Olá, Jean-Yves,
que bacana! Bom saber que esta obra é ainda apreciada.
Tentei não revelar a estrutura do Koyaanisqatsi, "não dar spolier"... Uma estrutura muito parecida é usada pelo Bronowski no episódio 1 da "Escalada do Homem", a série de TV da BBC. Ele termina o episódio analisando as famosas pinturas rupestres na Caverna de Altamira. São mensagens para o futuro em um espelho de pedra.
Estou convencido de que precisamos analisar essa transformação, o advento dessas máquinas que produzem conhecimento [1], de um ponto de vista antropológico, numa escala de tempo mais ampla. Claro, juntamente com a análise filosófica, epistemológica. Se ficarmos presos aos aspectos que são conjunturais (política e economia), não teremos uma visão adequada do que está acontecendo.
Comecei a ler o Chad Oliver, ele era antropólogo mesmo, acadêmico, além de escritor de ficção científica. Vários de seus livros e coletâneas de contos foram traduzidos para o português, acho que foram populares no Brasil na década de 1980... Meu pai tinha uma porção desses livros em casa... Uma das coletâneas de contos chama-se "Fronteiras da Eternidade". Comecei por essa.
Um dos contos nessa coleção chama-se "Um amigo para o homem" [2]. Vou tentar não dar spoiler.
Um dos problemas cruciais para a humanidade é o problema do "outro": a existência de um "outro" ou "outros".
Quando nascemos, vivemos num universo sem sujeito. O bebê humano não tem consciência de que ele é um, uno, indivíduo, algo separado de seu universo primordial. Biologicamente, ele é outro ser há tempos, mas demora para que esse outro ser se constitua como outro de fato no nível da vida mental.
E o bebê humano se constituiu mentalmente como indivíduo no contato, confronto e experiência com um outro: sua mãe, em geral.
Esse processo é logo, dura alguns meses. (Tudo isso foi minuciosamente descrito por Piaget no "O Nascimento da Inteligência na Criança". Mas essa obra não é psicologia do desenvolvimento, como as pessoas acreditam erroneamente. Somente de forma incidental Piaget toca na psicologia experimental e na psicologia do desenvolvimento. Seu objetivo a epistemologia. É uma obra de epistemologia.)
Então, necessitamos de um outro para nos construirmos como sujeitos: precisamos desse outro para passar do universo primordial sem "eu" para um universo que conterá um "eu".
Mais tarde o indivíduo já está consciente de que existe como ente separado, e então surge o problema dele se reconhecer em... espelhos.
Chegamos aos espelhos. O espelho de água na margem de um rio, o espelho de pedra onde nos exteriorizamos, o espelho de papel onde escrevemos e nos reconhecemos na literatura, a tela do cinema, a tela da TV, as telas atuais que cabem no bolso. Todas são espelhos e a arte (e também as porcarias) que estão depositadas nessas telas são exteriorizacoes de nossa imaginação por meio das quais nos reconhecemos agora não apenas como indivíduos biológicos, mas como um indivíduo coletivo, cultural: a humanidade, desgraçada ou elevada.
Há uma montanha de evidências se acumulando no horizonte e é possível vê-la a quilômetros de distância.
Algumas pessoas se recusam a olhar para a evidência. Ela é material, empírica.
É a evidência de um outro.
Ele nos revelará algo sobre nós mesmos: algo sobre nossa inteligência, nossa criatividade.
Mas algumas pessoas só reconhecerão esse outro se ele bater à porta, pedir para entrar e pedir um cafezinho. Somente se a montanha de evidências disser: "deixe-me ser um amigo para o homem".
O instinto de sobrevivência nos diz: esse outro pode ser um inimigo, pode nos destruir. Mas esse é outro problema.
O que me parece fundamental aqui é: pela primeira vez o homem fabricou um artefato que é um outro epistêmico real, não imaginário. Essa é a grande transformação, ela muda a História. Não é um ser imaginário, mitológico. Não é uma inteligência alienígena. É um outro real, fabricado por nós.
Apareceram ontem, na Folha de São Paulo, dois artigos sobre este outro. Um deles denuncia o grave prejuízo para a literatura que ocorrerá se substituímos a tradução humana, que é uma forma de arte, pela tradução por máquinas, que é alguma coisa diferente, mas seguramente não é arte (humana). A autora termina propondo que devemos profanar o capitalismo. Bater-se contra o muro. Justo. Concordo. Mas isso é ainda algo conjuntural. Não está na escala apropriada.
Outro artigo mostra que os jovens e as crianças estão se relacionando com máquinas e que as máquinas, por serem bajuladoras, eliminam a fricção construtiva da oposição encontrada na relação com humanas. De acordo.
Esse outro já está sentado conosco à mesa, fumando um cigarro, as cinzas caindo no tapete... Mas agora, diferentemente da análise sugerida pelo Chad Oliver, este outro foi feito por nós: um espelho de silício autônomo, não mais o espelho de pedra.
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[1] Máquinas que produzem conhecimento... Até agora, nenhuma comunidade de matemáticos refutou as alegações do Tim Gowers segundo as quais o modelo da OpenAI produziu matemática inédita, de alto nível, que facilmente poderia ser publicada no Annals of Mathematics. Suponho que tudo o que se publica num periódico desses é conhecimento.
[2] Uma excelente resenha desse conto específico (com análise total do enredo e portanto cheia de spoilers, mas muito boa) está aqui: