A minha preferida - na linha de artigo (1983) do filósofo Julián Marias - é
outra, acessível a todos e independente de conhecimentos científicos ou
teológicos que poucos possuem. É a visão antropológica, fundada na mera
realidade do homem tal como se vê, vive e se compreende a si mesmo.
Trata-se da distinção decisiva entre "coisa" e "pessoa", que se revela no
uso da língua. Em todas as línguas há uma distinção essencial: entre "que"
e "quem", "algo" e "alguém", "nada" e "ninguém". Se entro numa casa onde
não há nenhuma pessoa, direi: "não há ninguém", mas não me ocorrerá dizer:
"não há nada", porque pode estar cheia de móveis, livros, lustres, quadros.
O que tem isto a ver com o aborto? Muito. Quando se diz que o feto é
"parte" do corpo da mãe, é falso, porque não é parte: está "alojado" nela,
melhor, implantado nela (nela e não meramente no seu corpo). Uma mulher
dirá: "estou grávida", nunca "o meu corpo está grávido". Uma mulher diz:
"vou ter um filho"; não diz: "tenho um tumor".
A pergunta a referendar, ao usar, em vez de aborto provocado, "interrupção
voluntária da gravidez", não só abusa da hipocrisia como se esconde sob a
capa de despenalização. Os advogados do sim não gostam da comparação, mas
com isto os partidários da pena de morte vêem as dificuldades resolvidas.
Podem passar a chamar à tal pena - por forca ou garrote - "interrupção da
respiração" (e também são só uns minutos).
Há ainda as 10 semanas, como se para a criança fizesse diferença em que
lugar do caminho se encontra ou a que distância, em semanas ou meses, da
sua etapa da vida que se chama nascimento será surpreendida pela morte.
O mais estranho é que para os progressistas o aborto é visto como sinal de
progresso, enquanto a pena de morte é de atraso. Dantes denunciavam a
"mulher objecto", agora querem legitimar a criança-objecto, a
criança-tumor, que se pode extirpar, em nome do "direito de dispor do
próprio corpo".
O direito (com bons propósitos) serve para nos impedir de entender "o que é
aborto". Por isso se mascara a sua realidade com fins convenientes ou pelo
menos aceitáveis: o controle populacional, o bem-estar dos pais, a situação
da mãe solteira, as dificuldades económicas, a conveniência de dispor de
tempo livre, a melhoria da raça.
A tudo isto acrescem as tentativas de abolir as relações de maternidade e
paternidade, reduzindo-as a mera função biológica sem duração para além do
acto de geração, sem nenhuma significação pessoal entre o "eu", o "tu" e o
"ele(a)" implicados.
Felizmente, ao pôr-se a nu a grave dimensão da aceitação social do aborto,
facilita-se o regresso de temas que os "progressistas" julgavam de direita
e, por isso, ultrapassados: a família e a natalidade.
Não devemos estranhar que os mesmos que sempre se equivocaram sobre tudo,
desde a natureza do regime soviético a Cuba, passando pelo fim do trabalho
e as nacionalizações, se encontrem agora, de novo, unidos no "sim" ao
aborto (e no "não" ao sofrimento dos animais). E, ontem como hoje,
acompanhados de idiotas úteis. Alguns, pelos vistos, "liberais", que
desconhecem que a noção de liberdade para o liberalismo clássico é oposta à
de "direito a ou de". Para T. Jefferson os seres humanos são independentes,
mas não da moral; se a desafiamos, não somos livres mas escravos, primeiro
das nossas paixões e depois possivelmente da tirania política. Que tipo de
governo democrático poderá controlar homens que não podem controlar as suas
próprias paixões? Situação que piorará com a ilusão do Estado contraceptivo
e a liberalização das oportunidades para a irresponsabilidade.
"Alfredo Medeiros" <alfredo_...@gmail.com> escreveu na mensagem
news:45c09687$0$27700$a729...@news.telepac.pt...
Você não vergonha nem desgosto de ser tão estúpido, tão imbecil, tão cretino
e tão desonesto?
Você consegue ultrapassar todos os limites considerados, senso comum,
aceitáveis em qualquer uma dessas vertentes.
--
Gilberto Jesus
> Você não vergonha nem desgosto de ser tão estúpido, tão imbecil, tão
> cretino e tão desonesto?
> Você consegue ultrapassar todos os limites considerados, senso comum,
> aceitáveis em qualquer uma dessas vertentes.
E você não tem vergonha de tratar dessa forma tão deselegante alguém que se
limitou a expor, de forma civilizada, o seu ponto de vista sobre o tema em
questão? As divergências de opinião são salutares em qualquer tipo de debate
e constituem sempre uma oportunidade, não um drama. Mas, pelos vistos, você
tem problemas em conviver com a diferença.
Dâmaso Salcede
"Dâmaso Salcede" <sal...@sapo.pt> escreveu na mensagem
news:52cq3fF...@mid.individual.net...
Tenho sérios problemas em conviver com a desonestidade. Lá isso tenho. Há
outros que não. Que até gostam.
--
Gilberto Jesus
"Dâmaso Salcede" <sal...@sapo.pt> escreveu na mensagem
news:52cq3fF...@mid.individual.net...
--
Gilberto Jesus
"Jorge da Costa" <jorge...@netcabo.pt> escreveu na mensagem
news:45c21e1b$0$28633$a729...@news.telepac.pt...
Caríssimos,
Cumprimentos a todos. Volto ao fim de 8 anos, pelo que presumo o fórum
esteja bastante mudado.
Pelo que vejo, ainda há quem confunda o fórum dos insultos com este
fórum. Já na altura, pontualmente, acontecia, mas depois tudo serena.
Já se deve ter dito quase tudo sobre a questão da IVG, junto apenas
mais uma informação quanto à questão das 10 semanas.
Parece-me que tem sido dito está correcto: tanto existe vida às 10
semanas, como às 5 ou às 15 e a IVG é sempre sinal de algo negativo
(que poderá não ser a decisão de IVG).
A razão de ser das 10 semanas resulta de ser o período máximo razoável
entre a mulher saber que está grávida e ter de tomar uma decisão.
Claramente, nos casos em que vai existir IVG, quanto mais cedo melhor,
para todos.
Assim, dentro do que de mau tem a IVG (recordo que quer o SIM, quer o
NÃO são contra o aborto), procura-se "exigir" que a decisão seja
tomada tão cedo quanto possível.
Cumprimentos,
Diogo Quental
Eu apoiante do SIM, sou convictamente contra o aborto.
Sei que nenhuma mulher ou casal, passa por uma situação dessas de ânimo
leve.
De uma forma mais dramática ainda, quando tomada essa decisão ele tem de ser
efectuado de forma clandestina, e por vezes sem quaisquer vestígios de
dignidade, de higiene e de segurança para a saúde da mulher.
Tudo acrescido da agravante de poder ser presa, julgada e condenada a pena
de prisão. A lei em vigor assim o prevê.
Para pôr termo a toda esta situação degradante e ao aborto clandestino
(também meio de rápido e fácil enriquecimento de alguns médicos), no próximo
dia 11 irei votar SIM à despenalização da IVG feita até às 10 semanas em
estabelecimento de saúde público.
Cumprimentos,
--
Gilberto Jesus
"Diogo Quental" <quenta...@gmail.com> escreveu na mensagem
news:1170373862.3...@l53g2000cwa.googlegroups.com...