Embora Georg Simmel (1858-1918) seja cada vez mais reconhecido como um precursor da filosofia da técnica, a amplitude das reflexões sobre o crescente predomínio da cultura dos objectos sobre a cultura dos sujeitos ultrapassa o estrito âmbito do estatuto
e função dos artefactos, instrumentos, máquinas, sistemas…
O
“mecanismo socialmente‑técnico” que ao longo da Modernidade se impôs, exterior e objectivamente, na divisão do trabalho, na economia monetária,
no ordenamento das grandes cidades massificadas e em múltiplos aspectos da existência quotidiana, estende-se, interior e subjectivamente, à psicologia do homem urbano, chegando mesmo a modelar categorias do pensamento e o exercício da investigação científica.
Sendo que os planos da sociedade e da cultura não são auto‑suficientes nem originários, mas radicam num fundamento subjacente, a energia criativa e diferenciadora da Vida, é a essa instância metafísica que a filosofia de Simmel reconduz o paradoxo trágico
de a Vida (Leben) produzir formas com automatismo próprio e lógica imanente, que não sendo já orgânicas são como que dotadas de “mais-que-vida” (Mehr‑als‑Leben).