Guardadas as proporções
devidas, a posição estapafúrdia da dita Academia não deixa de ser
a conclusão lógica levada aos limites, no que toca à
regulamentação (e, em consequência, a tudo o que isso implica) dos
estudos de Filosofia, por ex. Já foi dito aqui – e o disseram com
razão – que cursos universitários não formam filósofos, mas
professores de Filosofia. Mas muitas, muitas vezes não é bem isso o
que se nota quando um sujeito é entrevistado, ou citado num artigo,
etc. Formou-se em Filosofia na USP ou na UNIBIMBO – em princípio,
tanto faz – e já se diz, e dizem do fulano: “Filósofo”. E os
colegas acham bonito porque, claro, serve pra eles também. Fica
aquela troca de socráticos confetes.
Convenhamos: mesmo
aqueles que seguiram os protocolares trâmites e fizeram graduação,
metrado, doutorado, pós-doc (França, Sorbonne – Paris 2,7/+05/68)
e têm mais medalhas no peito que veterano de guerra não são,
necessariamente, filósofos, no sentido estricto do termo. Idem para
os formados em Letras que não são escritores. E para aqueles
formados em Artes Plásticas e tal.
Pois bem, a lebre que
pretendo levantar é: se cursos universitários não formam filósofos
e, convenhamos, nem sempre formam sequer bons comentadores de
filosofia e, Deus nos perdoe!, muitas vezes nem mesmo razoáveis
professores de Filosofia (estou mentindo? Creio que não), por que
Diabos o título universitário há de ser tão importante assim?
Seria impossível imaginar que houvesse, por ex, algum tipo de prova
de proficiência rigorosa e, aprovado, ao autodidata em Filosofia
fosse dado o direito de ensinar no ensino superior ou mesmo
empreender pesquisas de mestrado e doutorado sem que,
necessariamente, tenha passado pelo bacharelado e faça parte, desde
os cueiros, do grêmio acadêmico?
A própria ideia de produção acadêmica me causa sartreanas náuseas: como é
possível que todo ano, centenas, milhares de alunos país (mundo)
afora em cursos de Filosofia produzam dissertações e teses
de extrema relevância? Dá pra fazer isso: produzir
conhecimento? Quer dizer: o professor Newton foi lá e, ele
sozinho (ainda que um ou outro tenha chegado, de forma independente,
a algo semelhante, salvo engano), descobriu ou desenvolveu os
princípios todos da Lógica Paraconsistente. Ele foi e fez. Outros
grandes alunos aprenderam com ele (vários aqui da lista, certo?) e
estão desenvolvendo o trabalho. Ele é um exemplo. Reale e sua
Teoria Tridimensional do Direito, outro. Mas e então? Os outros
todos estão aí nas salas produzindo ciência, realizando
insondáveis descobertas que já já a gente vai acabar conhecendo?
Dá pra chegar e: “Vai lá pro quarto produzir ciência, moleque!”,
e o cara voltar, três anos depois, todo feliz dizendo: “Produzi
uma coisa lá, fessor!”
Essa
coisa de que conhecimento é algo a ser produzido, do modo como é
colocada, é como chegar no sujeito que inventou a roda e
exigir: “Agora, para doutorado, trate de produzir um outro negócio
aí, porque aquele seu colega já descobriu o fogo...”. E tudo isso que falei em Filosofia – que dizer em Artes,
então? “Olha aqui, oh seu Picasso: ou você me produz uns quadros
para o mês que vem, ou te corto aquela verba da CAPES. Então te
vira!”.
Pensando
bem: não é de surpreender que uns coitados tenham de inventar cura
quântica, terapia à base de toques com os cotovelos de sábios
chineses e por aí vai...
http://www.ibf.net.br/index.html