Há uma previsão disto sim. Veja trechos do livro:
(...), naquele chão da borda superior da concha da câmara dos
deputados. Observo lá embaixo o centro iluminado com suas poltronas em
semicírculo e a cortina atrás da mesa como uma cachoeira do teto da
concha até o chão. A cortina, antes com vinte e nove retângulos
inúteis, agora é um grande painel, onde milhões de pequenos rostos se
revezam, apresentando cada brasileiro que delibera naquele momento.
Tal qual uma arena de gladiadores romanos, agora a batalha na plenária
se dá entre os hologramas projetados por discos pretos em cada
poltrona, assistidos por uma plateia invisível espalhada pelo mundo
afora.
(...)
Enquanto descíamos, pensava: mesmo aposentado como engenheiro aquela
sim era uma prazerosa ocupação antes que eu partisse desta vida.
Gostava de apreciar o dinamismo com que o povo participava diretamente
das decisões políticas. Sabia que a nova democracia que se alastrava
pelo mundo neste ano de 2068 não dependia destes prédios, destas
arenas.
Este espaço era apenas mais um entre milhares de espaços simbólicos do
planeta, que serviam apenas para serem apreciados de vez em quando por
um turista ou cidadão. Para completar, só restavam serem simbolizadas
à nova ordem as sedes do Governo Chinês, da União Européia e da ONU.
(...)
Quando cansava, parava para observar e participar das deliberações.
Estava em votação uma proposta de Reforma Tributária. O imposto de
renda deverá ser proporcional, de tal forma que quanto maiores os
rendimentos individuais, maior a porcentagem de imposto sobre a renda
e, para quem ganha abaixo dos direitos fundamentais, isenção e
recebimento de renda complementar. A proposta não precisou ser votada
pela Câmara Virtual de Deputados. Ela fora diretamente aprovada por
65% dos eleitores brasileiros e virou lei.
Em seguida, as propostas de regulamentação desta lei foram chegando: o
limite do imposto sobre a renda será de 30%, 40%, 50%, 60% ou 70%? Eu
acionei meu simulador de impactos na minha lente direita. 30% não
reduziria muito a concentração de renda no Brasil. 60% e 70% apontavam
para baixo poder de compra e investimentos que fariam o país reduzir o
crescimento. Na tela da lente esquerda, votei em 40%, mas o limite de
50% ganhou diretamente.
– Zé, hora de aspirar a plenária!
– Certo. Eu limpo a esquerda e você a direita, ok?
As propostas de faixas de tributação foram apresentadas: 50 faixas de
tributação de R$ 1.000,00 até R$ 50.000,00, tantos por cento quantos
sejam os mil reais recebidos por mês pelo cidadão; 25 faixas de
tributação de R$ 1.000,00 até R$ 100.000,00, 0,25% quantos sejam os
mil reais recebidos por mês ou 100 faixas de tributação de R$ 1.000,00
até R$ 100.000,00, meio por cento quantos sejam os mil reais recebidos
por mês. Parei a aspiração e, após conferir os simuladores, votei na
primeira opção. Como o resultado estava demorando, voltei à faxina.
Após o tempo limite de meia hora, apuraram-se os votos e apenas 47%
haviam votado. Agora sim os hologramas virtuais começaram a se
digladiar com palavras nas poltronas da câmara.
Terminamos a limpeza e os turistas começavam a entrar na plenária.
Após 20 minutos, os deputados votaram e a proposta de 25 faixas de
tributação ganhou. Dez minutos depois, em meio à votação da mesma
matéria no Senado, a votação direta atingiu 51% de votantes e, destes,
67% aprovaram a proposta de 50 faixas de tributação. Esta vencedora,
fez encerrar-se definitivamente a votação em todas as instâncias
deliberativas.
As propostas eram apresentadas diretamente pelo povo. Pensava enquanto
bebia água com o Zé. Eu mesmo submeti no parlamento do bairro onde
moro uma proposta de lei que garantia equipamentos de última geração
aos faxineiros de órgãos públicos. Minha proposta foi aprovada e
passou a ser apreciada pela Câmara Virtual de Vereadores. Lá, outra
proposta similar de outro bairro foi unificada à minha. Uma terceira
proposta similar, mas que requeria os equipamentos apenas para órgãos
municipais, foi votada, aprovada e encerrada. Minha proposta não
atingiu o interesse da maioria das pessoas de minha cidade e não foi
aprovada diretamente no tempo legal. Com isto, os vereadores receberam
o poder de decidir a questão. A proposta foi aprovada por eles. Agora,
a mesma estava sendo apreciada em nível estadual. Ela nem aparece na
lista das mais interessantes e, por isto, tenho certeza que não será
votada diretamente, mas a partir de representantes eleitos.
É bom que seja assim mesmo: as questões mais relevantes sendo
decididas diretamente pelo povo e as menos importantes sendo delegadas
aos representantes. Representantes de verdade, relembro, enquanto
observo-os à minha frente. Os hologramas apenas apresentavam o
brasileiro da vez que estava eleito deputado naquele momento, que
tinha a confiança de quem o elegeu. De vez em quando o rodapé de algum
holograma fica avermelhando ao mostrar uma numeração diminuindo
(eleitores retirando votos do político) até que outro avatar, de verde
numeração elevada, substitui em tempo real o que perdeu votos de
representatividade. As candidaturas e eleições ocorrem o tempo todo, e
o voto sempre pode ser retirado de um candidato e atribuído a outro
mais comprometido com o eleitor. Isto garante a representação real do
povo.
– Até amanhã, Zé.
– Até, Fran. Da próxima vez aspiraremos o Senado.
Enquanto caminhava por baixo da rampa do planalto em meio ao sol
escaldante, relembrava: desde que a democracia direta eletrônica
começou no Brasil, muitas coisas mudaram. O povo aprovou a auditoria
da dívida externa. Em seis meses, ficou comprovado que a dívida já
fora paga com sobras. Decretou-se moratória. Os investidores ameaçaram
retirar o dinheiro do Brasil, mas, como nossos negócios são seguros,
se aquietaram. A auditoria das terras também foi aprovada e culminou
com a Reforma Agrária esperada há séculos. O povo também aprovou
diretamente a retomada das nações indígenas Waimiri Atroari e Raposa
Terra do Sol. Elas haviam sido alardeadas como independentes do Brasil
pelas corporações internacionais camufladas de ONGs para que as mesmas
explorassem com exclusividade as riquezas amazônicas.
Outras deliberações estavam em andamento: a auditoria e reestatização
das outroras estatais que foram privatizadas com perdas para o povo
brasileiro; a revitalização de todo o rio São Francisco e a
democratização do acesso à sua água. A proposta mais badalada é a de
refazer a transposição do rio São Francisco para que a água irrigue o
semiárido nordestino e não as áreas já ricas às quais fora
originalmente destinada. Mas como a questão é muito técnica, o povo
tem participado pouco e ela tem sido votada pelos parlamentares mesmo.
Outras propostas de pouca repercussão chegaram até à Câmara Virtual
Federal por aprovação dos representantes de municípios e estados e
foram decididas pelos deputados e senadores mesmo: o envio de um
brasileiro a Marte foi aprovado, mas a estranha proposta de reforma
arquitetônica da concha plenária do Senado Federal foi rejeitada. Seus
propositores argumentavam que, se agora realmente todo o poder emanava
do povo, a concha do Senado Federal, hoje voltada para baixo,
representando os estados federados, deveria ser reformada para também
ser voltada para cima, da mesma forma que a Câmara que representa o
povo. Os brasileiros, a maioria indiferente à proposta, a rejeitaram,
porque entenderam ser a mesma irrelevante. O poder dos estados
continuaria simbolizado, porque este, igualmente do povo emanado,
manteria a tradição da federação de estados e a beleza do cartão
postal.
Mal chego em casa, uma angústia invade meu peito. Aliso meu cachorro,
tomo um banho e me deito. Meus sentimentos me atraem para algo ruim
que se esboça. Não era Manhattam. Minha mente era atraída para um
salão nobre de um hotel em uma ilha particular no Pacífico. Meu corpo
tremula e eu não mais estou preso a ele.
Fonte:
http://bigbangmicrocosmico.blogspot.com