo, a ideia do IFFI foi apoiada por uns e combatida por outros, mas o projeto foi avante e depois da sua inauguração foi um sucesso. Ela estava ansiosa por ver o filme "Aleesha" do director Rajendra Talak, falado em konkani, já que não ia ao cinema desde a estreia do filme "A paixão de Cristo". Mónica fazia questão em levar a tia a todos os sítios. O restaurante Rio-Rico do hotel Mandovi teria sido uma coisa completamente obscura para ela se não tivesse ido almoçar lá. Aquele velho hotel de Panaji ainda resistia aos ventos do desenvolvimento que varria Goa. Notou grandes mudanças no Altinho desde que passeara por esse bairro há uns anos atrás. Gostou do mercado pela sua arrumação quando comparou com o velho do Margão, (o novo, junto do terminal de Kadamba era grandioso e superava o da capital). Os turistas acotovelavam-se no miradouro de Dona Paula, ora beneficiado. O Palácio de Hidalkhan que abrigava o velho Secretariado até há pouco tempo ia, segundo parece, ser transformado num museu. Mas a transformação mais espetacular ficava para os lados do Miramar com as suas largas dezenas de novas habitações com traços de arquitetura ocidental ao longo da marginal onde Mónica tinha comprado o seu apartamento. Naquela área a Natureza tinha recuado e cedido lugar ao betão. Panaji entrou no novo ciclo de desenvolvimento tornando-a sofisticada com cambiantes e caracterizações sem precedentes. Os trabalhadores oriundos dos estados de Maharashtra, Kerala, Karnataka, sobretudo, eram as verdadeiras formigas que em larga escala contribuíam para sua mudança. Também o Canadá e o seu poderoso vizinho, os Estados Unidos (dois dos sete mais ricos do mundo) devem muito aos emigrantes, pois foi a mão-de-obra barata depois da II Guerra Mundial que possibilitou a sua grandeza. A globalização (primeiro interestadual e mais tarde internacional) permitiu que a Índia atingisse 8% a 9% de crescimento económico nos últimos anos. Canadá e Índia são membros do Commonwealth e as relações foram sempre excelentes.
V
Eram dez horas da manhã quando Mónica acabou de ler o último capítulo do livro "The red letters:My father's enchanted period" de Ved Mehta, o famoso escritor indiano invisual, estabelecido em New York. Era sábado, e como Dominic estava em casa, pediu-lhe para a acompanhar até ao poço. Antes de regressar ao Canadá, queria fazer umas investigações particulares, porque achava o caso da Regina muito intrigante. A custo, o seu primo Dominic acompanhou-a até a "banda" (kazana). O Mahindra foi arrumado no mesmo local para não incomodar o escasso trânsito que pontualmente perturbava aquela área. O Sol já ia bem alto, o calor sufocava e nenhuma aragem se fazia sentir, e desta vez os trabalhadores labutavam ao lado dos búfalos negros que rasgavam a terra. Mais adiante um trator, propriedade de uma família abastada ou da comunidade, soltando ruídos ensurdecedores, fazia constantes vaivéns. Mónica disparou uma pergunta ao primo, querendo saber se acreditava em fantasmas, a que ele respondeu negativamente. Ela concordou, acrescentando que seria imaginação do povo, tal como acontecia com os índios canadianos férteis em contos fantásticos, que iam de Manitú aos lobisomens. Os dois notaram que o poço estava, aparentemente, a ser evitado pelos camponeses que se mantinham afastados a uma distância razoável. O drama ocorrera ao pôr-do-sol quando o local estava mais ou menos deserto. Por sugestão da Mónica, os dois caminharam para a casa mais próxima e foram atendidos por uma velha senhora de nome Zebel…a Zebel Mauxi (tia Isabel) que recolhia folhas secas do cajueiro, tombadas e dispersas no chão vermelho poeirento. Ela, com um ar muito triste, contou que naquela noite tivera um pesadelo. Viu uma águia gigante lançar-se sobre a sua neta de dez meses que estava deitada numa esteira estendida à sombra do cajueiro e ela correndo como uma louca, num gesto protetor, cobriu-a com o seu corpo e depois carregou-a nos braços e refugiou-se no interior da sua casa. Contudo, o animal aparecia agora refletido no espelho do armário. Despertou estremunhada e ficou a pensar no que iria acontecer durante o dia. Deveriam ser umas seis horas de manhã quando ouviu uma gritaria e viu muita gente a correr. Uma das pessoas contou-lhe que o corpo de uma menina, que não parecia ser do bairro, estava a boiar no poço. Horas depois do cadáver ter sido recolhido, a polícia localizou a sua família em Navelim. A pobre viera de longe para pôr fim a sua vida. A idosa relacionou o pesadelo com o suicídio, agora patenteado.
Mónica agradeceu a Zebel Mauxi pelas informações prestadas e os dois regressaram ao local. Ela olhando em redor, verificou que as plantas sensitivas agora cobriam densamente as duas bermas da “banda” (kazana), acompanhando as duas filas de coqueiros. Conversando deram uns passos e pararam a uns 10 metros do poço. Mónica confessou ao primo Dominic que gostaria de levar aquela planta para o Canadá, mas que duvidava da sua sobrevivência naquele clima tão rigoroso que atingia temperaturas negativas. Inclinou-se para as tocar com as chaves, mas…elas como que por magia fecharam-se. Ela nem sequer lhes tinha tocado! Que se passaria? Agora era outro grupo de folhas que se fechavam…e outro…e outro…até formar uma mancha que se foi alastrando até ao poço. Os primos não queriam acreditar no que viam. As plantas sensitivas foram, aparentemente, varridas por uma mão invisível do ponto onde se encontravam até ao poço! Elas, literalmente, “apagaram-se” de forma gradual dos pés da Mónica até ao poço, formando uma mancha de faixa acinzentada contrastando com o verde à sua volta. Imagine-se um barco invisível sulcando por sobre as águas calmas de um lago, deixando atrás de si um rasto bem visível. Foi isso que os dois viram! Uma onda de cor de cinza correu em direção ao poço! Mónica manteve-se calma enquanto Dominic gritava: - «Vamos embora daqui, já!».
Assumindo o controlo da situação, Mónica avançou para o poço e chegou a tempo de observar círculos concêntricos à superfície da água, que partiam do centro como se alguém tivesse lançado uma pequena pedra. Não estava apavorada porque eram 11.30 de manhã, estava acompanhada e havia gente no campo. Teria uma pequena cobra de água rastejado por debaixo das plantas e ter-se-ia lançado ao poço? Enquanto tentava perceber com frieza o inesperado fenómeno, uma folha de papel despertou a sua atenção. Estava coberta com um nenúfar ressequido. Apanhou-a e caminhou para o jeep onde o primo, apavorado, a esperava. Era uma folha pautada com um texto escrito à tinta ocupando sete linhas e quase sumido. Estava redigido em inglês e só se conseguia ler algumas palavras: “ (myself) (unhappy) (mother’s gold) (mistake) (Camilo) (f # rever) (Regin#). (eu própria...infeliz…ouro da mãe...erro...Camilo...para s#mpre...Regin#)”.O orvalho tinha apagado a letra “a” da palavra Regina.
Mónica pediu ao primo que repetisse o nome da falecida. Dominic com voz trémula recordou-lhe: «-Regina Dourado.». Fez-se um longo silêncio que foi quebrado por Mónica num perfeito inglês com sotaque americano: - «Tanta gente que esteve aqui, polícias, familiares, amigos, curiosos e trabalhadores, e ninguém reparou neste papel? Quem será este Camilo? Ela menciona o ouro da mãe, porque será? Vamos entregar esta preciosidade à polícia.».
Aqueles que trabalhavam no campo não se deram conta do alvoroço que reinava mais acima.
VI
Aeroporto de Frankfurt às 08.30 horas. Mónica dentro de 50 minutos irá embarcar para o Canadá. Sentada no espaço reservado para os passageiros em trânsito recompunha-se do voo Mumbay-Frankfurt e dali observava o "Travel Value & Duty Free", onde, minutos antes, adquirira algumas lembranças para os pais. Como sempre, reinava uma grande azáfama naquele aeroporto titânico da Alemanha. Estava muito cansada, e mais uma vez veio-lhe à memória o caso do poço da Raia. Assim que entregou a carta da infeliz estudante à polícia, o inspetor Narayan Naik reabriu o processo e deslindou o mistério. Não fora apenas um caso passional mas também um crime, porque o jovem Camilo, e colega da escola, sabendo da paixão da Regina por si, convenceu-a a desviar parte do ouro da sua mãe com a promessa de lho devolver mais tarde. Regina, sem conhecimento da sua mãe, retirou da caixa de jóias duas pulseiras e um anel de ouro. O inspetor Naik apurou que o objetivo do Camilo, com o produto da venda do ouro, foi o de obter um passaporte português, tendo para isso de pagar uma avultada importância a dois intermediários, um em Goa e outro em Portugal. Quando Regina deu conta do erro, já era demasiado tarde e sabendo que a sua mãe, cedo ou tarde, iria dar pela falta das jóias, pôs termo a sua vida. Camilo, esse agora teria de enfrentar a justiça. Mas que dizer das "lojechem okol"que se fecharam misteriosamente? Foram excitadas por uma furtiva serpente de água ou por uma misteriosa mão invisível? Mónica Antão jamais saberia. Os pais dela iriam a Índia em Maio, mês das mangas, a rainha das frutas, e saberiam certamente mais alguma coisa.
Pedro Mascarenhas
02/03/2008
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It's curious how similar these words are : Paulistas and Paiutes ; Ancient legend among First Nations -USA)
Paiutes
Brian Dunning of Skeptoid explored Paiutes legends and found no mention of the Sitecah being giants. It seems there was, however, a people who practiced cannibalism and who lived in Lovelock Cave. Human remains have been found there, and a few of the human bones had the marrow removed, suggesting the marrow was eaten. Cannibalism seems to have been a rare practice among these peoples, however.
The remains do have red hair, but this may be because black hair can turn red with time.
Miners unearthed the artifacts in 1912, leaving them in a pile before eventually contacting the University of California. Anthropologist Llewellyn L. Loud traveled from the university to the site to investigate. It is commonly agreed that excavation of the site was not handled well and certainly not up to modern standards. But some proponents of the Sitecah giants theory say researchers have deliberately covered up any giant remains found there