Verdade... Acho que você tem razão... Existem muitos 'foundational frameworks', e apenas a seleção natural define quais prosperam, por sua melhor adaptação para a resolução de problemas em áreas específicas. Quando mostramos uma versão preliminar desse trabalho para o Jean-Pierre Marquis, ele se mostrou entusiasmado, talvez porque o sistema pudesse lançar uma nova luz sobre o velho debate "Feferman vs. categoristas de todo o mundo", uma vez que Flow mostra mais uma vez a primazia das funções diante dos conjuntos... Naquela ocasião Jean-Pierre Marquis chamou nossa atenção para as "Autocategories", de René Guitart, e à medida em que o trabalho foi prosseguindo, descobrimos outros sistemas. De fato, se Flow não tivesse mudado a forma como olhamos para certos problemas, e não tivesse levado Adonai à solução do problema do Princípio da Partição, seria muito difícil justificar sua existência num meio já bastante povoado por sistemas fundacionais...
Bem, seja como for, elaborei uma pequena tentativa de "motivação", para que os possíveis interessados possam compreender melhor (de um ponto de vista intuitivo) os axiomas e construções iniciais de Flow.
O ponto de partida é o teorema de Cayley, a relação existente entre operações binárias associativas e a representação dessas estruturas usando funções e composição de funções. Por exemplo, consideremos os inteiros módulo quatro {0, 1, 2, 3} sob a multiplicação módulo quatro. Temos assim um conjunto equipado com uma operação binária associativa, a multiplicação. Neste caso, trata-se de um monoide, pois temos um elemento neutro. O teorema de Cayley nos diz então que essa estrutura é isomorfa ao monoide das funções f_0, f_1, f_2, f_3, sob a composição, definidas da maneira usual; f_2, por exemplo, é definida como f_2(x) = 2x, com x no conjunto {0, 1, 2, 3}.
Então, elementos de estruturas binárias associativas podem ser "transformados" em funções, ou "interpretados" como funções.
Consideremos agora um caso mais geral, de uma operação binária não-associativa, definida no conjunto {0, 1, 2, 3}. Agora, porém, os símbolos 0, 1, 2 e 3 não devem ser interpretados como "inteiros módulo quatro", são apenas símbolos. Nossa operação binária será não-associativa; não-comutativa; idempotente, isto é, 0*0=0, 1*1=1, 2*2=2 e 3*3=3; terá um elemento 0 bilateral (absorvente dos dois lados): 0*x=x*0=0; e um elemento neutro 1 à esquerda: 1*x=x.
Poderíamos desenhar uma tabela para essa operação. Os valores não listados acima, para completar a tabela, seriam: 2*1=3*1=0; 2*3=0 e 3*2=2. Esses valores são arbitrários. Apenas as propriedades de 1, como neutro à esquerda, 0 como absorvente bilateral, e a idempotência são predefinidos.
Como a operação não é associativa, não vale o teorema de Cayley, e a estrutura formada com as funções sob a composição não será, em geral, isomorfa à estrutura original. Mas não faz mal. Isso não é um problema para nós, porque não estamos perseguindo este isomorfismo. Só queremos representar os elementos da estrutura como funções. Cada função será então um "endomorfismo" no conjunto {0, 1, 2, 3}, e poderá ser representada pelos típicos "diagramas internos de endomorfismos".
Agora vem o "pulo do gato": o que aconteceria se considerássemos, neste exemplo, a operação binária * como uma "função aplicação", ou "função avaliação", ou "evaluation map", isto é, suponhamos que, em vez de escrever 2*3=0 escrevêssemos 2(3)=0, e imaginássemos que 0, 1, 2 e 3 são eles próprios as funções, cujo comportamento é descrito em termos dessa avaliação ou aplicação? O resultado seria um pequeno universo de quatro termos, 0, 1, 2 e 3, que operam uns sobre os outros livremente, produzindo termos do mesmo universo. Com essa interpretação, chamamos 0, 1, 2 e 3 de "funções", e dizemos que 1(1)=1, 1(2)=2, 1(3)=3, 2(0)=0, 2(2)=2, etc.
Essa é uma boa maneira de interpretar, de forma intuitiva, o universo da Teoria Flow. Nele, temos uma infinidade de termos f, g, h, etc., que se aplicam livremente uns sobre os outros, produzindo outros termos, chamados de "funções". Nesse universo existem duas funções especiais, 1 e 0, com as propriedades 1(f)=f e 0(f)=f(0)=0, para toda função f. Além disso, toda função f de Flow satisfaz f(f)=f, o que chamamos de "postulado de autorreferência", mas podemos pensar que se trata da propriedade de idempotência da "avaliação" vista como operação binária, se quisermos. Com essa interpretação fica fácil ler os primeiros axiomas e entender as demonstrações.
O primeiro axioma diz que se f(g)=g e g(f)=f, então g=f (se f é ponto fixo para g, e g é ponto fixo para f, são a mesma função). E também tem o seguinte: se f(g)=f e g(f)=g, então f=g (se f absorve g e g absorve f, são a mesma função).
O segundo axioma diz que f(f)=f.
Depois introduzimos 1 e 0 e provamos que são únicas. Os axiomas seguem então como a caracterização da estranha álgebra não-associativa, não-comutativa, idempotente e com 0 e 1 especificados, da avalição, o único conceito primitivo de Flow.
Bem, era isso. (Espero que essas maluquices ajudem.)
M.