Caro leitor
O tema deste mês é a lógica, área que nasceu com a própria filosofia europeia, às mãos de Aristóteles. Porém, como acontece em muitos outros casos, quem não sabe ainda lógica não anda bem se começar por estudar a lógica de Aristóteles ou a lógica estóica, que é o outro grande desenvolvimento nesta área de estudos ocorrido na Antiguidade europeia. O melhor é começar por compreender a lógica actual, nos seus próprios termos, para depois então compreender adequadamente esses dois momentos importantes da história da lógica.
No artigo “
Para Que Serve a Lógica?”, procuro explicar o que é a lógica e para que serve, sem entrar em pormenores matemáticos. A ideia central é que a lógica serve para distinguir os bons dos maus raciocínios, o que significa em última análise que a importância da lógica decorre directamente da importância do próprio raciocínio. Ora, o raciocínio é importante porque sem isso não conseguimos saber seja o que importa saber para melhorar a condição humana, seja o que importa saber só porque queremos satisfazer a nossa saudável curiosidade intelectual.
No artigo “
Algumas Noções de Lógica”, António Padrão explica mais em pormenor o que é a lógica dedutiva, como se relaciona com a linguagem comum e como se faz para explicitar raciocínios nem sempre explicitamente presentes nos textos.
Nietzsche é por vezes invocado para criticar a suposta miopia da lógica, mas as posições deste pensador quanto à lógica são muitíssimo menos óbvias do que parecem à primeira vista. O artigo de Steven D. Hales, “
Nietzsche sobre a Lógica”, oferece algumas pistas importantes sobre este tema.
A lógica conhece hoje pelo menos três grandes áreas: a lógica dedutiva (havendo hoje várias teorias, além da teoria clássica da dedução), a lógica indutiva e a lógica informal. Estas três áreas têm sobreposições, mas quando se encara a lógica informal de maneira menos matemática, temos o que por vezes se chama também “pensamento crítico” — que foi, na verdade, um movimento norte-americano específico, que visava introduzir competências lógicas no ensino superior, em todos os cursos. O artigo de Sven Ove Hansson, “
Pensamento Crítico”, faz um breve balanço desse movimento e do seu impacto educativo. É uma leitura importante para não albergar a crença
acrítica de que o pensamento crítico tem nos estudantes o efeito que se imagina ou se deseja.
O artigo de James W. Cornman, Keith Lehrer e George S. Pappas, “Indução Cogente”, procura esclarecer em que condições o raciocínio indutivo é apropriado (cogente), e o artigo de Mark Sainsbury, “Lógica Indutiva e Lógica Dedutiva”, traça algumas das importantes diferenças entre os dois tipos de raciocínio. O núcleo da lógica indutiva é o cálculo de probabilidades, e o artigo de I. J. Good, “Tipos de Probabilidade”, explica que as diferentes maneiras de entender o conceito de probabilidades se reduzem afinal apenas a um.
Quem tiver curiosidade sobre alguns aspectos da história da lógica encontra informação esclarecedora no artigo de Aldo Dinucci, “A Lógica Estóica Segundo Suzanne Bobzien”. Esta lógica era a principal rival da lógica de Aristóteles e, ao contrário desta última, está fundamentalmente correcta — na verdade, é ainda hoje a lógica subjacente aos computadores, à matemática e à ciência. A lógica de Aristóteles não está errada em muitos aspectos, mas está incompleta e é insusceptível de ser completada, por razões que explico no artigo “É Lógico, Aristóteles”, no qual exponho também o núcleo da sua lógica.
Voltando à lógica dedutiva actual, e só para dar dois exemplos da vitalidade dos estudos contemporâneos, vale a pena mencionar a recensão de Matheus Martins Silva do importante livro Filosofia das Lógicas, de Susan Haack, que discute algumas alternativas actuais à lógica clássica. Uma dessas alternativas é apresentada, numa das suas versões, por Décio Krause no artigo “Lógica Paraconsistente”.
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