Salve, JY:
> Na UFRJ a primeira decisão da reitoria frente a pandemia foi de não favorecer o ensino à distância.
> Mas agora devido a prolongação da pandemia, eles estão fazendo uma
> pesquisa para saber o que achamos da situação, preenchendo um formulário.
Parabéns à UFRJ por dar voz aos envolvidos, ao invés de simplesmente
_proibi-los_ de dar seguimento ao processo de ensino-aprendizagem!
Curiosamente, _hoje_ também a UFRN também decidiu finalmente circular
um "Formulário para docentes sobre as atividades de ensino de forma
on-line"...
> Me parece que dar um curso tanto de filosofia que de matemática à distância
>não faz sentido, pode fazer sentido por algumas disciplinas que são mais
>informativas e/ou práticas, tal que a aprendizagem de uma língua.
É curioso este prognóstico. A *aprendizagem de línguas* é justamente
um dos setores que mais evoluiu nos últimos anos na modalidade remota!
Isto me faz recordar um argumento falacioso que escuto frequentemente
no Brasil diz respeito à suposta "impossibilidade de aprender bem uma
língua X sem morar no país Y". Fico me perguntando, com efeito, de
onde vêm tal sorte de pré-concepções, dado que há inúmeros exemplos
viventes de que morar em Y não é condição nem suficiente nem
necessária para aprender X, para qualquer par <X,Y>.
Sei que esta prática mais higiênica não era bem o hábito dos filósofos
e matemáticos gregos, mas de minha parte sempre ensino Lógica, para
filósofos, matemáticos e outros seres, mantendo uma certa _distância_
dos meus alunos. Compreendo que alguns argumentos, tais como o
*argumentum ad baculum*, ficam prejudicados quando o aluno não está ao
alcance do porrete do professor, mas quer me parecer que a maior parte
da informatividade / praticidade do ensino da Lógica pode ser hoje
recuperada de forma remota, algumas vezes até com vantagem, com o
auxílio de tecnologias adequadas de apoio ao ensino. Há hoje imensa
pesquisa sobre este assunto, de fato.
> Um curso de lógica pode ser mais matemático ou mais filosófico, mas nos
> dois casos não acho que ensino a distância funciona bem. Os alunos na filosofia
> no Brasil sempre pergunta sobre "bibliografia", e eu sempre falo no meu curso
> de lógica que a melhor coisa é assistir a aula não de ler livros e que a diferença
> em particular é que na sala de aula, é possível fazer perguntas ao professor,
> que isso é um grande vantagem.
Este fetiche bibliográfico dos alunos brasileiros é realmente difícil
de explicar... Insegurança, talvez?
> Ensinar matemática é uma verdadeira arte. Explicar os conceitos,
> apresentar uma demonstração, dar bons exemplos e intuições,
> é um coisa que se faz ao vivo e com interação.
A parte do "ao vivo" tem fácil resolução tecnológica. Uma boa
pergunta / provocação diz respeito à possibilidade de emular
satisfatoriamente a dita "interação" de forma remota.
> A filosofia também é muito difícil ensinar a distância
> porque não tem nada de muito definido e preciso.
Não entendi. Você poderia ser mais preciso?
> E nos dois casos a grande vantagem também do ensino in situ são conversas informais no campus ou aeradores, antes e depois das aulas.
> Isso se aplica também a congressos,um congresso virtual é bem diferente de um congresso na realidade.
Sem dúvida os coffee breaks fazem muita falta!
> PS: sobre a evolução do coronavirus um colega me passou o link seguinte
>
https://ddi.sutd.edu.sg/
> de acordo com esses pesquisadores de Singapura, a pandemia no Brasil sera quase resolvida no incio de junho
Não sou capaz de imaginar exatamente que milagre concorreria para a
quase-resolução da crise sanitária, assim de repente. Uma grande
dificuldade que temos na aplicação dos modelos SIR ou SEIR é o quase
completo desconhecimento do parâmetro R0, em praticamente qualquer
lugar do mundo.
Mantenha-se saudável!
JM
JM