ensino da lógica à distância

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jean-yves beziau

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Apr 29, 2020, 12:07:50 PM4/29/20
to logi...@dimap.ufrn.br
Na UFRJ a primeira decisão da reitoria frente a pandemia foi de não favorecer o ensino à distância.
Mas agora devido a prolongação da pandemia, eles estão fazendo uma pesquisa para saber o que achamos da situação, preenchendo um formulário.
Temos em particular que escolher um dessas quarta respostas (lógica quadrivalorada de Dunn-Belnap!): concordo totalmente, concordo parcialmente, discordo parcialmente, discordo  totalemente , e justificar. Escolhi "concordo parcialmente" e justifiquei da maneira seguinte:
"Acho  o ensino em sala de aula fundamental e que não pode ser substituído por atividades  didáticas remotas mas sim tem coisas que podemos fazer a distância, por exemplo dar algumas indicações para os alunos sobre o que eles podem fazer em casa.  Na semana de calouro, dei aulas tanto na graduação que na pós-graduação e tenho e-mails dos meus alunos. Para mim "fica em casa" não deve ser interpretado no sentido de "fica em casa dormindo.""

Me parece que dar um curso tanto de filosofia que de matemática à distância não faz sentido, pode fazer sentido por algumas disciplinas que são mais informativas e/ou práticas, tal que a aprendizagem de uma língua.
Um curso de lógica pode ser mais matemático ou mais filosófico, mas nos dois casos não acho que ensino a distância funciona bem. Os alunos na filosofia no Brasil sempre pergunta sobre "bibliografia", e eu sempre falo no meu curso de lógica que a melhor coisa é assistir a aula não de ler livros e que a diferença em particular é que na sala de aula, é possível fazer perguntas ao professor,que isso é um grande vantagem. Felizmente aqui no Brasil funciona bem, os alunos são bem respeitosos dos professores, mas não tem medo de fazer perguntas. Quando trabalhava na universidade na Suiça, os alunos eram muito reservados, quase não faziam perguntas. 
O problema no Rio é que tem alunos que não assistam as aulas (aqui na UFRJ o controle de presença é em princípio obrigatório mas não muito aplicado) e depois na prova respondem coisas absurdas que eles pegaram na internet ou em alguns livros duvidosos. Por exemplo uma vez, na minha prova, uma pergunta era "o que é uma tautologia?" e tem cerca de 10 alunos que deram com exemplo de tautologia: "o peixe nada na água". Não sei aonde eles foram pescar tal ideia  ! E depois ficam reclamando por ter notas baixas. 
Do outro lado sempre tem aqui alguns alunos  fortemente motivados, que fazem muitas perguntas e entendem bem as coisas.

Quando estudei lógica em Paris tive excelentes professores de lógica, em particular a dupla Cori/Lascar, nas base das aulas da minha época foi publicado mais tarde o livro dele em francês e depois traduzido em inglês
Volume 1
Volume 2 
Este livro é muito bom, mas mesmo assim tem alguns defeitos e não subsitui as aulas dais quais eu participei.
Também tive aulas muito boas do Jean-Yves Girard, Jean-Louis Krivine, etc.

Ensinar matemática é uma verdadeira arte. Explicar os conceitos, apresentar uma demonstração, dar bons exemplos e intuições, é um coisa que se faz ao vivo e com interação.
A filosofia também é muito difícil ensinar a distância porque não tem nada de muito definido e preciso.
E nos dois casos a grande vantagem também do ensino in situ são conversas informais no campus ou aeradores, antes e depois das aulas.
Isso se aplica também a congressos,um congresso virtual é bem diferente de um congresso na realidade.

No entanto acho que computadores / internet são ferramentas muito úteis e que deveriam ser usados de maneira mais sistemática e inteligente.
Eu trabalhei em Stanford com o Patrick Suppes que foi um pioneiro de uso de computadores no ensino (na década 60).
Conversei algumas vezes com ele sobre este assunto: ele me diz que a ideia era de usar essas ferramentas para automatizar tudo que é automatizável e assim o professor na sala de aula é  o oposto de um robô. Para ele aulas de filosofia eram sempre seminários com muita discussão, não leitura de textos.

JYB

PS: sobre a evolução do coronavirus um colega me passou o link seguinte
de acordo com esses pesquisadores de Singapura, a pandemia no Brasil sera quase resolvida no incio de junho
Singapura conseguiu a controlar muito bem a pandemia, assim, que outro tigre chinês, Taiwan.
Tenho um ex-aluno taiwanese que agora é professor  na universidade (fui para la em novembro passado a convite dele), ele me diz que tudo continua a funcionar normalemente inclusivo as aulas.
 


Joao Marcos

unread,
Apr 29, 2020, 3:29:16 PM4/29/20
to jean-yves beziau, Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de LOGICA
Salve, JY:

> Na UFRJ a primeira decisão da reitoria frente a pandemia foi de não favorecer o ensino à distância.
> Mas agora devido a prolongação da pandemia, eles estão fazendo uma
> pesquisa para saber o que achamos da situação, preenchendo um formulário.

Parabéns à UFRJ por dar voz aos envolvidos, ao invés de simplesmente
_proibi-los_ de dar seguimento ao processo de ensino-aprendizagem!
Curiosamente, _hoje_ também a UFRN também decidiu finalmente circular
um "Formulário para docentes sobre as atividades de ensino de forma
on-line"...

> Me parece que dar um curso tanto de filosofia que de matemática à distância
>não faz sentido, pode fazer sentido por algumas disciplinas que são mais
>informativas e/ou práticas, tal que a aprendizagem de uma língua.

É curioso este prognóstico. A *aprendizagem de línguas* é justamente
um dos setores que mais evoluiu nos últimos anos na modalidade remota!
Isto me faz recordar um argumento falacioso que escuto frequentemente
no Brasil diz respeito à suposta "impossibilidade de aprender bem uma
língua X sem morar no país Y". Fico me perguntando, com efeito, de
onde vêm tal sorte de pré-concepções, dado que há inúmeros exemplos
viventes de que morar em Y não é condição nem suficiente nem
necessária para aprender X, para qualquer par <X,Y>.

Sei que esta prática mais higiênica não era bem o hábito dos filósofos
e matemáticos gregos, mas de minha parte sempre ensino Lógica, para
filósofos, matemáticos e outros seres, mantendo uma certa _distância_
dos meus alunos. Compreendo que alguns argumentos, tais como o
*argumentum ad baculum*, ficam prejudicados quando o aluno não está ao
alcance do porrete do professor, mas quer me parecer que a maior parte
da informatividade / praticidade do ensino da Lógica pode ser hoje
recuperada de forma remota, algumas vezes até com vantagem, com o
auxílio de tecnologias adequadas de apoio ao ensino. Há hoje imensa
pesquisa sobre este assunto, de fato.

> Um curso de lógica pode ser mais matemático ou mais filosófico, mas nos
> dois casos não acho que ensino a distância funciona bem. Os alunos na filosofia
> no Brasil sempre pergunta sobre "bibliografia", e eu sempre falo no meu curso
> de lógica que a melhor coisa é assistir a aula não de ler livros e que a diferença
> em particular é que na sala de aula, é possível fazer perguntas ao professor,
> que isso é um grande vantagem.

Este fetiche bibliográfico dos alunos brasileiros é realmente difícil
de explicar... Insegurança, talvez?

> Ensinar matemática é uma verdadeira arte. Explicar os conceitos,
> apresentar uma demonstração, dar bons exemplos e intuições,
> é um coisa que se faz ao vivo e com interação.

A parte do "ao vivo" tem fácil resolução tecnológica. Uma boa
pergunta / provocação diz respeito à possibilidade de emular
satisfatoriamente a dita "interação" de forma remota.

> A filosofia também é muito difícil ensinar a distância
> porque não tem nada de muito definido e preciso.

Não entendi. Você poderia ser mais preciso?

> E nos dois casos a grande vantagem também do ensino in situ são conversas informais no campus ou aeradores, antes e depois das aulas.
> Isso se aplica também a congressos,um congresso virtual é bem diferente de um congresso na realidade.

Sem dúvida os coffee breaks fazem muita falta!

> PS: sobre a evolução do coronavirus um colega me passou o link seguinte
> https://ddi.sutd.edu.sg/
> de acordo com esses pesquisadores de Singapura, a pandemia no Brasil sera quase resolvida no incio de junho

Não sou capaz de imaginar exatamente que milagre concorreria para a
quase-resolução da crise sanitária, assim de repente. Uma grande
dificuldade que temos na aplicação dos modelos SIR ou SEIR é o quase
completo desconhecimento do parâmetro R0, em praticamente qualquer
lugar do mundo.

Mantenha-se saudável!
JM


JM
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