Wason & more

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Joao Marcos

unread,
Jun 1, 2026, 8:16:45 AMJun 1
to Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de LOGICA
O que é a 'tarefa de seleção de Watson' — e por que ela é um dos
problemas de lógica mais desconcertantes da história
https://www.bbc.com/portuguese/articles/c0l225we1xwo


JM

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https://sites.google.com/site/sequiturquodlibet/

Daniel Durante

unread,
Jun 1, 2026, 2:07:58 PMJun 1
to LOGICA-L, Joao Marcos
Muito bacana, João Marcos.

Eu não conheço nenhum desses estudos sobre a tarefa de seleção de Wason. Mas tenho uma hipótese bastante simples sobre o que acontece, anedoticamente verificada por mim em algumas ocasiões em salas de aula da disciplina de introdução à lógica. Para mim, pelo menos neste caso, o problema não é com o raciocínio lógico das pessoas. É um problema de comunicação, de linguagem.

Muitas vezes, quando formulamos uma sentença como um condicional ("se A então B"), estamos, na verdade, querendo fazer uma afirmação bicondicional ("A se e somente se B"). Este bicondicional se apresenta como uma implicatura conversacional (Grice). Acrescentamos ao que foi dito ("Se A então B") algo que não foi dito ("Se não-A então não-B"). Nós fazemos isso o tempo todo. Por exemplo, quando o pai diz para a filha (imagino você dizendo a Maia):

"Se você não comer a verdura, não vai ganhar sobremesa."

O pai, obviamente, não está querendo dizer um condicional, mas um bicondicional. Se não comer verdura, não ganha sobremesa, mas se comer, ganha. O pai não teria incentivo para afirmar apenas o condicional (que efetivamente falou). Aliás, seria logicamente correto, mas bastante cruel, o pai negar a sobremesa à filha após ela comer toda a verdura, alegando que não disse o que faria caso ela comesse a verdura.

A maioria das pessoas, quando ouve um condicional, acrescenta a ele a implicatura que o transforma em um bicondicional. Isso me parece o padrão (mas só tenho evidências anedóticas). Então, no primeiro caso do teste de Wason, o abstrato, com letras e números, o erro não é lógico, mas de comunicação. A regra explícita é um condicional e as pessoas a leem como um bicondicional, como fazem costumeiramente. Aí, erram a resposta (tecnicamente) correta.

Já no segundo caso, há um contexto conhecido, uma situação prática rotineira que bloqueia a implicatura. Então, diante da regra "se uma pessoa bebe álcool, ela deve ter mais de 18 anos" nós não acrescentamos a implicatura "se uma pessoa não bebe álcool, ela não tem mais de 18 anos". Porque nós sabemos muito bem que as pessoas adultas em um bar às vezes tomam bebidas alcoólicas e às vezes tomam bebidas sem álcool. E ao não fazer a implicatura, a maioria das pessoas acerta o mesmo problema lógico.

A situação, para mim, é um fenômeno linguístico, não lógico.

O problema dessa minha (bela e possivelmente falha) teoria é que, se o texto estiver correto, no teste original, com letras e números, as pessoas fazem a implicatura que eu sugeri, transformando a regra condicional em regra bicondicional e continuam errando o teste lógico da verificação do bicondicional. Para verificar a regra bicondicional, seria necessário ver o outro lado de TODAS as 4 cartas. E parece que não é isso que a maioria das pessoas faz!

Eu poderia continuar fazendo conjecturas para tentar salvar minha posição (insustentável). Tenho algumas. Mas não vou fazer isso. Vou, no entanto, fazer uma confissão. Na minha seleção para o mestrado em Lógica na Unicamp, no longínquo ano de 1994, conduzida pelo Guerzoni e pelo Luiz Paulo, uma das questões da prova era exatamente o teste de Wason. E... bem... eu errei!🙂

Saudações,
Daniel. 
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