Belo trabalho do Alfredo!
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DIGRESSÃO:
(1) Uma coisa que me parece ajudar muitos alunos de Matemática
Discreta, na hora de _construir intuição_ sobre *ordem*, é ler "a>b"
como "a excede b" (ao invés de "a é maior do que b"). Poucos costumam
ter qualquer dificuldade com a relação de ordem estrita, digamos,
sobre os números reais: dizemos que a excede b quando há algum c tal
que a = b+c, ou mais simplesmente quando a-b>0.
(2) Contudo, a relação *complementar*, a ordem parcial ≤, tem este mau
hábito de ir contra as intuições que as pessoas trazem da escola.
Seguindo a sugestão de leitura acima, contudo, "a≤b" deveria
evidentemente ser lido como "a NÃO excede b" (ao invés de "a é menor
ou igual a b", e alternativamente ao menos natural "a NÃO é maior que
b").
(3) Paradoxo de Galileu: Ao construir a bijeção usual, "2n", que tem
como domínio o conjunto dos naturais (ℕ1, no vídeo) e como codomínio o
conjunto dos naturais-pares (ℕ2, no vídeo), muitas pessoas que
acabaram de sair da escola podem querer concluir, usando (1), que
Card(ℕ2)>Card(ℕ1), isto é, que a cardinalidade do conjunto ℕ2 excede a
cardinalidade do conjunto ℕ1.
(4) Indo agora para o banco da universidade, o caminho mais seguro
para entender o efeito da bijeção "2n", em (3), é concluir, usando
(2), que Card(ℕ1)≤Card(ℕ2), isto é, que a cardinalidade do conjunto ℕ1
*não* excede a cardinalidade do conjunto ℕ2.
(5) Por fim, se "a não excede b" (bijeção "2n") e "b não excede a"
(bijeção "n", dada pela função-inclusão), podemos concluir que "a é
igual a b".
(OBS1) Introduzir a relação de ordem parcial como algo NEGATIVO, como
no item (2), parece ir exatamente _ao encontro_ dos comentários do
Alfredo, no segundo vídeo, sobre "a conclusão ser negativa", no caso
da bijeção "2n". A leitura positiva de "≤" como "menor ou igual",
parece ser bem menos útil no processo de aprendizagem sobre *como se
comparam* cardinais.
(6) Muitas (?) pessoas que acabaram de sair da escola acham natural
comparar o "tamanho" de duas coisas encontrando primeiro uma forma de
_medir_ o tamanho de cada uma destas coisas, e depois comparando as
medidas encontradas. Esta intuição funciona no caso finito, mas não é
boa. No caso infinito ela nem funciona nem é boa.
(7) A notação "Card(A)≤Card(B)", usada acima, é uma mera abreviatura
para "existe uma bijeção de A para B". Para construir (ou verificar)
esta bijeção ninguém precisa saber o significado de Card(.), isto é,
ninguém precisa "saber contar".
(OBS2) Ensinar a comparar tamanhos de conjuntos introduzindo
_primeiro_ a noção de "tamanho de conjunto", como aponta o Alfredo no
primeiro vídeo (para efeito de surpresa), parece de fato ser bem pouco
útil no processo de aprendizagem sobre a *comparação* de cardinais.
(Conclusão 1) A "leitura negativa" da relação de ordem parcial entre
cardinais parece ser mais útil do que a "leitura positiva". Dá um
certo trabalho, talvez, se livrar do hábito de usar esta última
leitura, mas para efeitos de aprendizagem realmente parece valer a
pena.
(Conclusão 2) A comparação entre os "tamanhos dos conjuntos" não
requer "saber contar", mas apenas saber construir certos tipos de
correspondências entre estes conjuntos.
(OBS3) _Na prática_, de fato, usar Schröder-Bernstein, a partir da
intuição subjacente ao item (5), e construir *injeções* entre dois
conjuntos dados acaba sendo bem _mais útil_ (e quase sempre bem mais
simples) do que construir correspondências biunívocas, ou "mapeamento
um-para-um", entre um destes conjuntos e parte do outro conjunto.
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Tendo em vista os últimos comentários acima, estou seguro de que o
teorema de Schröder-Bernstein será o tema de um dos próximos vídeos do
canal "Ad infinitum" (_antes_ da anunciada escalada para "grandezas
superiores"). Força, Alfredo!!
Joao Marcos
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