a minha resposta trivial é: SIM.
Mas isso não tem importância nenhuma, porque obter uma lógica “bonitinha" que justifique um mal raciocínio, não o torna bom. A lógica NÃO ATRIBUI valor a um raciocínio. Ela, no máximo, RECONHECE o valor de um raciocínio.
Os lógicos não são legisladores nem mesmo juízes dos bons raciocínios. Os lógicos são meros cronistas, repórteres.
A lógica enquanto disciplina funda-se na aposta de que é possível reconhecer um bom raciocínio através de uma relação formal entre as premissas e a conclusão do argumento que corresponde à sua expressão linguística: a relação de consequência.
Mas quando um raciocínio é bom? Sem muita filosofia, um raciocínio é bom quando a conclusão a que se chega está fortemente justificada pelas premissas de que se parte. O tipo de “força” que a lógica procura, pelo menos em suas abordagens ortodoxas, é a força máxima, a infalibilidade. Um raciocínio é bom, do ponto de vista lógico, quando ele é infalível. Quando não é possível que a conclusão não seja verdadeira quando as premissas são.
Quando a gente cria, modifica, inventa, altera uma lógica, a gente está criando, modificando, inventando, alterando uma relação formal específica entre sentenças que constitui-se em uma definição específica de uma relação de consequência. Mas o mais importante, o objetivo para fazer isso, sempre tem que ser que esta relação de consequência seja um instrumento confiável para reconhecer os bons raciocínios.
Acontece que o critério do que é um bom raciocínio não é formal. A infalibilidade de um raciocínio não parece depender das especificações formais da(s) relação(ões) de consequência dada(s) pela(s) lógica(s). A lógica é uma disciplina meio esquizofrênica. Ela estuda uma coisa para reconhecer outra.
Criar um sistema formal para justificar um argumento qualquer nos dá uma relação formal entre sentenças. Ok. Mas eu não diria que nos dá uma Lógica. A gente só vai ter uma Lógica se esta relação formal se mostrar um instrumento confiável para reconhecer os bons raciocínios--os infalíveis, em uma abordagem ortodoxa.
O limite, que você se pergunta, de até onde podemos ir com nossa liberdade de lógicos para criar sistemas e justificar argumentos esdrúxulos, não está na lógica, está fora dela, como bem disse o Cassiano. Neste sentido, a lógica é muito mais parecida com as ciências naturais do que com a matemática. Os físicos, por exemplo, podem criar belíssimas teorias explicativas e matematicamente perfeitas diferentes sobre os limites do cosmos, sobre universos paralelos, sobre o que havia antes do big bang,… enquanto elas não forem empiricamente testáveis, elas não são Física. São apenas belíssimas teorias especulativas.
Só que ao contrário do que acontece com a Física e demais ciências naturais, o mundo real não basta como árbitro para decidir se um argumento é bom ou não. Ele é apenas uma das infinitas interpretações que precisa ser levada em consideração.
Para saber se é ou não possível as premissas de um argumento serem verdadeiras e a conclusão ser falsa, não basta vasculhar o mundo real. Para saber isso precisamos DETERMINAR quais situações (estados de coisas) podem existir (são concebíveis) e quais não podem existir (são inconcebíveis).
Essa determinação do que PODE ser real e do que NÃO PODE ser real não é empírica nem objetiva. É filosófica. É metafísica. Então, divergir sobre lógica é divergir sobre os aspectos mais gerais da realidade, é divergir sobre o que é aceitável e o que é inaceitável.
Minha definição poética de lógica é: a lógica é a disciplina que estuda o limite mais permissivo do que é aceitável, concebível como parte da realidade. A lógica nos dá o limite mais amplo possível para nossa imaginação de como o mundo pode ser. Tudo o que estamos dispostos a conceber deve caber na lógica. Para além da lógica está o inconcebível, o incomunicável.
Saudações,
Daniel.
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