> > caracterização esta que deve ocorrer, forçosamente, via dedução
> natural? (em caso afirmativo, por quê?!)
>
> Acredito que a escolha por dedução natural(o mesmo vale pra sequentes) se dá pelo modo como este sistema torna explicito(noção, talvez, não muito lógica kk) o papel inferencial de cada conectivo isoladamente.
Mas a desvantagem de escolher cálculos de sequentes (ou, como caso
particular, dedução natural) parece muito grande se ao juntarmos
regras de diferentes conectivos os sistemas resultantes têm o
potencial de gerar interações indesejadas... De que forma estamos
"isolando o papel inferencial de cada conectivo" se: (1) ao juntarmos
as regras da conjunção com as regras da disjunção (clássica ou
intuicionista, dá no mesmo), elas dão origem magicamente a esquemas
relativos à distributividade, ou à absorção? (2) ao juntarmos as
regras da negação clássica às regras da implicação intuicionista, o
resultado é que a implicação se torna clássica? (3) ao juntarmos duas
implicações diferentes, digamos clássica e intuicionista, estas acabam
colapsando uma na outra?
Se o critério de escolha de formalismo dedutivo se baseia no desejo de
analisar "o papel inferencial de cada conectivo isoladamente", então a
questão parece ter mais a ver com a *analiticidade* do sistema do que
com a escolha de formalismo dedutivo... Note que o problema de
não-analiticidade dos sistemas hilbertianos no framework Set-Fmla não
se aplica ao framework Set-Set. Neste último framework, em muitos
casos, é perfeitamente possível analisar as regras de cada conectivo
_realmente_ em separado dos demais. Um inferencialista não deveria se
interessar por isso?
Referências:
- parte II do livro "Multiple-conclusion Logic", de Shoesmith & Smiley, 1978
- artigos de Caleiro & Marcelino nos anais do 26th WoLLIC (2019), e na
Synthese (2021).
> > o argumento central do artigo em questão certamente pareceria mais relevante/urgente/informativo se os praticantes de dedução natural em geral _não_ assumissem "open-endedness" ao explicitarem as regras de introdução e de eliminação com as quais trabalharão, não é?
>
> Acho filosoficamente informativo afirmar que a noção de "open-endness"(e, portanto, a unicidade) seja incompatível com a abordagem inferencialista dummetiana, mas não sei ao certo se esta é uma propriedade mais forte que a instanciação de regras esquemáticas. (De todo modo, Milne parece pensar que sim.).
Entendi. Mas observe que eu NÃO disse que "open-endedness" é
diretamente garantida pela esquematicidade das regras (reitero: "[...]
com regras esquemáticas sem um co-domínio de instanciação escolhido de
antemão").
Há duas formas mais ou menos _standard_ de garantir tal propriedade, contudo:
(1) Usando variáveis especiais que garantam que as regras não sejam
formuladas de modo a estarem ligadas a uma linguagem específica, e
estejam portanto prontas para se aplicarem antes e depois de eventuais
extensões linguísticas.
(Referência: artigo "Fibring of logics as a categorial
construction", no JLC de 1999)
(2) Usando explicitamente uma regra de substituição que se aplique
sempre sobre toda a linguagem que temos à disposição, antes e depois
de uma eventual extensão linguística.
(Referência: praticamente qualquer apresentação axiomática
encontrada na literatura)
Acho interessante, na realidade, apontar a importância da
"open-endedness", principalmente tendo em vista o fato de que grande
parte dos sistemas não-hilbertianos que encontramos na literatura
parece descuidar disso, e acabam não garantindo tal propriedade --- o
que é grave... Mas a minha questão é: há uma variedade de sistemas na
literatura de Teoria das Demonstrações que tenham sido formulados _de
propósito_ de modo a NÃO serem "open-endedness"? (ou será que há
sistemas que simplesmente foram formulados ---reitero, de maneira
descuidada--- de modo a não terem tal propriedade, e que com isto
resultam não serem capazes de acomodar extensões linguísticas, e não
se prestarem assim, por exemplo, a aplicações relevantes ao problema
de *combinar lógicas* via fibrilação?)
[]s, Joao Marcos
--
https://sites.google.com/site/sequiturquodlibet/