Re: [Logica-l] E-mail de compilação para logica-l@dimap.ufrn.br - 1 atualização em 1 tema

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jean-yves beziau

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May 31, 2026, 10:16:19 PMMay 31
to Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de LOGICA, marciop...@gmail.com
Olá, Márcio,
Assisti aos três filmes de Godfrey Reggio, com música de Philip Glass: Koyaanisqatsi: Life Out of Balance (1982), Powaqqatsi: Life in Transformation (1988) e Naqoyqatsi: Life as War (2002). Os três são excelentes.
Godfrey Reggio mora em Santa Fé, no Novo México. Quando fui visitar meu amigo David Krakauer, diretor do Santa Fe Institute desde 2015, e dar uma palestra lá, fiquei sabendo que ele conhecia pessoalmente Reggio. Naquela ocasião não chegamos a encontrá-lo. Ele vive de modo bastante retirado, quase como um eremita.
JYB

On Sun, May 31, 2026 at 11:59 PM <logi...@dimap.ufrn.br> wrote:
Márcio Palmares <marciop...@gmail.com>: May 30 07:46PM -0300

Antes que eu seja repreendido ou banido da lista por ficar falando demais
aqui e esticando essa thread indefinidamente, vou deixar uma última imagem,
para refletirmos.
 
Apesar de estar entrando agora nessa dimensão ética e estudando seriamente
este "Ciência e Valores Humanos" (persuadido de que o Adolfo deve ter razão
em alguma medida), ainda acho que estamos diante de uma transformação tão
grande que precisamos considerá-la de um ponto de vista antropológico.
 
Preciso de uma imagem:
 
[image: vlcsnap-2019-04-22-14h23m50s682.png]
 
Koyaanisqatsi.
 
Se você ainda não viu essa obra, deve parar a leitura aqui mesmo e guardar
um dia para assistir o filme. Volte depois. Vou estragar o sentimento de
espanto, consternação, revelação e admiração que você experimentaria...
 
Imagine por um instante que você é uma inteligência alienígena: você sabe
que há alguma forma de vida neste planeta, mas nada sabe sobre ela. Ao
chegar aqui você se depara com uma mensagem gravada para o futuro em
paredes de rocha perdidas em um deserto...
 
A imagem é aterradora: mostra a emergência de formas verticais que brotam
da terra. Algo que se eleva, que se recusa a permanecer no nível do chão e
que anuncia sua presença. Evidentemente, é a autoconsciência. Uma
autoconsciência que emerge da natureza simultaneamente como algo que se
individualiza (há vários entes aparentemente autônomos na imagem) mas que
também forma um coletivo, uma autoconsciência que ao emergir do mundo
natural exterioriza-se como cultura: há um indivíduo maior entre os demais,
assustador, parece tentar nos impressionar pelo tamanho e gravidade. Parece
ter algo a dizer.
 
Mas essa mensagem não foi destinada a alienígenas. Foi destinada a nós: aos
humanos que a encontrariam no futuro.
 
A imagem mostra o momento em que da matéria viva circundada pelo meio
material inanimado surge a autoconsciência do Cosmos, a natureza passa a
contemplar a si mesma: surge o homem. A imagem diz: "Estamos aqui,
conscientes."
 
Koyaanisqatsi significa algo como "vida em desequilíbrio", uma vida que, de
tal modo desequlibrada, não pode perdurar.
 
É onde estamos. Ainda estamos. Não por muito tempo. Temos microplásticos no
cérebro. Agrotóxicos em nossos tecidos. Não suportaremos as transformações
que causamos no clima: os desastres ambientais chegaram para ficar. Os
recursos do planeta são finitos, mas a ideologia do "crescimento econômico"
tem pretensões infinitas. Isto não pode perdurar.
 
Daquele despertar da autoconsciência até a era da viagem espacial... Como
Sagan dizia: "Nós chegamos muito longe".
 
Tão longe que estamos diante agora de um "outro", de uma forma de
inteligência que nós fabricamos, que é uma exteriorização de parte de
nossas faculdades subjetivas. Estamos diante da nossa própria imagem, num
espelho, mas essa imagem é parcialmente autônoma: conversa conosco e pode
nos surpreender.
 
O homem é um animal que se impõe (nem sempre de forma sábia) sobre a
natureza ao exteriorizar sua imaginação na cultura. Fazemos fogo, abrigos,
ferramentas, cidades, civilização. Agora, essa exteriorização adquiriu um
patamar inédito: exteriorizamos inteligência, fabricamos máquinas
inteligentes que podem produzir conhecimento. Fabricamos um "outro".
 
Este marco, porém, não modifica o fato de que atrás do espelho de silício
fornecido pela inteligência artificial, ainda há o espelho de pedra: ainda
somos aqueles seres que se colocaram de pé, que surgiram do chão e
anunciaram sua presença. Não temos como perdurar com a vida em
desequilíbrio.
 
"A imaginação é um telescópio no tempo; estamos olhando para trás, para a
experiência do passado. Os homens que fizeram essas pinturas, os homens que
estavam presentes, olharam através desse telescópio para a frente. Eles
olharam ao longo da escalada do homem porque aquilo que chamamos evolução
cultural é essencialmente uma ampliação contínua da imaginação humana." (J.
Bronowski. A Escalada do Homem)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Em sábado, 30 de maio de 2026, Márcio Palmares <marciop...@gmail.com>
escreveu:
 
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Márcio Palmares

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Jun 1, 2026, 8:16:52 AMJun 1
to jean-yves beziau, Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de LOGICA
Olá, Jean-Yves,

que bacana! Bom saber que esta obra é ainda apreciada.

Tentei não revelar a estrutura do Koyaanisqatsi, "não dar spolier"... Uma estrutura muito parecida é usada pelo Bronowski no episódio 1 da "Escalada do Homem", a série de TV da BBC. Ele termina o episódio analisando as famosas pinturas rupestres na Caverna de Altamira. São mensagens para o futuro em um espelho de pedra.

Estou convencido de que precisamos analisar essa transformação, o advento dessas máquinas que produzem conhecimento [1], de um ponto de vista antropológico, numa escala de tempo mais ampla. Claro, juntamente com a análise filosófica, epistemológica. Se ficarmos presos aos aspectos que são conjunturais (política e economia), não teremos uma visão adequada do que está acontecendo.

Comecei a ler o Chad Oliver, ele era antropólogo mesmo, acadêmico, além de escritor de ficção científica. Vários de seus livros e coletâneas de contos foram traduzidos para o português, acho que foram populares no Brasil na década de 1980... Meu pai tinha uma porção desses livros em casa... Uma das coletâneas de contos chama-se "Fronteiras da Eternidade". Comecei por essa.

Um dos contos nessa coleção chama-se "Um amigo para o homem" [2]. Vou tentar não dar spoiler.

Um dos problemas cruciais para a humanidade é o problema do "outro": a existência de um "outro" ou "outros".

Quando nascemos, vivemos num universo sem sujeito. O bebê humano não tem consciência de que ele é um, uno, indivíduo, algo separado de seu universo primordial. Biologicamente, ele é outro ser há tempos, mas demora para que esse outro ser se constitua como outro de fato no nível da vida mental.

E o bebê humano se constituiu mentalmente como indivíduo no contato, confronto e experiência com um outro: sua mãe, em geral.

Esse processo é logo, dura alguns meses. (Tudo isso foi minuciosamente descrito por Piaget no "O Nascimento da Inteligência na Criança". Mas essa obra não é psicologia do desenvolvimento, como as pessoas acreditam erroneamente. Somente de forma incidental Piaget toca na psicologia experimental e na psicologia do desenvolvimento. Seu objetivo a epistemologia. É uma obra de epistemologia.)

Então, necessitamos de um outro para nos construirmos como sujeitos: precisamos desse outro para passar do universo primordial sem "eu" para um universo que conterá um "eu".

Mais tarde o indivíduo já está consciente de que existe como ente separado, e então surge o problema dele se reconhecer em... espelhos.

Chegamos aos espelhos. O espelho de água na margem de um rio, o espelho de pedra onde nos exteriorizamos, o espelho de papel onde escrevemos e nos reconhecemos na literatura, a tela do cinema, a tela da TV, as telas atuais que cabem no bolso. Todas são espelhos e a arte (e também as porcarias) que estão depositadas nessas telas são exteriorizacoes de nossa imaginação por meio das quais nos reconhecemos agora não apenas como indivíduos biológicos, mas como um indivíduo coletivo, cultural: a humanidade, desgraçada ou elevada.

Há uma montanha de evidências se acumulando no horizonte e é possível vê-la a quilômetros de distância.

Algumas pessoas se recusam a olhar para a evidência. Ela é material, empírica.

É a evidência de um outro.

Ele nos revelará algo sobre nós mesmos: algo sobre nossa inteligência, nossa criatividade.

Mas algumas pessoas só reconhecerão esse outro se ele bater à porta, pedir para entrar e pedir um cafezinho. Somente se a montanha de evidências disser: "deixe-me ser um amigo para o homem".

O instinto de sobrevivência nos diz: esse outro pode ser um inimigo, pode nos destruir. Mas esse é outro problema.

O que me parece fundamental aqui é: pela primeira vez o homem fabricou um artefato que é um outro epistêmico real, não imaginário. Essa é a grande transformação, ela muda a História. Não é um ser imaginário, mitológico. Não é uma inteligência alienígena. É um outro real, fabricado por nós.

Apareceram ontem, na Folha de São Paulo, dois artigos sobre este outro. Um deles denuncia o grave prejuízo para a literatura que ocorrerá se substituímos a tradução humana, que é uma forma de arte, pela tradução por máquinas, que é alguma coisa diferente, mas seguramente não é arte (humana). A autora termina propondo que devemos profanar o capitalismo. Bater-se contra o muro. Justo. Concordo. Mas isso é ainda algo conjuntural. Não está na escala apropriada.

Outro artigo mostra que os jovens e as crianças estão se relacionando com máquinas e que as máquinas, por serem bajuladoras, eliminam a fricção construtiva da oposição encontrada na relação com humanas. De acordo.

Esse outro já está sentado conosco à mesa, fumando um cigarro, as cinzas caindo no tapete... Mas agora, diferentemente da análise sugerida pelo Chad Oliver, este outro foi feito por nós: um espelho de silício autônomo, não mais o espelho de pedra.

***

[1] Máquinas que produzem conhecimento... Até agora, nenhuma comunidade de matemáticos refutou as alegações do Tim Gowers segundo as quais o modelo da OpenAI produziu matemática inédita, de alto nível, que facilmente poderia ser publicada no Annals of Mathematics. Suponho que tudo o que se publica num periódico desses é conhecimento.

[2] Uma excelente resenha desse conto específico (com análise total do enredo e portanto cheia de spoilers, mas muito boa) está aqui:




















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Márcio Palmares

unread,
Jun 1, 2026, 9:55:44 AMJun 1
to jean-yves beziau, Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de LOGICA
Obrigado, Jean-Yves, por contar essa história bacana, esse registro pessoal. Já estava esquecendo de agradecer...

Lembrei de mais uma coisa: Copérnico.

No início, o bebê humano está em um universo primordial sem "eu", sem sujeito. Apenas gradativamente ele percebe que aquela mão diante de seus olhos pertece ao seu próprio corpo... É lentamente que surge a autoconsciência, embora, biologicamente ele seja um indivíduo já há bastante tempo.

E então ocorre algo inusitado.

Um salto discreto, do tipo "tudo ou nada": de um universo sem eu, surge o oposto: um universo centrado no indivíduo. O bebê humano, após se constituir como um ente próprio, passa a perceber o meio exterior como se girasse à sua volta: ele acredita ser o centro do universo.

Pulando para a dimensão coletiva, para a humanidade, que só existe como tal socialmente: se não temos outro sujeito epistêmico além de nós e das criaturas mitológicas que nos dão o conhecimento, como Prometeu ou a deusa que revelava conhecimentos a Ramanujan, então estamos em um universo centrado em nós. Temos o monopólio sobre a produção do conhecimento. 

Ao fabricarmos um artefato que exterioriza nossa inteligência, uma máquina que produz conhecimento, nos deparamos com um "outro". E assim perdemos o monopólio da produção do conhecimento...

E por isso é uma revolução copernicana.

Com sua imitação quase perfeita de nossa herança cultural, há uma outra inteligência sentada agora à mesa conosco.

Deixamos de ser centro do universo.

Abracos!

M.
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Márcio Palmares

unread,
Jun 1, 2026, 10:33:21 AMJun 1
to jean-yves beziau, Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de LOGICA
Fiz uma confusão aqui, pois estou citando de memória (escrevendo no estacionamento do supermercado...).

Acho que o processo corretamente descrito seria:

1. Um universo primordial sem "eu", sem sujeito: o bebê não sabe ainda, não percebe ainda, que ele é uma entidade, um ente: há um mundo de ações e sensações sem um centro;

2. Depois, gradualmente, surge o oposto: um universo centrado no próprio corpo: o bebê "percebe" por meio da sucção, do reflexo de preensão e outros instrumentos biológicas essencialmente inatos que o universo primitivo gira em torno do corpo dele. Mas ainda não há "eu", ainda não há sujeito. Se não me engano, Piaget chama essa fase de "narcisismo sem Narcismo", pois não existe sujeito ainda;

3. Aos poucos, na relação com o outro e por meio de ações, vai ocorrendo a diferenciação e o surgimento da autoconsciência.

OK.

Então, na relação com o outro e por meio de ações nos constituimos.

Agora, no plano histórico. A escalada do homem é a exteriorização contínua de nossa imaginação. Fabricamos espelhos onde nos reconhecemos como ente coletivo: precisamos desses espelhos e do outro. Sempre necessitamos desse outro. Fabricamos deuses e demônios e entidades mitológicas para este fim. No confronto e na relação com este outro cultural, imaginário, e em nossos espelhos de pedra ou papel ou em telas, exteriorizamos arte e ciência e assim nos tornamos humanos.

A novidade é justamente que agora fabricamos um outro que é real, e nos relacionamos com esse outro de silício.

Isso provavelmente nos dirá algo sobre nós mesmos.

Suspeito que nos dirá o que é de fato inteligência e criatividade...

Claro, se não formos devorados pelo monstro de silício e se não perecermos antes com a vida em desequilíbrio.

Agora vou comprar o pão. 

Abraços,
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