- Meio off-topic: Construção do Reino de Deus na UFRN - 4 atualizações
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Daniel Durante <dura...@gmail.com>: Dec 09 11:38AM -0800
Oi Eduardo e colegas,
Nunca tinha ouvido falar deste curso. Não consigo ler o artigo do Globo.
Tem um paywall.
Mas a ementa da disciplina "medicina, saúde e espiritualidade", que o João
Marcos postou, me pareceu interessante. Pessoalmente, eu teria real
interesse em cursar uma disciplina sobre medicina e espiritualidade,
principalmente se ela fosse verdadeiramente pluralista no que tange à
religião.
Antes da pandemia andei frequentando um grupo de estudos aqui do Depto de
Filosofia da UFRN sobre os pensamentos indígenas brasileiros. A proposta
não é antropologia, é filosófica mesmo. E é bem legal. Recomendo muito o
livro "A Queda do Céu", do xamã yanomami Davi Kopenawa e do antropólogo
Bruce Albert. Sem falar nos excelentes livros do Ailton Krenak.
A medicina "ocidental" acadêmica é ainda um luxo em muitos lugares do
"Brasil profundo" e do raso também. Os passes, rezas, chás, impostação de
mãos, promessas,... sempre estiveram lá, com os doentes e as doenças, muito
antes da medicina chegar. E não vão embora quando as ambulâncias chegam. Em
minha opinião, faz muito bem à universidade, aos médicos e demais
profissionais interessados em saúde aprenderem um pouco sobre estas
tradições, sob diversos aspectos, inclusive sob a perspectiva dos que a
praticam e nelas acreditam.
Claro que eu não conheço este curso e não sei exatamente o que eles fazem.
Mas enquanto ideia geral, me parece positivo. Afinal, a saúde é um conceito
muito mais amplo do que aquilo que cabe na medicina e mesmo na biologia.
Saudações xamânicas,
Daniel.
Em quarta-feira, 8 de dezembro de 2021 às 00:14:15 UTC-3, eduardoochs
escreveu:
Joao Marcos <boto...@gmail.com>: Dec 09 05:13PM -0300
> me pareceu interessante. Pessoalmente, eu teria real interesse em cursar uma disciplina
> sobre medicina e espiritualidade, principalmente se ela fosse verdadeiramente pluralista
> no que tange à religião.
Boa, Daniel, então depois que você cursar a disciplina pode nos ajudar
a esclarecer os seguintes itens, abaixo.
> Seguir os princípios científicos através de uma abrangência
> eclética, valendo-se dos conceitos abordados durante o curso.
Gostaria de saber mais sobre o "ecletismo científico" que será seguido no curso.
> Utiliza-se como conteúdo, temas que envolvem assuntos
> relacionados a medicina, saúde e espiritualidade,
> abrangendo conceitos da física newtoniana e quântica,
Gostaria de saber quais os "conceitos da física newtoniana e quântica"
que serão abrangidos, e como.
> a conceituação de Deus na visão religiosa, a anatomofisiologia multidimensional, a medicina ayurvédica,
É, infelizmente o CFM já favoreceu faz tempo a inclusão das "Práticas
Integrativas e Complementares" no SUS.
https://aps.saude.gov.br/ape/pics
Discordo frontalmente, contudo, que isto seja pago com dinheiro público.
> a função do pensamento, das emoções e sentimentos como instrumentos da cura da alma, a instrumentalização terapêutica da prece e meditação,
Muito legal tudo isso, mas não funciona. Ou há estudos científicos
sobre essas coisas?
O(s) inexistente(s) currículo(s) do(s) nosso(s) colega(s) envolvidos
nesta disciplina não ajudam a passar uma boa impressão da empreitada
toda.
Noto, de todo modo, que a "abertura religiosa" na UFRN é bastante
conhecida. Temos um "templo ecumênico" no câmpus, financiado com
dinheiro público, temos professores que publicam livros sobre "os
dinossauros e a Bíblia", e cansei de ver a estrutura do câmpus ser
oficialmente emprestada aos fins de semana para encontros de grupos
religiosos. Mas tudo isto está errado, fora de lugar.
[]s, JM
Eduardo Ochs <eduar...@gmail.com>: Dec 09 09:19PM -0300
Oi Daniel!
Eu consigo imaginar disciplinas chamada "medicina, saúde e
espiritualidade" que seriam interessantíssimas... a primeira imagem
que me vem à cabeça é um curso dado por um médico que fez formação
complementar em Homeopatia (ou: Homeopatia-no-sentido-Eduardo, que é
algo completamente diferente de Homeopatia-no-sentido-João-Marcos) e
que tenha um pouquinho de noção de Antropologia... e aí esse médico
mostraria vários modelos mentais de como os seres humanos funcionam,
mostraria várias noções diferentes de "saúde" e "doença", mostraria os
pontos cegos que cada grupo aponta nas visões de ser humano, saúde e
doença dos outros grupos, e poria todo mundo pra estudar e discutir...
Só que tem alguns grupos que eu _acho_ que têm um modelo mental tão
ruim de como os seres humanos funcionam que eu fico achando que
pessoas desses grupos não têm como ter a estrutura mental necessária
pra dar um curso como o acima.
Um dos links que eu mandei no meu post inicial foi esse aqui,
https://archive.md/TeS69
que leva pra uma versão despaywallizada do artigo d'O Globo, e esse
trecho aqui do artigo. Olha esse trecho:
"A Universidade tem a vocação institucional da busca do conhecimento
em qualquer vertente que ele se apresente. Um dos conhecimentos mais
significativos para a humanidade, foi aquele trazido por Jesus, que
se dizia filho de Deus e comprovava isso com a produção de fenômenos
que estasvam acima da capacidade humana do seu tempo e até os dias
atuais, conforme relatos aceitos majoritariame pela maioria das
pessoas que é informada.
Ele explicava que veio ao mundo a pedido do Pai (Deus), assumir a
personalidade do Cristo (Messias, Salvador) para ensinar a
humanidade sobre o Amor, e a partir daí construir a família
universal que seria a base para a construção do Reino de Deus, uma
sociedade civil harmônica e sintonizada com a vontade de Deus.
A importância de sua vida foi importante, a humanidade reconhece,
pois dividiu o calendário em antes e depois do seu nascimento, nos
fatos pré e pós Cristo.
Muitas teses, livros, religiões foram desenvolvidas a partir dessas
circunstâncias, que pretendem envolver o mundo e tornar realidade o
Reino de Deus, a partir da Reforma Íntima feita por cada pessoa em
seu próprio coração, tornando-se um cidadão do Reino de Deus, mesmo
que esse reino não esteja ainda vigente na sociedade."
Esse trecho ativa vários gatilhos meus. Pra mim a frase "a família
universal que seria a base para a construção do Reino de Deus, uma
sociedade civil harmônica e sintonizada com a vontade de Deus" soa
como algo só pode ser dito por alguém que acha que indígenas e LGBTs
são não só pessoas doentes como maçãs podres que contaminam as outras
maçãs do cesto...
[[]],
Eduardo Ochs
Cassiano Terra Rodrigues <cassian...@gmail.com>: Dec 09 07:51PM -0800
Camaradas, boas noites.
Vou deixar aqui dois enlaces para vossa apreciação, antes de fazer algumas
considerações. Perdoem-me a loquacidade.
1º enlace: https://educare.fiocruz.br/resource/show?id=gMz-x5-F
2º enlace:
https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2019/12/20/constelacao-familiar-machismo-e-pseudociencia-custas-do-sus
Consideração: 0,0000003% da classe médica nacional não deve ser
bolsonarista, o que, convenhamos, é um bom sinal dadas as circunstâncias.
Perdoem o sarcasmo, mas adoro perguntas retóricas: Como chegamos a
Bolsonaro? #mistérioprofundo
Agora, deixando de lado apenas momentaneamente o exercício de cinismo
salutar à sanidade mental, é preciso lembrar que o termo pseudociência já
foi criticado por pressupor um sentido verdadeiro e único de ciência, o q,
como se sabe, leva a dificuldades de maior monta. Eu, particularmente, não
gosto da expressão, mas é a q se usa. Não tenho outra melhor para oferecer.
Peirce usava "sham reasoning" para contrastar com "inquiry" (não apenas
ciência, qq inquiry). Na inquiry, a conclusão é adotada após se raciocinar,
por se ter raciocinado; no sham reasoning, a conclusão é adotada antes de
raciocinar e o raciocínio é posteriormente usado apenas para justificar a
conclusão previamente aceita. Como a racionalidade científica emerge do
senso-comum, a relação é complicada.
Mas, penso, o ponto mais importante não é esse, mas q os negacionismos
atuais - o científico, o histórico e todos os outros q conseguirem
identificar - são um sintoma da modernidade reflexiva, conforme a expressão
q tomo do professor australiano Andy Blunden, isto é, são produzidos como
efeitos de uma cultura de massificação do saber formal. Pela primeira vez
na história, o século XX viu surgir uma massa de gente letrada, altamente
especializada e intelectualizada, a par e em consequência da massificação
da alfabetização (formal ou literal). Até o século XIX, a maior parte da
população mundial não só morria de cólera (ou outras doenças) como as
pessoas morriam analfabetas, sendo a literatura e a cultura científica
reservada às classes dominantes. O Gattopardo de Lampedusa, p.ex., era
astrônomo. Aquelas fotos da (ou das?) conferência que reuniu Einstein,
Marie Curie, Poincaré e outros, no começo do século XX, é bem ilustrativa:
quem fora dali já tinha ouvido falar em átomo, relatividade, radiação etc.?
Hoje em dia, a comunidade científica não só se expandiu além de qualquer
critério facilmente identificável como tornou obsoleto o ideal de
esclarecimento q a filosofia um dia tomou para si. A nossa modernidade
produziu um ceticismo racionalista altamente qualificado para questionar a
si própria e os negacionismos são rebentos desse fenômeno social, um filho
não reconhecido do Iluminismo (não diria bastardo; acho q bastardos são os
outros filhos, reconhecidos, dentre os quais a ideia de democracia
liberal). A reação romântica ao iluminismo tem muito desse ceticismo,
aliás. O recurso a uma transcendentalização do humano é velho conhecido dos
jovens místicos, desde mais ou menos Rudolf Steiner; mas a ideia remonta
pelo menos a Locke e se vê em livros, filmes, séries etc., e eu a resumo
assim: é da liberdade de cada um decidir viver segundo a norma da sociedade
política ou não; quem não quiser, pode voltar ao estado de natureza. O
abandono da civilização, no entanto, é artificial, pois não apenas as
bombas cairão sobre quaisquer cabeças em caso de guerra, como no estado de
natureza também tem gente, de forma que também tem normas (a não ser q
mandem matar e botar fogo em tudo, o q sempre é uma opção, como é público e
notório). Sobre esse ponto da idealização de uma vida fora dos padrões de
racionalidade e cientificidade instituídas e fuga da civilização, a quem se
interessar, sugiro a leitura de um livro muito bom, Jon Savage, A
Criação/Invenção da Juventude, não lembro bem como traduziram. Mas eu
poderia lembrar tb a história do Chris Supertramp, personagem real do livro
e do filme homônimos Into the wild; ou ainda o garoto urso, Timothy
Treadwell, cuja trágica história foi filmada por Werner Herzog. Num mundo
em que as instituições cada vez mais se mostram extorsivas e a força de
trabalho vale cada vez menos, não me espanta q mais gente com mais
informação e sofisticado grau de educação formal tenda a recusar a
civilização com base em argumentos de excepcionalidade individual (ouvi uma
vez de uma mãe: "eu é q sei o que é melhor para o meu filho, e não vc ou a
ciência"). Pois reencontrar uma essência natural que dará sentido à vida é
mesmo uma ideia muito atraente. Resolveria nossos problemas, não
precisariamos mais lutar contra as injustiças sociais ou contra o
peleguismo, o fascismo, o sexismo nosso de cada dia etc. Isso dá muito
trabalho, tem de existir outro jeito, né non? #sqn como se diz atualmente.
Uma vez, um estudante q se dizia "libertário" me perguntou, com cara de
espanto, "Então o senhor (quase caí de costas, fui promovido a senhor!)
acredita que as massas são capazes de se autogovernar?" Respondi com o
maior clássico dos professores e disse "Depende." ao q emendei outra
pergunta: "Vc faz parte das massas?". Pois é, esse é o nosso problema, ou
somos parte da matrix e não existe pílula azul, verde, vermelha... ou somos
deus ex machina e aí não tem problema, basta sentar e ver o espetáculo. Eu,
infelizmente, tenho q trabalhar para pagar aluguel, ainda não virei
gratiluz, ninguém me ofereceu pílula nenhuma (mentira, já, mas não cabe
aqui o contexto).
A par esse fenômeno de ceticismo racionalista voltado contra a própria
fonte do ceticismo epistêmico, a razão, ou as instituições oficiais que a
comunicam, bem entendido, há ainda o populismo contemporâneo que faz
política com estilo, ou melhor, o populismo atual é um estilo retórico de
fazer política. Sobretudo, é uma retórica q intenciona causar efeitos na
massa populacional conforme a meta política pretendida. Essa retórica é bem
simples: basta exaltar as virtudes "naturais" do "povo" e contrapô-las às
da "elite", ou qq outro inimigo imaginário, para fazer os sequazes se
oporem ou à própria sociedade ou ao "sistema". Essa retórica é mobilizada
com radicalismo toda vez q quem a mobiliza está perdendo no jogo eleitoral
(vou me eximir de dar exemplos, para não ferir sensibilidades, sobretudo a
minha). Como é possível constatar facilmente, funciona bem; pode ser falso,
fake, ou sei lá o q, mas é persuasivo. Machiavelli detectou bem o problema:
o príncipe é sobretudo aparência, nada é mais importante do que parecer
ser. Ser ou não ser, deixemos para Hamlet.
Não posso terminar sem deixar de observar mais uma coisa. Em nome de um
realismo que naturaliza a ordem social e econômica, as pautas
transformadoras são obliteradas por esse estilo populista em favor de
pautas mais candentes, de forma a esvaziar todo teor transformador do
ressentimento social, o qual é canalizado para alvos inócuos à manutenção
dessa mesma ordem. Outro dia vi um vídeo antigo de Paulo Maluf, no Roda
Viva, dando aula de democracia e saúde pública para uma bancada de
neo-yuppies que já obtiveram fama municipal. O tema era a proibição de
fumar em lugares públicos e fechados, qdo Maluf era prefeito de SP, lá em
1990 e bolinhas. Cada um que escolha qual exemplo mais atual pode ser
invocado. Para lembrar Lampedusa mais uma vez, tudo muda, mas permanece o
mesmo. Na verdade, o sentido da frase é mais cínico e mais certeiro: para
que tudo fique na mesma, é preciso que tudo mude.
Saudações a quem luta. Ou não.
cass.
On Thursday, December 9, 2021 at 9:19:44 PM UTC-3 eduardoochs wrote:
Cassiano Terra Rodrigues <cassian...@gmail.com>: Dec 10 12:50AM -0300
Camaradas, boas noites.
Vou deixar aqui dois enlaces para vossa apreciação, antes de fazer algumas
considerações. Perdoem-me a loquacidade.
1º enlace: https://educare.fiocruz.br/resource/show?id=gMz-x5-F
2º enlace:
https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2019/12/20/constelacao-familiar-machismo-e-pseudociencia-custas-do-sus
Consideração: 0,0000003% da classe médica nacional não deve ser
bolsonarista, o que, convenhamos, é um bom sinal dadas as circunstâncias.
Perdoem o sarcasmo, mas adoro perguntas retóricas: Como chegamos a
Bolsonaro? #mistérioprofundo
Agora, deixando de lado apenas momentaneamente o exercício de cinismo
salutar à sanidade mental, é preciso lembrar que o termo pseudociência já
foi criticado por pressupor um sentido verdadeiro e único de ciência, o q,
como se sabe, leva a dificuldades de maior monta. Eu, particularmente, não
gosto da expressão, mas é a q se usa. Não tenho outra melhor para oferecer.
Peirce usava "sham reasoning" para contrastar com "inquiry" (não apenas
ciência, qq inquiry). Na inquiry, a conclusão é adotada após se raciocinar,
por se ter raciocinado; no sham reasoning, a conclusão é adotada antes de
raciocinar e o raciocínio é posteriormente usado apenas para justificar a
conclusão previamente aceita. Como a racionalidade científica emerge do
senso-comum, a relação é complicada.
Mas, penso, o ponto mais importante não é esse, mas q os negacionismos
atuais - o científico, o histórico e todos os outros q conseguirem
identificar - são um sintoma da modernidade reflexiva, conforme a expressão
q tomo do professor australiano Andy Blunden, isto é, são produzidos como
efeitos de uma cultura de massificação do saber formal. Pela primeira vez
na história, o século XX viu surgir uma massa de gente letrada, altamente
especializada e intelectualizada, a par e em consequência da massificação
da alfabetização (formal ou literal). Até o século XIX, a maior parte da
população mundial não só morria de cólera (ou outras doenças) como as
pessoas morriam analfabetas, sendo a literatura e a cultura científica
reservada às classes dominantes. O Gattopardo de Lampedusa, p.ex., era
astrônomo. Aquelas fotos da (ou das?) conferência que reuniu Einstein,
Marie Curie, Poincaré e outros, no começo do século XX, é bem ilustrativa:
quem fora dali já tinha ouvido falar em átomo, relatividade, radiação etc.?
Hoje em dia, a comunidade científica não só se expandiu além de qualquer
critério facilmente identificável como tornou obsoleto o ideal de
esclarecimento q a filosofia um dia tomou para si. A nossa modernidade
produziu um ceticismo racionalista altamente qualificado para questionar a
si própria e os negacionismos são rebentos desse fenômeno social, um filho
não reconhecido do Iluminismo (não diria bastardo; acho q bastardos são os
outros filhos, reconhecidos, dentre os quais a ideia de democracia
liberal). A reação romântica ao iluminismo tem muito desse ceticismo,
aliás. O recurso a uma transcendentalização do humano é velho conhecido dos
jovens místicos, desde mais ou menos Rudolf Steiner; mas a ideia remonta
pelo menos a Locke e se vê em livros, filmes, séries etc., e eu a resumo
assim: é da liberdade de cada um decidir viver segundo a norma da sociedade
política ou não; quem não quiser, pode voltar ao estado de natureza. O
abandono da civilização, no entanto, é artificial, pois não apenas as
bombas cairão sobre quaisquer cabeças em caso de guerra, como no estado de
natureza também tem gente, de forma que também tem normas (a não ser q
mandem matar e botar fogo em tudo, o q sempre é uma opção, como é público e
notório). Sobre esse ponto da idealização de uma vida fora dos padrões de
racionalidade e cientificidade instituídas e fuga da civilização, a quem se
interessar, sugiro a leitura de um livro muito bom, Jon Savage, A
Criação/Invenção da Juventude, não lembro bem como traduziram. Mas eu
poderia lembrar tb a história do Chris Supertramp, personagem real do livro
e do filme homônimos Into the wild; ou ainda o garoto urso, Timothy
Treadwell, cuja trágica história foi filmada por Werner Herzog. Num mundo
em que as instituições cada vez mais se mostram extorsivas e a força de
trabalho vale cada vez menos, não me espanta q mais gente com mais
informação e sofisticado grau de educação formal tenda a recusar a
civilização com base em argumentos de excepcionalidade individual (ouvi uma
vez de uma mãe: "eu é q sei o que é melhor para o meu filho, e não vc ou a
ciência"). Pois reencontrar uma essência natural que dará sentido à vida é
mesmo uma ideia muito atraente. Resolveria nossos problemas, não
precisariamos mais lutar contra as injustiças sociais ou contra o
peleguismo, o fascismo, o sexismo nosso de cada dia etc. Isso dá muito
trabalho, tem de existir outro jeito, né non? #sqn como se diz atualmente.
Uma vez, um estudante q se dizia "libertário" me perguntou, com cara de
espanto, "Então o senhor (quase caí de costas, fui promovido a senhor!)
acredita que as massas são capazes de se autogovernar?" Respondi com o
maior clássico dos professores e disse "Depende." ao q emendei outra
pergunta: "Vc faz parte das massas?". Pois é, esse é o nosso problema, ou
somos parte da matrix e não existe pílula azul, verde, vermelha... ou somos
deus ex machina e aí não tem problema, basta sentar e ver o espetáculo. Eu,
infelizmente, tenho q trabalhar para pagar aluguel, ainda não virei
gratiluz, ninguém me ofereceu pílula nenhuma (mentira, já, mas não cabe
aqui o contexto).
A par esse fenômeno de ceticismo racionalista voltado contra a própria
fonte do ceticismo epistêmico, a razão, ou as instituições oficiais que a
comunicam, bem entendido, há ainda o populismo contemporâneo que faz
política com estilo, ou melhor, o populismo atual é um estilo retórico de
fazer política. Sobretudo, é uma retórica q intenciona causar efeitos na
massa populacional conforme a meta política pretendida. Essa retórica é bem
simples: basta exaltar as virtudes "naturais" do "povo" e contrapô-las às
da "elite", ou qq outro inimigo imaginário, para fazer os sequazes se
oporem ou à própria sociedade ou ao "sistema". Essa retórica é mobilizada
com radicalismo toda vez q quem a mobiliza está perdendo no jogo eleitoral
(vou me eximir de dar exemplos, para não ferir sensibilidades, sobretudo a
minha). Como é possível constatar facilmente, funciona bem; pode ser falso,
fake, ou sei lá o q, mas é persuasivo. Machiavelli detectou bem o problema:
o príncipe é sobretudo aparência, nada é mais importante do que parecer
ser. Ser ou não ser, deixemos para Hamlet.
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transformadoras são obliteradas por esse estilo populista em favor de
pautas mais candentes, de forma a esvaziar todo teor transformador do
ressentimento social, o qual é canalizado para alvos inócuos à manutenção
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