Esta comunicação propõe uma reflexão sobre a superfície como categoria central da experiência contemporânea. Partindo da crítica à cultura de “superficialização” da modernidade tardia — marcada por objectos lisos, corpos perfeitamente delimitados e tecnologias
orientadas para a desmaterialização — proponho distinguir entre superfícies que isolam e superfícies que fazem relação. Contra a lógica da imunização e da disponibilidade total do mundo, defende-se uma ecologia das superfícies fundada no contacto, na sensibilidade
e na contingência.
A noção de “aflorar” designa o gesto pelo qual algo vem à superfície e se torna tocável, pensável e habitável. Através de exemplos biológicos, arquitectónicos e estéticos, mostra-se como a profundidade pode existir sob a forma de superfícies sensíveis:
raízes, alvéolos, sistemas nervosos, pele, memória e escrita funcionam como dispositivos de ampliação do contacto com o mundo.
Num segundo momento, a comunicação aborda a ideia de “espessura” enquanto cruzamento contingente de planos semânticos, perceptivos e temporais. Inspirando-se em Louis Althusser, propõe-se uma filosofia do encontro assente no desvio, na interferência e
no quase-acaso. As superfícies tornam-se, assim, lugares de ressonância e emergência de sentido, onde o desgaste, a sobreposição e o vestígio produzem novas formas de experiência.