António Braz Teixeira
I. Se bem que, como Adolpho Crippa, haja dedicado também alguma atenção reflexiva ao sagrado e ao mito, Gilberto de Mello Kujawski não só não fez deles o centro da sua inquirição especulativa como, tendo no raciovitalismo de Ortega e Gasset e Julián Marías a principal referência do seu pensar, não acompanhou os autores de Dialéctica das consciências e Mito e cultura na crítica ao humanismo, havendo feito, como aqueles dois especulativos espanhóis, da perspectiva antropológica o ponto de partida da sua meditação filosófica, numa obra que, como a destes, tem privilegiado a expressão ensaística, sem prejuízo do seu intrínseco carácter sistemático.
Em 1946, no final do ensino secundário, o futuro ensaísta foi aluno de Heraldo Barbuy, personalidade humana e intelectual que sempre muito admirou e de cujo círculo intelectual veio a fazer parte[2], tendo, depois, concluído a licenciatura em Direito e em Filosofia (1955) na Universidade Católica paulista, em que imperava, então, uma “rigorosa, embora não inflexível disciplina escolástica” e na qual se destacavam dois mestres de grande craveira, o paulista Alexandre Correia (1890-1984) e o belga Leonardo van Acker (1896-1986), de cujo saber conservou admirativa lembrança[3].
Ainda durante o curso, passou a fazer parte do Instituto Brasileiro de Filosofia (1954), tendo sido um dos fundadores da revista Diálogo, dirigida por Dora e Vicente Ferreira da Silva, em cujo círculo participou e a cuja obra e pensamento dedicou alguns notáveis estudos hermenêuticos, que revelam a extraordinária admiração intelectual que sempre nutriu por aquele que considerava “a personalidade filosófica brasileira mais soberba, criativa e original” do século XX[4] e que profundamente o marcou.
II. Ao procurar explicar as razões que o conduziram ao pensamento de Ortega, Kujawski notou que, desde a conclusão dos seus estudos universitários, em meados da década de 50 do século passado, sentiu a “imperiosa necessidade de descobrir um ponto de vista que permitisse interpretar o mundo a partir do seu nível histórico presente”, havendo encontrado na filosofia da razão vital o arrimo que buscava, por considerar que ela fazia parte da sua “circunstância”, não só por ser pensada e expressa numa língua que é a mais próxima da sua língua materna, o que garantiria maior autenticidade ao seu pensar, como ainda, por o mestre espanhol abordar as questões filosófica no “nível do homem espantado ou maravilhado com o espectáculo da realidade” e por ir ao encontro “do apetite de plasticidade e da sede de imagens da tradição barroca brasileira”. Por outro lado, Ortega aparecia-lhe como um “mediador riquíssimo de informação filosófica”, assim como tinha a oportunidade de, frequentemente, “superar com grande antecipação” o que os movimentos especulativos do centro da Europa tinham de positivo e de negativo. Deste modo, para o ensaísta brasileiro, a filosofia orteguiana, desenvolvida e completada pelo seu mais relevante discípulo e continuador, Julián Marías, apresentava-se não como uma opção entre outras possíveis mas como “uma imposição da circunstância hispano-americana”[5].
Note-se, contudo, que embora o neo-tomismo dos seus mestres na Universidade Católica de São Bento não se lhe afigurasse capaz de resolver o problema com que se defrontara na sua juventude e a que permaneceu fiel, não deixou, um quarto de século mais tarde, de reconhecer a necessidade de promover o regresso do Doutor Angélico ao mesmo tempo que afirmava que “a teologia deve estar no mundo (…) mas o mundo não se explica e não se sustenta sem fundamentos teológicos”[6].
III. A reconhecida filiação orteguiana e raciovitalista da reflexão de Gilberto de Mello Kujawski levava-o a entender que, contrariamente ao que pensara Farias Brito, a Filosofia não constituía uma “actividade permanente do espírito humano”, nem, diversamente do que sustentava o seu companheiro de geração Adolpho Crippa, era uma “tendência natural” do mesmo espírito humano, uma vez que, tal como a concebia, se apresentava como um “que fazer” circunstancial, localizado, datado, originário da Grécia do século V a.C. destinado a suprir com “ideias” o oco das “crenças volatilizadas”, algo histórico, que o homem só faz quando de todo não pode deixar de o fazer, quando não lhe é possível fazer outra coisa. Deste modo, a Filosofia não seria algo que surgisse como resultado natural da faculdade humana de conhecer, pois, enquanto inquirição do ser do mundo, mediante ideias rigorosas, aparece unicamente quando o homem deixa de estar confiantemente apoiado no mundo tradicional das “crenças” em que até aí “estava” e a sua vida passa a defrontar-se com um mundo de dúvidas e ele se vê, então, forçado a pensar sobre as coisas para saber a que ater-se, para superar aquelas dúvidas, o que, para o pensador paulista, significa ser a Filosofia o esforço que o homem faz para “tornar familiar o mundo desconhecido, inseguro e agressivo “em que vive”, sendo, por isso, um pensar com a vida e com as coisas.[7]
Daí que seja também e acima de tudo o pôr radical e permanentemente em questão todo o conhecimento, nos seus limites e no seu alcance, bem como a própria noção de conhecimento, na busca da certeza primeira e radical em que caiba o mundo na sua totalidade e a vida dentro do mundo, o que a leva a mover-se no sentido da origem, o mesmo é dizer da situação primária do homem perante o mundo, que é “situação de perda, extravio e da mais vertiginosa desorientação”.
A Filosofia tem, por isso, como função ou como objectivo libertar o pensamento do mito, da religião, do senso comum, da ciência positiva e da política, separando-o da sua adesão às crenças tradicionais e devolvendo-o a si mesmo.
Advertia o ensaísta que o pensamento tem uma razão de ser vital e não meramente teórica, visto que o homem pensa não para saber o que são ou em que consistem as coisas mas para, a partir desse saber ou desse conhecimento, poder orientar-se no mundo e aprender a comportar-se nesse mesmo mundo e o que dele pode esperar. Esclarecia, ainda, o pensador paulista que, rigorosamente, verdadeiro pensamento era apenas o pensamento filosófico, uma vez que só nele o pensamento se encontra libertado para si mesmo e se acha livre de injunções e associações que lhe sejam estranhas, pois o pensamento apresenta sempre carácter vital, dado ser provocado pela dúvida radical, a que surge sempre que a vida humana depara com a incerteza e a insegurança quanto ao caminho a trilhar para projectar e organizar, de modo consistente, a respectiva trajectória.
Daqui resultaria, então, que, para Kujawski, como para Ortega e Marías, o pensamento nasce da dúvida, mas dúvida vital e não teórica, pelo que não vem a consistir em mera especulação ou actividade especulativa, mas, pelo contrário, é uma função da própria vida, cujo destino é abrir caminho no “meio do caos dos tempos de crise”, assentar os “novos fundamentos de um mundo em que a vida possa instalar-se e projectar-se com segurança”.
Notava, ainda, o especulativo paulista que o pensamento, cuja forma mais autêntica é a Filosofia, quando logra libertar-se de toda e qualquer injunção a ele alheia, passa a ficar em condições de reatar as suas relações com aquelas instâncias que, anteriormente, o oprimiam ou limitavam, as quais servirão, agora, para alimentar a Filosofia na sua actividade especulativa e para que ela venha a descobrir-se mais e melhor a si mesma.[8]
Por outro lado, lembrava, ainda, o autor de O sentido da vida que a Filosofia se individualiza por ter por objecto não qualquer realidade particular mas a realidade na sua totalidade ou na sua dimensão universal, sendo, por isso, “a tentativa de pensar as coisas na perspectiva do mundo”, nisso se distinguindo, substantivamente, de toda a ciência particular. Com efeito, enquanto cada ciência conhece, antecipadamente, o seu próprio objecto de estudo e os respectivos atributos, a Filosofia, porque visa o conhecimento do universal, dirige-se, necessariamente, ao desconhecido, seu impostergável horizonte.[9]
[1] Excerto de A “Escola de São Paulo" (Ed. MIL, 2016), aqui republicado em homenagem ao filósofo brasileiro, falecido a 22 de Dezembro de 2025.
[2] Discurso sobre a violência e outros temas, São Paulo, Soma, 1985, pp. 160-169. Do círculo intelectual de Barbuy, em larga medida coincidente com o de Vicente Ferreira da Silva, faziam ainda parte, além do mesmo e sua mulher, Belkiss, Vicente e sua mulher Dora, Eudoro de Sousa, Renato Cirell Czerna, Adolpho Crippa, Milton Vargas, Diva de Toledo Piza, José Pedro Galvão de Sousa e Jessy Santos, entre outros.
[3] Perspectivas filosóficas, Livraria Duas Cidades, São Paulo, 1983, p. 14, e Discurso sobre a violência, p. 14.
[4] Discurso, pp. 142-153. Cfr.
[5] Perspectivas, pp. 9-12, e Discurso, pp. 40-43. Neste último livro, Kujawki apresenta uma visão do Brasil, que mais tarde matizará (cfr. A ideia do Brasil: uma arquitectura incompleta, 2001 e A identidade nacional, 2005), que acentua a sua pretensa dimensão hispânica em claro detrimento da sua matriz e herança cultural portuguesa, ao mesmo tempo que tende a menosprezar as profundas diferenças entre a língua portuguesa e castelhana, assim como o que claramente distingue a tradição especulativa luso-brasileira de Amorim Viana, Antero, Cunha Seixas, Bruno, Leonardo Coimbra, Tobias Barreto e Farias Brito da hispano-americana de Unamuno, Ortega, Zubiri, Maria Zambrano, Julián Marías, José Vasconcelos, Carlos Vaz Ferreira, Alexandro Korn e Francisco Romero e não tem na devida conta o trabalho especulativo, então já em plena maturidade, das principais figuras da “Escola” paulista.
[6] Perspectivas, pp. 13-24.
[7] Idem, pp. 108-109 e 115, e Discurso, pp. 42-43, 118-119 e 173.
[8] A identidade nacional, pp. 67-77.
[9] O sentido da vida, São Paulo, Editora Gaia, 2010, p. 128.