Prezado Eduardo:
Obrigado por mais uma mensagem inteligente e bem refletida. Está
claro que esta lista passa pela maior crise da sua história --- e bem
maior agora do que quando começamos a tentar resolver a situação. Nos
tempos do Mailman eu ficava sabendo quando cada membro abandonava a
lista, e a pessoa que saía sempre recebia uma mensagem automática em
que era convidada a explicar suas razões. Sempre usei os dados
recebidos como termômetro para tentar manter esta comunidade unida
(nunca vou me esquecer de uma destas mensagens de feedback, bastante
antiga, que dizia simplesmente que "a vida é muito melhor fora da
LOGICA-L" --- intrigou-me bastante a comparação entre as "duas formas
de vida"). Infelizmente, o envio de mensagens automáticas de consulta
aos que abandonam a lista é mais uma das funcionalidades que o Google
Groups não nos oferece.
Gostaria de deixar claro, Eduardo, que estou inteiramente do seu lado
_contra_ a "espontaneidade", e _pela_ *reflexão* cuidadosa --- em nome
de formas de "alegria e diversão" mais saudáveis para todos os
envolvidos.
Sobre o movimento "queremos o décio de volta", eu (tendenciosamente) o
leio simplesmente como "queremos uma lista não-moderada". O Décio (o
verdadeiro Décio, não o termo "Décio") não nos explicou porque saiu da
lista. Sabemos contudo (qualquer um pode consultar isto nos arquivos
da lista) que ele o fez após receber uma mensagem em que você,
Eduardo, pedia para que ele se emendasse a respeito de suas mensagens
*off-topic*, em uma thread *off-topic* iniciada pelo Walter, seguida
de uma mensagem em que _eu_ confirmava publicamente ao Décio que ele
era, sim, o responsável pela continuidade daquela discussão
*off-topic*. Muitos outros membros da lista (Doria, Walter,
Jean-Yves, e vários outros) sabem perfeitamente que eu durante anos
venho pedindo (off list!) que eles nos ajudem a manter esta comunidade
saudável (eu só não mandei mensagens sobre isto a mim mesmo por não
ter chegado a este nível de esquizofrenia). Este tipo de atividade dá
trabalho ao Administrador? Claro! Mas ---suspeito eu--- isto dá
*muito menos* trabalho do que vigiar e julgar previamente as mensagens
de todos os membros... O maior inconveniente da minha maneira
ineficiente de resolver as coisas: só funciona (quando funciona) a
posteriori, após o estrago ter sido feito. A pergunta então é: será
que queremos mesmo trocar isto pela censura a priori? (outra pergunta
seria: será que queremos não apenas o Décio mas também o "Décio" de
volta?)
O que fez com que eu me sentisse velho e inadequado como Administrador
foi, antes de mais nada, o sequestro da lista por anônimos que tratam
este fórum como uma comunidade virtual do Facebook, ou como aquela
lista do WhatsApp da sua família em que sempre há um parente
inconveniente que insiste em mandar mensagens sobre futebol ou
política. Estes caras para mim conseguem ser piores do que os trolls
de sempre. Considerando que já fiz o meu papel por esta comunidade
por tempo suficiente, decidi então procurar alguém que pudesse tocar
isto adiante, mesmo que fosse apenas por um tempo, com o mesmo
otimismo que eu tinha há dez anos, quando fiz propaganda ativa desta
lista no EBL lá de Itatiaia e mandei inúmeras mensagens convidando as
pessoas a participarem dela. O Marcos Silva foi muito corajoso e
generoso em aceitar ficar no meu lugar como Administrador, e muito
astuto em juntar em torno de si colegas igualmente corajosos e
competentes para lhe ajudar na tarefa. A alternativa, para mim, seria
abandonar a lista à própria sorte, ou desativá-la. Que bom que vocês
toparam ajudar!
_Pessoalmente_, eu acho *intolerável* tutelar indivíduos adultos com
um alto nível de formação educacional, e determinar de cima para baixo
o que é lícito que eles digam. Desde que assine embaixo, cada um
destes indivíduos deveria ser responsável por seus próprios erros (e
acertos) públicos. Este é o motivo simples pelo qual eu sou
**contra** a moderação. Admito que alguém seja a favor desta última,
e que este alguém simultaneamente tenha a melhor das intenções, mas
_de minha parte_ estou convencido de que o perigo da arbitrariedade de
julgamento é demasiado grande ("convicções" são coisas muito pessoais,
né?). Neste momento eu sou a única pessoa de fora da "Comissão
Administrativa" que *sabe* que um par de mensagens (tolas e
inadequadas, eu concordo) foi, SIM, filtrado e não chegou às caixas
postais dos membros da lista desde que a "moderação básica" da lista
teve início --- ao contrário do que se afirmou aqui. A diferença, em
termos de atuação, é que eu não acredito que seja o meu papel decidir
se tais mensagens (tolas e inadequadas) devem ser postadas ou não, ou
decidir se os remetentes pensaram um número suficiente de vezes antes
de enviá-las. Eles bem que deveriam pensar, para o bem de sua própria
reputação... Tenho **muito** medo (por isso? contudo?) do que
ocorrerá quando tiver início de verdade a "moderação absoluta".
Se você (o "você" aqui é genérico) não gosta das mensagens do membro
"joaozinho", e não quer nem recebê-las para não se dar ao trabalho
sequer de ter de apagá-las automaticamente, você sempre pode criar um
filtro no seu gerenciador de email. Hoje 60% das pessoas (ou mais)
que assinam esta lista o fazem através de endereços Gmail, com os
quais é muito fácil criar um filtro. Seria bastante simples mostrar
aos colegas mais irritadiços como criar filtros convenientes, se para
estes colegas a tecla DEL não é suficiente.
http://www.wikihow.com/Create-a-Filter-in-Gmail
Quanto ao amaríssimo remédio que estão nos propondo engolir, e que me
parece muito pior do que a doença que ele promete curar, permita-me
por favor uma analogia rápida (e talvez tola ou inadequada). Imagine
que você vive em um país em que a violência de gênero é tolerada e em
que pessoas poderosas misturam religião com política (e com ciência!).
Um país em que a gentileza não é valorizada. Você não acha este país
um lugar ideal para se viver, e eu também não. Nós diferimos contudo
sobre o que deve ser feito sobre isto: enquanto eu proponho respeitar
os gênios e também os idiotas da nação, você quer mudar a forma em que
a comunicação entre eles ocorre. Um dia cai-lhe nas mãos a
oportunidade de gerenciar tudo isto (e eu acho que você está próximo
de ser um gerente ideal!), e aí você decide que vai fazer as coisas do
seu jeito, sem perguntar a nenhum dos envolvidos se é isto o que ele
quer para sua vida. De fato, você sugere a quem estiver incomodado
que funde um outro país numas terrinhas ali ao lado, para fazer as
coisas do jeito que já fazia. Você não acha que isto também é uma
forma de violência? Afinal, quem deveria neste caso fundar o novo
país deveria ser _você_, não?
Vários colegas se manifestaram publicamente aqui CONTRA a moderação.
Quase ninguém se manifestou publicamente A FAVOR. Eu particularmente
*não* estou convencido dos benefícios da moderação aqui apregoados.
(Ademais, desconfio que o condicionamento dos droogies através de
remédios ---ou _ameaças_, se você prefere assim--- que lhes façam
sentir enjoo ao ouvir Ludwig Van não funcione tão bem quanto a teoria
prediz que funcionaria.) A questão aqui, contudo, NÃO é a de *me*
convencer do que quer que seja! Eu já disse estar disposto a não
atrapalhar o trabalho de vocês --- de fato, estou disposto a _não_
participar da lista moderada, e ponto. Mas também acho simplesmente
*desrespeitoso* que um experimento como este seja conduzido sem
qualquer consulta aos envolvidos e, mais ainda, a despeito da
manifestação contrária de vários envolvidos. Você aparentemente
discorda disto, e nós concordamos portanto em discordar.
Embora perceba a importância deste tipo de discussão da nossa relação,
gostaria muito de não me envolver mais publicamente com
meta-discussões sobre o funcionamento desta lista (para _tal
objetivo_, sim, deveria haver uma outra lista, e no meu entender seus
arquivos não deveriam ser públicos e a participação não deveria ser
aberta a todos, sem solicitação prévia. Temos 500 pessoas aqui que
podem ter interesse em Lógica mas não ter o mínimo interesse em
discussões sobre moderação de fóruns de discussão online!).
Em tempo: não estou lhe pedindo para esquecer nada, Eduardo. Mas eu
gostaria também que você não desistisse da empreitada administrativa!
Abraços,
Joao Marcos
PS: Achei por bem acrescentar aqui uma frase do William Burroughs
completamente fora de contexto:
"A face do mal é sempre a face da mais absoluta necessidade."