Nova Publicação
Pluralidades da Filosofia do Cuidado
Colecção eQuodlibet n.º 18
O presente volume nasce de uma convicção partilhada: a de que o cuidado constitui uma das categorias filosóficas mais urgentes e, simultaneamente, mais subteorizadas do pensamento contemporâneo. Urgente, porque as crises que atravessam o nosso tempo - ecológica, migratória, democrática, sanitária - revelam, com uma clareza que se vai tornando intolerável, a fragilidade das arquitecturas conceptuais construídas sobre o primado da autonomia, da soberania e do controlo. Subteorizada, porque, apesar da fertilidade das últimas décadas - desde a «voz diferente» de Carol Gilligan até ao Care Turn que marca as ciências sociais e humanas do século XXI - o cuidado permanece frequentemente aprisionado em domínios disciplinares estanques ou reduzido a uma ética do privado, incapaz de irradiar para a totalidade da vida pública e política.
A filosofia tem uma responsabilidade particular neste debate. Não apenas porque dispõe das ferramentas conceptuais para interrogar os fundamentos e as implicações da noção de cuidado, mas porque foi precisamente a tradição filosófica - da antropologia filosófica moderna ao existencialismo, do contractualismo liberal à fenomenologia - que contribuiu para fixar as categorias que hoje importa rever: a auto- suficiência do sujeito racional, a dicotomia entre natureza e história, a separação entre esfera pública e esfera privada, a primazia da justiça abstracta sobre a solicitude concreta. Interrogar o cuidado filosoficamente significa, portanto, interrogar a própria tradição que o marginalizou.
É precisamente este movimento duplo - de recuperação e de crítica, de fidelidade às fontes e de abertura ao presente - que os ensaios reunidos neste volume procuram realizar. Os oito textos aqui publicados provêm de investigadores de várias universidades e abordam o cuidado a partir de perspectivas tão distintas como a filosofia da natureza, a fenomenologia, a ética das virtudes, a filosofia política, a ontologia relacional e a psicologia existencial. A pluralidade das línguas - português, espanhol - reflecte ela própria a dimensão ibero-americana deste projecto colectivo, que recusa a ilusão de um ponto de vista único e afirma, pelo contrário, que pensar o cuidado exige uma abertura radical à alteridade - dos outros, das culturas, das línguas.
|