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2010, continuando a jornada espiritual (Yao Xin Shakya)
Embarcar na jornada espiritual é como entrar em um pequeno barco e adentrar o oceano em busca de terras desconhecidas (Pema Chodron).
Estamos reiniciando as atividades do Centro de Dharma em 2010, cotidianamente, de modo simples e familiar.
Este é um convite zen, então. Venha “sentar”. Com simplicidade, nos “sentamos” (Zazen). Familiarmente, entramos em contato com nossa respiração - parar, acalmar, descansar, curar e... transformar.
Um gatha: “Inspirando, acalmo minha mente. Expirando, estou aqui”. Gathas – pequenos versos para despertar a atenção no dia-a-dia. No cotidiano: pequenos gestos; calmas, doces e sutis gentilezas; coração terno e compassivo; “momentos presentes, momentos maravilhosos”; escuta profunda; plena atenção; pequenas lembranças – a flexibilidade do bambu, o fluxo da água, o centro, ponto de equilíbrio...
O “menu”: O Nobre Silêncio. As Quatro Nobres Verdades. O Nobre Caminho Óctuplo.
Algumas práticas: a plena consciência, atenção plena. Praticar. Fazer. Trabalhar, contribuir, compartilhar. “Sustentar a prática”, como costumo dizer. Estar plenamente presente, aqui e agora.
“(...) Devemos conjugar nossa inteligência a um coração aberto, terno. Devemos trazer à nossa racionalidade um senso de compaixão, de cuidado mútuo, de compartilhamento. Essas qualidades mentais transformam nossa inteligência em uma poderosa força positiva. A mente torna-se mais ampla e mais espaçosa e, mesmo quando acontecem incidentes infelizes, o efeito sobre nossa formação é mínimo. Somos capazes de cuidar do bem-estar dos outros, e não apenas de nós mesmos. De fato, como seres humanos, somos animais sociais por natureza, e nossa felicidade, e até nossa sobrevivência, depende da interação e cooperação. Assim, quando emoções positivas guiam a inteligência, ela se torna construtiva. Um coração terno e compassivo é o alicerce para a paz mental, sem o que a mente estará sempre desconfortável e perturbada.” (Gyatso, Tenzin, S. S. O XIV Dalai Lama, in “A essência do Sutra do Coração”, pág. 17-20).
Simples e familiarmente, daremos nossos “pequenos passos no Zen”. Caminhamos. Vamos caminhar um pouco juntos novamente?
“Caminhar” é uma jornada espiritual. E a paz é a cada passo.
Creio que vale lembrar que cada jornada espiritual verdadeira é uma “busca”. Isto significa que partimos e caminhamos em busca de algo, para descobrir alguma coisa. Não uma coisa qualquer, mas sim, por exemplo, sobre quem realmente somos e sobre o que a vida é. Questões difíceis, nem sempre confortáveis.
Verdadeiramente: nascemos, vivemos esta vida por algum tempo e morremos – todos. Esta é a jornada humana.
Como disse Covey, “nós não somos seres humanos numa jornada espiritual. Somos seres espirituais numa jornada humana.” (Stephen R. Covey).
Usando da imagem do “barco da vida”, ao longo dela é aparentemente fácil navegar na superfície, sem nunca mergulhar para ver as profundezas do azul escuro. Mas, se “escolhemos” ignorar que há mais na vida além do corre-corre diário, além da acumulação de coisas e valores, além da cacofonia, dos “ruídos do mundo”, o que acontece quando batemos de frente com o sofrimento? O que acontece quando ficamos doentes? Ou quando envelhecemos? Ou quando alguém que amamos morre? Ou quando estamos perto do fim de nossa vida? (que pode ser a qualquer momento – afinal, quem nunca soube de uma perda súbita?) Ou... quando sofremos, por uma ou outra razão? O que acontece?
Como dizem os tibetanos, “amanhã ou a próxima vida, o que vem primeiro, nunca se sabe”.
Se vamos “navegando apenas na superfície”, temos poucos recursos mentais, emocionais e espirituais para lidar com o sofrimento, para transformar o sofrimento.
Uma jornada espiritual nos dá recursos para lidar com as adversidades. Ela nos ajuda a compreender quais são os nossos desafios, pois cada jornada espiritual é única. É certo que podemos encontrar amigos e companheiros de “navegação”, de “caminhada”, de “mãos dadas”, mas a nossa jornada é única. Todas estas “viagens” têm algo em comum, nelas compartilhamos algumas estruturas, mas cada viagem é única. Muitas vezes, recebemos um convite à “aventura da viagem”, à aventura da jornada espiritual. O “convite” pode vir de modo inesperado: talvez em um momento da vida em que a pessoa percebe que “tudo vai mudar”, que “tudo está mudando” ou que, subitamente... “já mudou”.
Este “chamado” por vir de muitas maneiras: talvez o “convite” venha de algo que você receba, de algo que você leia ou ouça. Talvez até de um e-mail como este que trouxe você até aqui, ou de uma carta, um telefonema, da perda de algo precioso, de um sonho, da “última gota”, de uma experiência “estranha”. Pode ser que, de repente, ocorra algo dramático, súbitas mudanças na vida, talvez a perda de alguém amado do coração... Quem saberá?
O fato é que, muitas vezes, tendemos a recusar o “chamado” ou o convite porque, intimamente, bem ali no coração-mente, “sabemos” que uma jornada espiritual é um pouco como a “jornada do herói” - não é um saber necessariamente racional, mas é possível senti-lo. “Sentimos” o temor da jornada ao desconhecido, que compreende a “Partida” (muitas vezes chamada “Separação”), a “Iniciação” e o “Retorno”.
Na jornada, vamos atravessar os “portais dos medos” – e talvez o maior deles, o medo do desconhecido, o medo da mudança. Tendemos a recusar, porque não queremos mudar. Um modo de recusar é pela via da negação: negamos o que é “difícil” em nós e para nós, negamos o que é “difícil” em nossa vida. Uma frase comum é: “isto não pode estar acontecendo comigo”. Este é um modo de “negar” o que é doloroso ou desconfortável.
As jornadas dos heróis nos ensinam muitas coisas. Cada um de nós tem sua “potência” a realizar, as suas “missões”. E descobrir e, talvez, realizar esta potência, pode levar um longo tempo (e muitas “aventuras” – a “Iniciação”). Pode levar bastante tempo até para compreendermos o que é mais importante na nossa vida. Para isto, atravessamos “portais”, mergulhamos em profundidades até então não vistas, adentramos na escuridão do desconhecido, deixamos para trás o que conhecemos e penetramos em terras estranhas (a “Partida”, a Separação). Não é exatamente uma jornada confortável. Assim, muitos abandonam a jornada neste ponto: depois das motivações iniciais, do entusiasmo primeiro, sobrevêm as dificuldades da viagem até o encontro com o si-mesmo. Muitas das primeiras motivações vêm de “ganhar” alguma coisa – ganhar sabedoria, obter a iluminação, ganhar poder. Uma jornada espiritual não é sobre ter, é sobre ser; não é sobre o ego, é sobre o si-mesmo. Na jornada espiritual, é preciso descobrir-se “perdido” em território estranho para só depois “achar-se”. Ela vai ao encontro da “realização da potência” - é sobre atravessar os portais do desconhecido para, enfim, encontrar a potência que lá estava, que já era “conhecida” antes mesmo de se começar: o si-mesmo. E aí se dá o “Retorno”. Como aponta uma frase zen: “Só encontrará a sua vida aquele que a perdeu.”
“Antes que eu penetrasse no Zen, as montanhas e os rios nada mais eram senão montanhas e rios. Quando aderi ao Zen, as montanhas não eram mais montanhas, nem os rios eram rios. Mas, quando compreendi o Zen, as montanhas eram só montanhas e os rios, apenas rios.”
Se é assim tão difícil, por que embarcar numa jornada espiritual? Simples: não há nenhuma escolha. Já estamos numa jornada espiritual: ela se chama vida humana. Se aceitarmos “o chamado”, podemos ter bom humor e nos divertir na aventura do viver e na realização de nossa potência. A aventura de viver é a cada dia, a paz é a cada passo, o caminho já está sob nossos pés.
Como está no início deste texto, este é um “convite zen”: vamos caminhar um pouco, juntos?
(...) "A diferença mais marcante entre o Zen e as demais doutrinas de índole religiosa, filosófica e mística é que, sem jamais sair da nossa vida cotidiana, com tudo o que ela tem de concreto e prático, o Zen tem qualquer coisa que o mantém acima e além da banalidade do cotidiano.
Aqui chegamos ao ponto de contacto entre o Zen, o tiro com arco e as demais artes, como esgrima, o arranjo de flores, a cerimônia do chá, a dança, a pintura etc.
O Zen é a consciência cotidiana”, de acordo com a expressão de Baso Matsu (morto em 788). Essa “consciência cotidiana” não é outra coisa senão “dormir quando se tem sono e comer quando se tem fome”. Quando refletimos, deliberamos, conceptualizamos, o inconsciente primário se perde e surge o pensamento. Já não comemos quando comemos, nem dormimos quando dormimos. Dispara-se a flecha, mas ela não se dirige diretamente ao alvo e este não está onde devia estar.
O cálculo verdadeiro se confunde com o falso. A confusão introduzida no espírito do arqueiro se traduz em todos os sentidos e em todos os domínios.
O homem é definido como um ser pensante, mas suas grandes obras se realizam quando não pensa e não calcula. Devemos reconquistar a ingenuidade infantil, através de muitos anos de exercício na arte de nos esquecermos de nós próprios. Nesse estágio, o homem pensa sem pensar. Ele pensa como a chuva que cai do céu, como as ondas que se alteiam sobre os oceanos, como as estrelas que iluminam o céu noturno, como a verde folhagem que brota na paz do frescor primaveril. Na verdade, ele é as ondas, o oceano, as estrelas, as folhas. Uma vez que o homem alcance esse estado de evolução espiritual, ele se torna um artista Zen da vida. Ele não precisa, como o pintor, de telas, pincéis e tintas; nem como o arqueiro, do arco, da flecha, do alvo e dos demais acessórios. Ele tem seus membros, seu corpo, sua cabeça e os órgãos que constituem seu corpo. Sua vida, no Zen, se expressa por meio de todos esses instrumentos importantes, como manifestações suas. Suas mãos e os seus pés são os pincéis. O universo é a tela sobre a qual ele pinta sua vida durante setenta, oitenta, noventa anos. Esse quadro se chama a história.” (Daisetz T. Suzuki, na introdução do livro "A ARTE CAVALHEIRESCA DO ARQUEIRO ZEN", de EUGEN HERRIGEL).
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