Estado Bíblico

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Walter Carnielli

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Dec 10, 2021, 5:22:25 AM12/10/21
to Lista dos Logicos Brasileiros
Pessoal, sobre essa questão da " "Construção do Reino de Deus" na UFRN, parece que  algumas pessoas não estão percebendo bem o ponto.

Claro que seria fantástico fazer um curso sobre o Talmud , sobre o Budismo, sobre a teologia cristã na filosofia , ou sobre o Candomblé, ou sobre o Sufismo.


 O problema é que  o curso em questão *quase certamente* não é isso, mas é apologia ao "Estado Bíblico", coisa das igrejas neopentecostais.

Alguém francanebte duvida disso?

Walter 

Em sex., 10 de dez. de 2021 11:10, <logi...@dimap.ufrn.br> escreveu:
Daniel Durante <dura...@gmail.com>: Dec 09 11:38AM -0800

Oi Eduardo e colegas,
 
Nunca tinha ouvido falar deste curso. Não consigo ler o artigo do Globo.
Tem um paywall.
 
Mas a ementa da disciplina "medicina, saúde e espiritualidade", que o João
Marcos postou, me pareceu interessante. Pessoalmente, eu teria real
interesse em cursar uma disciplina sobre medicina e espiritualidade,
principalmente se ela fosse verdadeiramente pluralista no que tange à
religião.
 
Antes da pandemia andei frequentando um grupo de estudos aqui do Depto de
Filosofia da UFRN sobre os pensamentos indígenas brasileiros. A proposta
não é antropologia, é filosófica mesmo. E é bem legal. Recomendo muito o
livro "A Queda do Céu", do xamã yanomami Davi Kopenawa e do antropólogo
Bruce Albert. Sem falar nos excelentes livros do Ailton Krenak.
 
A medicina "ocidental" acadêmica é ainda um luxo em muitos lugares do
"Brasil profundo" e do raso também. Os passes, rezas, chás, impostação de
mãos, promessas,... sempre estiveram lá, com os doentes e as doenças, muito
antes da medicina chegar. E não vão embora quando as ambulâncias chegam. Em
minha opinião, faz muito bem à universidade, aos médicos e demais
profissionais interessados em saúde aprenderem um pouco sobre estas
tradições, sob diversos aspectos, inclusive sob a perspectiva dos que a
praticam e nelas acreditam.
 
Claro que eu não conheço este curso e não sei exatamente o que eles fazem.
Mas enquanto ideia geral, me parece positivo. Afinal, a saúde é um conceito
muito mais amplo do que aquilo que cabe na medicina e mesmo na biologia.
 
Saudações xamânicas,
Daniel.
 
Em quarta-feira, 8 de dezembro de 2021 às 00:14:15 UTC-3, eduardoochs
escreveu:
 
Joao Marcos <boto...@gmail.com>: Dec 09 05:13PM -0300

> me pareceu interessante. Pessoalmente, eu teria real interesse em cursar uma disciplina
> sobre medicina e espiritualidade, principalmente se ela fosse verdadeiramente pluralista
> no que tange à religião.
 
Boa, Daniel, então depois que você cursar a disciplina pode nos ajudar
a esclarecer os seguintes itens, abaixo.
 
> Seguir os princípios científicos através de uma abrangência
> eclética, valendo-se dos conceitos abordados durante o curso.
 
Gostaria de saber mais sobre o "ecletismo científico" que será seguido no curso.
 
> Utiliza-se como conteúdo, temas que envolvem assuntos
> relacionados a medicina, saúde e espiritualidade,
> abrangendo conceitos da física newtoniana e quântica,
 
Gostaria de saber quais os "conceitos da física newtoniana e quântica"
que serão abrangidos, e como.
 
> a conceituação de Deus na visão religiosa, a anatomofisiologia multidimensional, a medicina ayurvédica,
 
É, infelizmente o CFM já favoreceu faz tempo a inclusão das "Práticas
Integrativas e Complementares" no SUS.
https://aps.saude.gov.br/ape/pics
Discordo frontalmente, contudo, que isto seja pago com dinheiro público.
 
> a função do pensamento, das emoções e sentimentos como instrumentos da cura da alma, a instrumentalização terapêutica da prece e meditação,
 
Muito legal tudo isso, mas não funciona. Ou há estudos científicos
sobre essas coisas?
 
O(s) inexistente(s) currículo(s) do(s) nosso(s) colega(s) envolvidos
nesta disciplina não ajudam a passar uma boa impressão da empreitada
toda.
 
Noto, de todo modo, que a "abertura religiosa" na UFRN é bastante
conhecida. Temos um "templo ecumênico" no câmpus, financiado com
dinheiro público, temos professores que publicam livros sobre "os
dinossauros e a Bíblia", e cansei de ver a estrutura do câmpus ser
oficialmente emprestada aos fins de semana para encontros de grupos
religiosos. Mas tudo isto está errado, fora de lugar.
 
[]s, JM
Eduardo Ochs <eduar...@gmail.com>: Dec 09 09:19PM -0300

Oi Daniel!
 
Eu consigo imaginar disciplinas chamada "medicina, saúde e
espiritualidade" que seriam interessantíssimas... a primeira imagem
que me vem à cabeça é um curso dado por um médico que fez formação
complementar em Homeopatia (ou: Homeopatia-no-sentido-Eduardo, que é
algo completamente diferente de Homeopatia-no-sentido-João-Marcos) e
que tenha um pouquinho de noção de Antropologia... e aí esse médico
mostraria vários modelos mentais de como os seres humanos funcionam,
mostraria várias noções diferentes de "saúde" e "doença", mostraria os
pontos cegos que cada grupo aponta nas visões de ser humano, saúde e
doença dos outros grupos, e poria todo mundo pra estudar e discutir...
 
Só que tem alguns grupos que eu _acho_ que têm um modelo mental tão
ruim de como os seres humanos funcionam que eu fico achando que
pessoas desses grupos não têm como ter a estrutura mental necessária
pra dar um curso como o acima.
 
Um dos links que eu mandei no meu post inicial foi esse aqui,
 
https://archive.md/TeS69
 
que leva pra uma versão despaywallizada do artigo d'O Globo, e esse
trecho aqui do artigo. Olha esse trecho:
 
"A Universidade tem a vocação institucional da busca do conhecimento
em qualquer vertente que ele se apresente. Um dos conhecimentos mais
significativos para a humanidade, foi aquele trazido por Jesus, que
se dizia filho de Deus e comprovava isso com a produção de fenômenos
que estasvam acima da capacidade humana do seu tempo e até os dias
atuais, conforme relatos aceitos majoritariame pela maioria das
pessoas que é informada.
 
Ele explicava que veio ao mundo a pedido do Pai (Deus), assumir a
personalidade do Cristo (Messias, Salvador) para ensinar a
humanidade sobre o Amor, e a partir daí construir a família
universal que seria a base para a construção do Reino de Deus, uma
sociedade civil harmônica e sintonizada com a vontade de Deus.
 
A importância de sua vida foi importante, a humanidade reconhece,
pois dividiu o calendário em antes e depois do seu nascimento, nos
fatos pré e pós Cristo.
 
Muitas teses, livros, religiões foram desenvolvidas a partir dessas
circunstâncias, que pretendem envolver o mundo e tornar realidade o
Reino de Deus, a partir da Reforma Íntima feita por cada pessoa em
seu próprio coração, tornando-se um cidadão do Reino de Deus, mesmo
que esse reino não esteja ainda vigente na sociedade."
 
Esse trecho ativa vários gatilhos meus. Pra mim a frase "a família
universal que seria a base para a construção do Reino de Deus, uma
sociedade civil harmônica e sintonizada com a vontade de Deus" soa
como algo só pode ser dito por alguém que acha que indígenas e LGBTs
são não só pessoas doentes como maçãs podres que contaminam as outras
maçãs do cesto...
 
[[]],
Eduardo Ochs
 
Cassiano Terra Rodrigues <cassian...@gmail.com>: Dec 09 07:51PM -0800

Camaradas, boas noites.
 
Vou deixar aqui dois enlaces para vossa apreciação, antes de fazer algumas
considerações. Perdoem-me a loquacidade.
1º enlace: https://educare.fiocruz.br/resource/show?id=gMz-x5-F
2º enlace:
https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2019/12/20/constelacao-familiar-machismo-e-pseudociencia-custas-do-sus
Consideração: 0,0000003% da classe médica nacional não deve ser
bolsonarista, o que, convenhamos, é um bom sinal dadas as circunstâncias.
Perdoem o sarcasmo, mas adoro perguntas retóricas: Como chegamos a
Bolsonaro? #mistérioprofundo
Agora, deixando de lado apenas momentaneamente o exercício de cinismo
salutar à sanidade mental, é preciso lembrar que o termo pseudociência já
foi criticado por pressupor um sentido verdadeiro e único de ciência, o q,
como se sabe, leva a dificuldades de maior monta. Eu, particularmente, não
gosto da expressão, mas é a q se usa. Não tenho outra melhor para oferecer.
Peirce usava "sham reasoning" para contrastar com "inquiry" (não apenas
ciência, qq inquiry). Na inquiry, a conclusão é adotada após se raciocinar,
por se ter raciocinado; no sham reasoning, a conclusão é adotada antes de
raciocinar e o raciocínio é posteriormente usado apenas para justificar a
conclusão previamente aceita. Como a racionalidade científica emerge do
senso-comum, a relação é complicada.
Mas, penso, o ponto mais importante não é esse, mas q os negacionismos
atuais - o científico, o histórico e todos os outros q conseguirem
identificar - são um sintoma da modernidade reflexiva, conforme a expressão
q tomo do professor australiano Andy Blunden, isto é, são produzidos como
efeitos de uma cultura de massificação do saber formal. Pela primeira vez
na história, o século XX viu surgir uma massa de gente letrada, altamente
especializada e intelectualizada, a par e em consequência da massificação
da alfabetização (formal ou literal). Até o século XIX, a maior parte da
população mundial não só morria de cólera (ou outras doenças) como as
pessoas morriam analfabetas, sendo a literatura e a cultura científica
reservada às classes dominantes. O Gattopardo de Lampedusa, p.ex., era
astrônomo. Aquelas fotos da (ou das?) conferência que reuniu Einstein,
Marie Curie, Poincaré e outros, no começo do século XX, é bem ilustrativa:
quem fora dali já tinha ouvido falar em átomo, relatividade, radiação etc.?
Hoje em dia, a comunidade científica não só se expandiu além de qualquer
critério facilmente identificável como tornou obsoleto o ideal de
esclarecimento q a filosofia um dia tomou para si. A nossa modernidade
produziu um ceticismo racionalista altamente qualificado para questionar a
si própria e os negacionismos são rebentos desse fenômeno social, um filho
não reconhecido do Iluminismo (não diria bastardo; acho q bastardos são os
outros filhos, reconhecidos, dentre os quais a ideia de democracia
liberal). A reação romântica ao iluminismo tem muito desse ceticismo,
aliás. O recurso a uma transcendentalização do humano é velho conhecido dos
jovens místicos, desde mais ou menos Rudolf Steiner; mas a ideia remonta
pelo menos a Locke e se vê em livros, filmes, séries etc., e eu a resumo
assim: é da liberdade de cada um decidir viver segundo a norma da sociedade
política ou não; quem não quiser, pode voltar ao estado de natureza. O
abandono da civilização, no entanto, é artificial, pois não apenas as
bombas cairão sobre quaisquer cabeças em caso de guerra, como no estado de
natureza também tem gente, de forma que também tem normas (a não ser q
mandem matar e botar fogo em tudo, o q sempre é uma opção, como é público e
notório). Sobre esse ponto da idealização de uma vida fora dos padrões de
racionalidade e cientificidade instituídas e fuga da civilização, a quem se
interessar, sugiro a leitura de um livro muito bom, Jon Savage, A
Criação/Invenção da Juventude, não lembro bem como traduziram. Mas eu
poderia lembrar tb a história do Chris Supertramp, personagem real do livro
e do filme homônimos Into the wild; ou ainda o garoto urso, Timothy
Treadwell, cuja trágica história foi filmada por Werner Herzog. Num mundo
em que as instituições cada vez mais se mostram extorsivas e a força de
trabalho vale cada vez menos, não me espanta q mais gente com mais
informação e sofisticado grau de educação formal tenda a recusar a
civilização com base em argumentos de excepcionalidade individual (ouvi uma
vez de uma mãe: "eu é q sei o que é melhor para o meu filho, e não vc ou a
ciência"). Pois reencontrar uma essência natural que dará sentido à vida é
mesmo uma ideia muito atraente. Resolveria nossos problemas, não
precisariamos mais lutar contra as injustiças sociais ou contra o
peleguismo, o fascismo, o sexismo nosso de cada dia etc. Isso dá muito
trabalho, tem de existir outro jeito, né non? #sqn como se diz atualmente.
Uma vez, um estudante q se dizia "libertário" me perguntou, com cara de
espanto, "Então o senhor (quase caí de costas, fui promovido a senhor!)
acredita que as massas são capazes de se autogovernar?" Respondi com o
maior clássico dos professores e disse "Depende." ao q emendei outra
pergunta: "Vc faz parte das massas?". Pois é, esse é o nosso problema, ou
somos parte da matrix e não existe pílula azul, verde, vermelha... ou somos
deus ex machina e aí não tem problema, basta sentar e ver o espetáculo. Eu,
infelizmente, tenho q trabalhar para pagar aluguel, ainda não virei
gratiluz, ninguém me ofereceu pílula nenhuma (mentira, já, mas não cabe
aqui o contexto).
A par esse fenômeno de ceticismo racionalista voltado contra a própria
fonte do ceticismo epistêmico, a razão, ou as instituições oficiais que a
comunicam, bem entendido, há ainda o populismo contemporâneo que faz
política com estilo, ou melhor, o populismo atual é um estilo retórico de
fazer política. Sobretudo, é uma retórica q intenciona causar efeitos na
massa populacional conforme a meta política pretendida. Essa retórica é bem
simples: basta exaltar as virtudes "naturais" do "povo" e contrapô-las às
da "elite", ou qq outro inimigo imaginário, para fazer os sequazes se
oporem ou à própria sociedade ou ao "sistema". Essa retórica é mobilizada
com radicalismo toda vez q quem a mobiliza está perdendo no jogo eleitoral
(vou me eximir de dar exemplos, para não ferir sensibilidades, sobretudo a
minha). Como é possível constatar facilmente, funciona bem; pode ser falso,
fake, ou sei lá o q, mas é persuasivo. Machiavelli detectou bem o problema:
o príncipe é sobretudo aparência, nada é mais importante do que parecer
ser. Ser ou não ser, deixemos para Hamlet.
Não posso terminar sem deixar de observar mais uma coisa. Em nome de um
realismo que naturaliza a ordem social e econômica, as pautas
transformadoras são obliteradas por esse estilo populista em favor de
pautas mais candentes, de forma a esvaziar todo teor transformador do
ressentimento social, o qual é canalizado para alvos inócuos à manutenção
dessa mesma ordem. Outro dia vi um vídeo antigo de Paulo Maluf, no Roda
Viva, dando aula de democracia e saúde pública para uma bancada de
neo-yuppies que já obtiveram fama municipal. O tema era a proibição de
fumar em lugares públicos e fechados, qdo Maluf era prefeito de SP, lá em
1990 e bolinhas. Cada um que escolha qual exemplo mais atual pode ser
invocado. Para lembrar Lampedusa mais uma vez, tudo muda, mas permanece o
mesmo. Na verdade, o sentido da frase é mais cínico e mais certeiro: para
que tudo fique na mesma, é preciso que tudo mude.
Saudações a quem luta. Ou não.
cass.
 
 
On Thursday, December 9, 2021 at 9:19:44 PM UTC-3 eduardoochs wrote:
 
Cassiano Terra Rodrigues <cassian...@gmail.com>: Dec 10 12:50AM -0300

Camaradas, boas noites.
 
Vou deixar aqui dois enlaces para vossa apreciação, antes de fazer algumas
considerações. Perdoem-me a loquacidade.
1º enlace: https://educare.fiocruz.br/resource/show?id=gMz-x5-F
2º enlace:
https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2019/12/20/constelacao-familiar-machismo-e-pseudociencia-custas-do-sus
Consideração: 0,0000003% da classe médica nacional não deve ser
bolsonarista, o que, convenhamos, é um bom sinal dadas as circunstâncias.
Perdoem o sarcasmo, mas adoro perguntas retóricas: Como chegamos a
Bolsonaro? #mistérioprofundo
Agora, deixando de lado apenas momentaneamente o exercício de cinismo
salutar à sanidade mental, é preciso lembrar que o termo pseudociência já
foi criticado por pressupor um sentido verdadeiro e único de ciência, o q,
como se sabe, leva a dificuldades de maior monta. Eu, particularmente, não
gosto da expressão, mas é a q se usa. Não tenho outra melhor para oferecer.
Peirce usava "sham reasoning" para contrastar com "inquiry" (não apenas
ciência, qq inquiry). Na inquiry, a conclusão é adotada após se raciocinar,
por se ter raciocinado; no sham reasoning, a conclusão é adotada antes de
raciocinar e o raciocínio é posteriormente usado apenas para justificar a
conclusão previamente aceita. Como a racionalidade científica emerge do
senso-comum, a relação é complicada.
Mas, penso, o ponto mais importante não é esse, mas q os negacionismos
atuais - o científico, o histórico e todos os outros q conseguirem
identificar - são um sintoma da modernidade reflexiva, conforme a expressão
q tomo do professor australiano Andy Blunden, isto é, são produzidos como
efeitos de uma cultura de massificação do saber formal. Pela primeira vez
na história, o século XX viu surgir uma massa de gente letrada, altamente
especializada e intelectualizada, a par e em consequência da massificação
da alfabetização (formal ou literal). Até o século XIX, a maior parte da
população mundial não só morria de cólera (ou outras doenças) como as
pessoas morriam analfabetas, sendo a literatura e a cultura científica
reservada às classes dominantes. O Gattopardo de Lampedusa, p.ex., era
astrônomo. Aquelas fotos da (ou das?) conferência que reuniu Einstein,
Marie Curie, Poincaré e outros, no começo do século XX, é bem ilustrativa:
quem fora dali já tinha ouvido falar em átomo, relatividade, radiação etc.?
Hoje em dia, a comunidade científica não só se expandiu além de qualquer
critério facilmente identificável como tornou obsoleto o ideal de
esclarecimento q a filosofia um dia tomou para si. A nossa modernidade
produziu um ceticismo racionalista altamente qualificado para questionar a
si própria e os negacionismos são rebentos desse fenômeno social, um filho
não reconhecido do Iluminismo (não diria bastardo; acho q bastardos são os
outros filhos, reconhecidos, dentre os quais a ideia de democracia
liberal). A reação romântica ao iluminismo tem muito desse ceticismo,
aliás. O recurso a uma transcendentalização do humano é velho conhecido dos
jovens místicos, desde mais ou menos Rudolf Steiner; mas a ideia remonta
pelo menos a Locke e se vê em livros, filmes, séries etc., e eu a resumo
assim: é da liberdade de cada um decidir viver segundo a norma da sociedade
política ou não; quem não quiser, pode voltar ao estado de natureza. O
abandono da civilização, no entanto, é artificial, pois não apenas as
bombas cairão sobre quaisquer cabeças em caso de guerra, como no estado de
natureza também tem gente, de forma que também tem normas (a não ser q
mandem matar e botar fogo em tudo, o q sempre é uma opção, como é público e
notório). Sobre esse ponto da idealização de uma vida fora dos padrões de
racionalidade e cientificidade instituídas e fuga da civilização, a quem se
interessar, sugiro a leitura de um livro muito bom, Jon Savage, A
Criação/Invenção da Juventude, não lembro bem como traduziram. Mas eu
poderia lembrar tb a história do Chris Supertramp, personagem real do livro
e do filme homônimos Into the wild; ou ainda o garoto urso, Timothy
Treadwell, cuja trágica história foi filmada por Werner Herzog. Num mundo
em que as instituições cada vez mais se mostram extorsivas e a força de
trabalho vale cada vez menos, não me espanta q mais gente com mais
informação e sofisticado grau de educação formal tenda a recusar a
civilização com base em argumentos de excepcionalidade individual (ouvi uma
vez de uma mãe: "eu é q sei o que é melhor para o meu filho, e não vc ou a
ciência"). Pois reencontrar uma essência natural que dará sentido à vida é
mesmo uma ideia muito atraente. Resolveria nossos problemas, não
precisariamos mais lutar contra as injustiças sociais ou contra o
peleguismo, o fascismo, o sexismo nosso de cada dia etc. Isso dá muito
trabalho, tem de existir outro jeito, né non? #sqn como se diz atualmente.
Uma vez, um estudante q se dizia "libertário" me perguntou, com cara de
espanto, "Então o senhor (quase caí de costas, fui promovido a senhor!)
acredita que as massas são capazes de se autogovernar?" Respondi com o
maior clássico dos professores e disse "Depende." ao q emendei outra
pergunta: "Vc faz parte das massas?". Pois é, esse é o nosso problema, ou
somos parte da matrix e não existe pílula azul, verde, vermelha... ou somos
deus ex machina e aí não tem problema, basta sentar e ver o espetáculo. Eu,
infelizmente, tenho q trabalhar para pagar aluguel, ainda não virei
gratiluz, ninguém me ofereceu pílula nenhuma (mentira, já, mas não cabe
aqui o contexto).
A par esse fenômeno de ceticismo racionalista voltado contra a própria
fonte do ceticismo epistêmico, a razão, ou as instituições oficiais que a
comunicam, bem entendido, há ainda o populismo contemporâneo que faz
política com estilo, ou melhor, o populismo atual é um estilo retórico de
fazer política. Sobretudo, é uma retórica q intenciona causar efeitos na
massa populacional conforme a meta política pretendida. Essa retórica é bem
simples: basta exaltar as virtudes "naturais" do "povo" e contrapô-las às
da "elite", ou qq outro inimigo imaginário, para fazer os sequazes se
oporem ou à própria sociedade ou ao "sistema". Essa retórica é mobilizada
com radicalismo toda vez q quem a mobiliza está perdendo no jogo eleitoral
(vou me eximir de dar exemplos, para não ferir sensibilidades, sobretudo a
minha). Como é possível constatar facilmente, funciona bem; pode ser falso,
fake, ou sei lá o q, mas é persuasivo. Machiavelli detectou bem o problema:
o príncipe é sobretudo aparência, nada é mais importante do que parecer
ser. Ser ou não ser, deixemos para Hamlet.
Não posso terminar sem deixar de observar mais uma coisa. Em nome de um
realismo que naturaliza a ordem social e econômica, as pautas
transformadoras são obliteradas por esse estilo populista em favor de
pautas mais candentes, de forma a esvaziar todo teor transformador do
ressentimento social, o qual é canalizado para alvos inócuos à manutenção
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invocado. Para lembrar Lampedusa mais uma vez, tudo muda, mas permanece o
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Cassiano Terra Rodrigues
Prof. Dr. de Filosofia - IEF-H-ITA
 
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Joao Marcos

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Dec 10, 2021, 5:49:44 AM12/10/21
to Walter Carnielli, Lista dos Logicos Brasileiros
 O problema é que  o curso em questão *quase certamente* não é isso, mas é apologia ao "Estado Bíblico", coisa das igrejas neopentecostais.

Não tem nada a ver (eu acho) com esta disciplina ou com este "projeto de extensão" do pessoal da Medicina ---que precisa ser respeitado, pois afinal de contas foi "aprovado pelo Departamento de Medicina Clínica do Centro de Ciências da Saúde", mas é curioso notar que o professor ("de Artes") que eu disse escrever livros sobre "dinossauros e a Bíblia" (e artigos sobre como apenas Deus pode resolver "o problema da indução") se identifica como alguém que "faz pesquisas em Lógica" (e, de fato, já deu aulas de Lógica aqui no Depto de Filosofia), é um dos diretores do IPHAN e, nas horas vagas, agita bastante como dono de uma igreja neopentecostal.

[]s, JM

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