[OFF] 'Precisamos de uma revolução na educação', diz 1ª mulher a presidir Academia Brasileira de Ciências

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Joao Marcos

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Mar 31, 2022, 8:29:17 AM3/31/22
to Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de LOGICA
'Precisamos de uma revolução na educação', diz 1ª mulher a presidir
Academia Brasileira de Ciências
Biomédica Helena Nader afirma que ciência precisa ser uma política de
Estado, não de governo

29.mar.2022 às 12h37

O investimento em ciência e educação deve ser contínuo e não depender
de ações específicas do governo ou do partido no poder. Cortes na área
e a interrupção abrupta de programas de internacionalização são alguns
dos pontos que atrapalham o avanço do país, de acordo com a biomédica
Helena Nader.

Professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ela foi
eleita na manhã desta terça (29) presidente da Academia Brasileira de
Ciências (ABC) —é a primeira mulher a ocupar o cargo nos 106 anos da
instituição.

Como presidente, Nader afirma que quer reconstruir a educação
brasileira, desde o ensino pré-escolar até o superior.

A professora Helena Nader, recém-eleita presidente da Academia
Brasileira de Ciências (ABC), em seu laboratório na Unifesp, em São
Paulo - Eduardo Knapp - 22.mar.22/ Folhapress

"Precisamos de uma revolução na educação que começa na pré-escola e
vai até a pós-graduação. É preciso recuperar o pensar crítico e
incentivar as crianças a pensarem desde uma idade muito jovem", avalia
a cientista.

Além disso, a atual fuga de cérebros de pesquisadores brasileiros,
processo em que pessoas altamente qualificadas com pós-graduação
buscam oportunidades no exterior, preocupa por também ter matizes
internas. "Não é só a fuga para o exterior que me preocupa, mas dentro
do próprio país vejo muitos jovens recém-formados que deixam de buscar
a pós-graduação, estão perdidos", diz.

A biomédica conversou com a Folha em seu laboratório no Instituto de
Farmacologia e Biologia Molecular da Unifesp, em São Paulo, sobre
quais os desafios que espera da presidência da ABC, os obstáculos
impostos às mulheres pesquisadoras e quais perspectivas aguarda para a
ciência e educação brasileiras em um ano de eleições presidenciais.

A senhora acaba de ser eleita a primeira mulher a presidir a ABC, com
398 votos a favor (de um total de 420 votos, com 22 abstenções). Qual
impacto trará para a entidade? Espero trazer impactos para a sociedade
como um todo, em especial para as meninas mais novas, para que elas
entendam que não há limites para ser quem você quer. Vivemos no Brasil
um enorme retrocesso nos direitos das mulheres, o atual presidente
[Jair Bolsonaro, do PL] não leva em consideração os nossos direitos,
as vitórias que foram conquistadas pelas mulheres, com declarações
tanto dele quanto da ministra Damares [Alves, da Cidadania, Mulher e
Direitos Humanos] bastante nocivas.

Ser a primeira mulher presidente de uma instituição centenária não
significa uma mudança propriamente, mas um reconhecimento para a
sociedade de como chegamos lá. Sou mulher, mãe, avó, orientadora,
viúva, e vou continuar lutando pelos direitos das mulheres, que inclui
tudo, não é só direito à educação.

Qual o seu principal desafio na presidência da ABC? Na academia, o
principal desafio é a reconstrução da educação básica. Nós da ABC
produzimos conteúdo e publicamos na forma de livros ou materiais para
depois embasar políticas públicas. A ciência é a base, mas o principal
é a educação. E a ciência na educação serve para gerar espírito
crítico nas crianças, fazê-las pensar, questionar.

Precisamos de uma revolução na educação que começa na pré-escola e vai
até a pós-graduação. É preciso recuperar o pensar crítico e incentivar
as crianças a questionarem desde uma idade muito jovem.

Como enxerga o impacto na educação do atual governo e o que diz sobre
a queda do Ministro da Educação, Milton Ribeiro? A educação brasileira
caminha a passos largos para trás. O Estado brasileiro é laico. É
preciso garantir a laicidade como prevista na Constituição brasileira.
Para quem não gosta disso, mude a Constituição, mas por enquanto,
precisamos agir de acordo.

Qual o papel das entidades científicas na diversidade? É uma
preocupação nossa, e em todas as esferas. O assédio sexual e também o
moral, que é tão grave quanto, estão na nossa mente. Estamos
trabalhando com um grupo liderado pela professora Márcia Barbosa
[física da UFRGS] que escreveu um código de ética que será incluído no
estatuto da ABC. Esse estatuto terá, inclusive, ações de como lidar
com a desinformação científica.

Em relação à diversidade, no último ano os novos membros que entraram
da ABC já foram mais diversos, a maioria que entrou foram mulheres.
Precisamos contar com essas pessoas porque isso é essencial para
aumentar o conhecimento e também dos povos tradicionais, os indígenas,
quilombolas, todos.

Nos três anos do governo Bolsonaro, quais os impactos que a
colaboração científica internacional sofreu no país? Em primeiro lugar
o programa Ciência sem Fronteiras foi um projeto audacioso com
impactos muito positivos. É claro que teve erros, mas o impacto na
internacionalização da ciência brasileira foi muito grande, e várias
colaborações permaneceram dessas idas.

O problema é que no Brasil não existe fluxo contínuo, e ele foi
abruptamente cortado. Ciência e educação precisam ser política de
Estado, e não de governo. Não pode ser construída a educação com cor
político-partidária, quando isso ocorre é um desastre.

Agora durante o governo Bolsonaro houve a continuidade de um programa
de internacionalização de universidades excelente que é o Print, então
não posso dizer que é tudo ruim. É claro que a pandemia atrapalhou
principalmente por conta da mobilidade, mas é um caminho a se seguir.

Como enxerga os cortes de cerca de 92% no orçamento da ciência
realizados no ano passado? Não foi por falta de comunicação com o
Ministério da Economia. É muito triste, me revolta até, porque na hora
de fazerem discurso a favor da ciência fazem, mas não praticam. Os
cortes são violentos e causam efeitos no futuro.

Durante a pandemia da Covid-19, o Fundo Monetário Internacional disse
que é preciso investir em ciência, só assim iríamos conseguir sair da
pandemia. Pensamos que se o FMI diz isso, alguém vai ouvir, mas nada
mudou, infelizmente.

O que pensa sobre o investimento privado em ciência? Acho que a
parceria público-privada é fundamental, e precisamos buscar isso
através de leis que já existem no Brasil. Muitas empresas acabam
desistindo de investir em ciência no Brasil porque há uma má
compreensão da lei.

Por exemplo, a Embrapa é uma das maiores empresas do Brasil, e ela foi
criada no período da ditadura. E eu não defendo os ditadores, eu lutei
muito contra os militares na época, mas eles tiveram uma sacada que
foi enviar os engenheiros agrônomos para fora do país, fazer
doutorado, se especializar e voltar para cá e aplicar. Hoje somos o
país número um em produção de soja. Isso deveria servir também para
outras áreas, como a da saúde. O Brasil está muito atrasado nisso.

Hoje temos um caminho reverso, de pesquisadores que saem e não voltam?
A fuga de cérebros para o exterior é patente, mas vou ser sincera, o
que me preocupa não é só a fuga para o exterior que me preocupa, mas
dentro do próprio país vejo muitos jovens recém-formados que deixam de
buscar a pós-graduação, estão perdidos. Os estudantes estão entrando
menos na universidade e os que saem estão procurando menos a
pós-graduação. Isso é um retrocesso muito grande.

Costumo dar um exemplo que é a construção de uma estrada, se ela for
paralisada por falta de verba, ninguém gosta de parar uma obra, você
pode até ter dificuldades mais para frente, mas retoma. Educação e
ciência não recupera. Aquele aluno que você deixou de formar não forma
mais. Por isso que meu objetivo principal e que vou lutar é por
reajuste das bolsas de pós-graduação.

________________________________

RAIO-X

Helena Bonciani Nader, 74

Nascida na cidade de São Paulo, é bacharel em ciências biomédicas pela
Unifesp e licenciada em ciências biológicas pela USP. Fez doutorado em
ciências biomédicas também na Unifesp, onde é professora desde 1989.
Possui pós-doutorado em ciências biológicas pela Universidade do Sul
da Califórnia (EUA). Foi pró-reitora de Graduação da Unifesp de 1999 a
2003, de Pós-Graduação e Pesquisa de 2007 a 2008 e presidente da
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência de 2011 a 2017

https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2022/03/precisamos-de-uma-revolucao-na-educacao-diz-1a-mulher-a-presidir-academia-brasileira-de-ciencias.shtml?fbclid=IwAR3uGgeQdzyyODcmTYwd3sbOKxewri4h-rVSvVhTbjaLKs1PcI-Slhrmdoc

Adolfo Neto

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Mar 31, 2022, 1:35:02 PM3/31/22
to Joao Marcos, Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de LOGICA
Não me parece ser revolução nenhuma, apenas bom senso, o que ela quer que aconteça.

--
LOGICA-L
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Walter Carnielli

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Mar 31, 2022, 2:00:48 PM3/31/22
to Adolfo Neto, Joao Marcos, Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de LOGICA
Eu vejo Academia Brasileira de ciências muito como "igrejinha" ,  ligada a grupelhos.

É muito difícil que eles reconhecem o trabalho de outras pessoas como cientistas," só os amigos dos amigos.

Acho que a verdadeira revolução deveria ser essa: reconhecer como tais *todos* os cientistas do pais.

Walter 

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Mayk Alves de Andrade

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Apr 4, 2022, 3:10:14 PM4/4/22
to Walter Carnielli, Adolfo Neto, Joao Marcos, Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de LOGICA
Bem, o que ela está dizendo é bastante revolucionário se considerarmos o cenário de retrocesso absurdo que estamos vivendo em todos os níveis da educação, desde o básico até o superior. A pandemia deixou uma defasagem profunda na educação, principalmente no setor público. Enquanto isso, o único objetivo do atual ministério da educação é infiltrar o pensamento religioso cristão nas escolas e a EC dos Tetos de Gastos é usada como justificativa para barrar qualquer aumento no financiamento da educação. A prioridade do ministério da economia é clara: pagar a dívida com os bancos a qualquer custo e deixar os rentistas e latifundiários exportadores felizes com a alta da Selic e do dólar.

É revolucionário porque só mudanças estruturais profundas na sociedade brasileira são capazes de tornar realidade o que parece óbvio. Mudanças estas que só serão possíveis com muita ação organizada.

Achei a entrevista bastante acertada. E fico feliz que a primeira mulher eleita para o cargo manifeste esse posicionamento político e tenha ganhado a eleição com 100% dos votos válidos. Isso para mim também é revolucionário.

Mayk

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