Na sexta-feira 22 de julho, o Município de Peniche anunciava o falecimento de Mariano Calado, professor e escritor, e figura notável na história cultural e cívica de Peniche. Mas ele é também um nome incontornável na história da ecologia como movimento social em Portugal, tendo-se destacado como crítico e opositor dos projetos que, desde 1974 (e vindos provavelmente já de antes), visavam implantar uma central nuclear na aldeia agrícola e piscatória de Ferrel, situada perto de Peniche.
Natural de Almeirim mas fixado em Peniche desde os dois anos de idade, Mariano Calado distinguiu-se como profundo conhecedor dessa região, a que dedicou numerosas obras de investigação e de divulgação. Foi igualmente poeta e romancista, tendo-se ainda destacado pelo seu sentido cívico e pela dedicação ao bem comum. Deputado da Assembleia Municipal, teve diversas outras intervenções de relevo no município:
UM DECIDIDO OPOSITOR DO NUCLEAR
A Campo Aberto teve contacto próximo com Mariano Calado sobretudo em 2006. Nessa época, existia um lóbi pro-nuclear em Portugal, que queria voltar à ideia de nuclearizar o país, a qual tinha sido abandonada desde 1985. Nesse ano de 2006 constituiu-se uma comissão organizadora da comemoração dos 30 anos da marcha e manifestação de Ferrel em que os habitantes dessa aldeia proclamaram a sua firme oposição à construção de qualquer central nuclear. Dessa comissão fez parte Mariano Calado.
Em www.campoaberto.pt, procurando pela palavra «Ferrel», encontram-se cinco artigos com informações sobre as comemorações de 2006. Com a realização dessas comemorações, em que a Campo Aberto se empenhou e nas quais colaborou, ficou bem patente que a sociedade portuguesa continuava profundamente empenhada em recusar qualquer veleidade de incluir o nuclear como opção energética. Hoje, em 2022, assistimos a um novo surto de defensores do nuclear, que decerto terão o mesmo resultado que em 2006: evidenciar que em Portugal o nuclear continua a ser firmemente recusado pela população e pelos governos.

Nessas comemorações foi lançado o livro de Mariano Calado, então acabado de publicar, A Maldição das Bruxas de Ferrel. O editor (Edições Sempre-em-Pé) considerou-o um romance-realidade, tecido entre ficção e história fidedigna. O tema é sobretudo a revolta do povo de Ferrel, em 1976, contra a ameaça de instalação daquela que pretendia ser a primeira central nuclear portuguesa. Com efeito, constava por essa época que estava a ser projetada, para as proximidades dessa aldeia, uma central nuclear (dita «a primeira central nuclear portuguesa»; de facto, não houve em Portugal nem primeira nem segunda).
A Campo Aberto exprime à Família de Mariano Calado e ao Município de Peniche o seu pesar e a firme convicção de que a opção antinuclear de Mariano Calado continua profundamente arreigada entre a população de Ferrel e de Peniche, e em Portugal inteiro.
