Vou tensionar na direção contrária aqui para que tenhamos "fricção construtiva", justamente o que falta no diálogo com máquinas.
(Em algum momento alguém vai dizer: "Chega, Marcio, você já falou demais, vá trabalhar e deixe que as outras pessoas também possam falar! Já entendemos que você está aflito porque acha que está presenciando uma grande revolução científica, mas não somos terapeutas pra ficarmos ouvindo você todos os dias...". Quando alguém disser isso, eu paro, prometo.)
Estou com meu livro do Ralph Costa Teixeira aqui em mãos: "Álgebra Linear. Exercícios e Soluções". Comprei o do Elon e depois este do Ralph, já faz tempo, quando meu dinheiro ainda dava para comprar livros...
O Ralph começa assim:
"Este livro pode ser catastrófico para o seu aprendizado de Álgebra Linear."
Cacilda Becker! Vou devolver!
Prossigamos:
"Bom, talvez sob o ponto de vista do marketing esta não seja a melhor frase para iniciar o prefácio... Mas há de ser dito: é extremamente tentador, após uns poucos minutos tentando resolver um problema, simplesmente olhar sua solução.
Este perigo nos parece tão grave que pensamos seriamente se seria uma boa ideia publicar este livro. (...)".
O restante do prefácio contém as recomendações sobre o que poderíamos chamar de "estudo verdadeiro", que envolve esforço, frustração, erros, tentar de novo, passar alguns dias (ou semanas ou meses ou anos) ruminando, convivendo com o problema, dando bom dia a ele, boa noite, dividindo o almoço, a janta, etc. E termina com uma recomendação espirituosa e motivadora, cheia de humanidade e incentivo, sobre o que fazer em caso de chegar a um beco sem saída. É literário esse prefácio...
É óbvio que o ChatGPT multiplica por 1000 (ou mais) a potência de um livro como esse, com todas as respostas. E também multiplica por mil (ou mais) o possível desastre para o aprendizado de uma pessoa e para as suas funções cognitivas caso a pessoa realmente deixar de pensar.
Agora, vamos olhar para a nossa realidade.
Em 1971, alguém escreveu um poema assim:
-×-×-×-
Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague
Pelo prazer de chorar e pelo "estamos aí"
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Deus lhe pague
Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Deus lhe pague
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague
-×-×-×-
O fenômeno descrito aqui é o roubo da subjetividade. O capitalismo rouba a subjetividade dos despossuídos.
Não é necessário um computador ou a Netflix para fazer isso. Ou o TikTok. Ou os celulares.
Basta que a miséria esteja suficientemente orquestrada, e que aos despossuídos não reste nada além de consumir o que lhe é oferecido pela engrenagem...
Seus sentimentos, suas esperanças, sua desilusão, seu despertar, tudo está sob controle pois no capitalismo tudo é mercadoria. Tudo se transforma em mercadoria.
Você pode emburrecer completamente uma pessoa vendendo a ela o gibi, a novela, o futebol. Ou a porcaria na TV aberta, o seriado mercadoria na Netflix... A dancinha no TikTok, o "Tigrinho" que carrega tantos sonhos e esperanças e tanta desilusão e desespero...
A igreja. A cachaça. Os antidepressivos.
O capitalismo apodrece tudo aquilo em que toca. Nada escapa.
De forma meio involuntária, ossos do ofício, acompanho a evolução dos estudantes que ingressam na universidade pelo menos desde 2008... E a impressão que eu tenho é a de que a situação era catastrófica já pouco antes da pandemia. E que a geração pós pandemia atingiu o fundo do poço. Antes do ChatGPT, portanto. Não escrever direito, não ler direito... É algo terrível... A inteligência artificial vai piorar isso? Provavemente. O capitalismo não conhece fundo de poço: a barbárie pode sempre ficar pior.
Mas convenhamos: o livro do Ralph, por si mesmo, não faz mal a ninguém. A inteligência artificial, por si mesma, não causa o emburrecimento de ninguém. O mesmo vale para as drogas. Elas, sozinhas, não causam desastres sociais. Isso está comprovado por experimentos: ratos que têm uma vida interessante no laboratório experimentam drogas e não se ligam a elas. Ratos com vidas desinteressantes tornam-se viciados. Algo empurra um usuário para uma experiência desastrosa com o ChatGPT. A máquina, por si mesma, é só uma máquina.
Estou dando uma olhada aqui no Felix Klein, por outros motivos. No livro "Matemática Elementar de um ponto de vista superior", bem no comecinho, ele se mostra muito interessado por uma máquina de calcular mecânica, um tipo de caixa registradora. Ele explica como a máquina faz operações mecanicamente. Analisa o funcionamento mesmo do hardware, as engrenagens... Depois ele recomenda que todo mundo estude uma máquina dessas pelo menos uma vez na vida.
A questão é que a simples existência de uma máquina capaz de calcular desloca profundamente o debate epistemológico, filosófico sobre o que são os números. E é essa a discussão que ele faz.
E numa passagem muito bonita ele lembra que a máquina de calcular construída por Leibniz é um dos artefatos mais apreciados em um museu de Hanover.
Leibniz é um injustiçado. Ele foi absolvido da acusação de plágio pelo Tribunal da História mas os danos causados à sua imagem como matemático, geômetra, permaneceram. A reparação nunca foi feita devidamente... Por que Leibniz teria construído uma máquina de calcular? O Felix Klein arrisca uma resposta. Tenho uma visão parecida. Apenas os Bourbakis, entre os historiadores da matemática mais conhecidos, parecem ter compreendido a estatura real de Leibniz: ela aparece naquele ensaio sobre Fundamentos da Matemática, Lógica e Teoria dos Conjuntos que inaugura os "Elementos de História da Matemática". Neste ensaio Leibniz é visto como deveria ser visto pelos matemáticos de hoje...
Bem. Voltando às máquinas.
Felix Klein achava que a simples existência de uma máquina capaz de calcular produzia uma séria alteração em todo o debate filosófico sobre o que são os números.
Aí está.
Da mesma forma, a simples existência de uma máquina capaz de produzir conhecimentos, produzir novidades matemáticas, provoca automaticamente um terremoto em nossas certezas estabelecidas sobre o que é conhecimento, inteligência e criatividade.
Como o David Bessis disse no ensaio dele, essas máquinas estão prestes a nos ensinar uma lição brutal sobre o que é inteligência e o que é matemática.
Para mim, este é o foco. O apocalipse viria de um jeito ou de outro. Não é preciso IA para acabar com a vida na Terra. A soja, o garimpo, os terraplanistas de ultradireita fariam isso da mesma maneira.
(Agora vou marcar a consulta com o terapeuta e dar uma folga aqui pra vocês... Prometo... Brincadeira, não sou o tipo de proletário que tem dinheiro para pagar terapeuta. Mas vou parar de exagerar aqui.)
Abraços!
M.
Usei muito pouco... Mas a presença dele na minha estante me dá uma espécie de segurança.
LOGICA-L
Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de Lógica <logi...@dimap.ufrn.br>
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