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LOGICA-L
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Olá, Márcio!
Achei muito interessantes suas perguntas. Eu tenho me perguntado coisas parecidas.
Me aproximei da matemática em busca de um conhecimento imutável e da "verdade" (a noção ingênua de verdade), para ver como os matemáticos "descobrem" a matemática que está "por aí".
Aos pouquinhos vou lendo e percebendo que a matemática está mais para uma implementação de ideias abstratas, projeções da razão humana, para lidar com padrões que nossos sentidos percebem do que há "lá fora" (digo "lá fora" para me referir ao que existe fora do nosso "aparelho" sensitivo, o cérebro; eu acredito que não é exagerada a premissa de que existe uma realidade que independe do pensamento humano).
No início da história da matemática, projeções úteis da razão humana (abstrações) andavam muito próximas da discussão do que há "lá fora". Mais recentemente, os matemáticos vão se emancipando dessa relação entre nossas projeções abstratas da razão humana e o que há "lá fora", e a matemática vai virando algo mais introspectivo, voltado ao que há "aqui dentro" (nossa forma de raciocinar), nos perdendo cada vez mais nos labirintos do método axiomático e procurando implementar uma construção mental coerente. Daí a diversidade de implementações das ideias originais do cálculo, cada uma com seus prós e contras, sobre uma suposta bandeira do "rigor". Mas me parece que essas tentativas de implementar rigorosamente tais ideias abstratas em um determinado framework teórico podem acabar alienando toda uma comunidade de matemáticos que só conversa entre si, virando um clube exclusivo de uma "construçãozinha mental" bonita para colocar na prateleira. E me pergunto o quanto realmente isso tem a dizer sobre o problema original que originou as ideias, como no cálculo, onde os físicos já estavam usando e abusando sem se preocupar com os diversos "sabores" de implementações que os matemáticos vieram a criar.
Não quero dizer que todas as implementações rigorosas das ideias abstratas do cálculo (ou qualquer outro domínio matemático) sejam apenas pedantismo exagerado dos matemáticos, mas podemos facilmente nos perder nessas implementações abstratas e levá-las muito a sério, como você mesmo disse ter levado em sua iniciação na matemática.
Isso me faz lembrar do seguinte:
Problemas fundamentais e basilares nunca desaparecem. Cada geração formula suas próprias respostas, personalidades fortes impõem suas concepções... alguns ignoram aspectos específicos do problema para chegar a algum lugar, mas eles nunca somem por completo: esperam, pacientemente, do lado de fora da sua confortável construçãozinha mental.
— Gregory Chaitin, MetaMath: The Quest for Omega
Por exemplo, a ideia do contínuo, que para mim é uma projeção da razão humana, e que ainda estamos perdidos tentando justificar tal ideia abstrata. Segue um trecho de uma entrevista do Prof. Chico Miraglia:
https://www.youtube.com/clip/UgkxX6p5jra15Pf49Aa2kUz3HcIRFlOSdHkT
Onde ele fala que ZFC, apesar do esforço descomunal para desenvolver esta "construçãozinha mental", ainda diz pouco sobre a ideia do contínuo. Mas o desenvolvimento dessa "construçãozinha mental" criou um clube exclusivo de matemáticos que se apavonam entre si, e nos cursos de matemática mundo afora menciona-se "ZFC" quase como um ponto final, os nove mandamentos que salvaram a matemática de uma suposta crise sobre seus fundamentos. É normal que se confie nessas coisas e sigamos em frente como se não houvesse nada de errado com nosso modo de trabalhar.
A matemática ainda é, e deve continuar servindo, como uma espécie de aparato conceitual e linguístico que nos permite jogar uma espécie de "luminou" para fazer aparecer o que há "lá fora", mas parte da comunidade matemática acaba se distanciando muitas vezes desse propósito e vivendo no mundo abstrato. É claro que, eventualmente, como me disse certa vez o Prof. Carnielli, brincando, "a física encontra aplicação" nessa alienação dos matemáticos do mundo "aqui dentro". Mas, ainda assim, me parece que muitas vezes viramos técnicos desses labirintos mentais que talvez nada mais tenham a acrescentar sobre problemas basilares que, como disse Chaitin, nos aguardam pacientemente do lado de fora de nossas construções mentais.
Se animar, gostaria poder conversar mais contigo sobre este assunto para trocarmos "figurinhas", me passar suas leituras e pensamentos.
Forte abraço!
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LOGICA-L
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