�Destaquemos tr�s efeitos maiores da avalia��o em geral: 1.A captura de
for�as livres pelo diagrama �avalia��o� estabelece hierarquias fixas nas
rela��es de poder. As rela��es de for�a funcionam agora como rela��es de
poder; 2. O ser singular do indiv�duo � submetido a uma grelha geral em que
se comparam, se quantificam e se qualificam compet�ncias. A avalia��o
aplica-se a grupos, popula��es em que o indiv�duo se integra, enquanto �ser
avaliado�, como uma entidade compar�vel, homogeneizada por padr�es que valem
para todos; 3. Estes padr�es marcam o grau m�ximo de poder e de saber. Como
tal, induzem no indiv�duo a convic��o de que est� sempre numa situa��o (a
que corresponde um sentimento) de inferioridade e de impoder face ao
avaliador e � imagem ideal do avaliado (que vai esfor�ar-se por a atingir).
Neste sentido, a avalia��o estabelece graus de exclus�o, grupos
hierarquizados segundo o valor intr�nseco da pessoa ou do grupo avaliado.
S�o exclus�es parciais dentro da esfera �nica da inclus�o determinada pela
avalia��o. Com diz Jacques-Alain Milier em Voulez-vous �tre �valu�?, �a
compara��o �, com efeito, o n�cleo da avalia��o�. Ou ainda: �A avalia��o
visa autocondena��o pelo sujeito. � a l�gica de toda a governa��o pelo
saber.� Traduzindo em termos foucaldianos: a autocondena��o do sujeito � uma
express�o da mais-valia do poder biopol�tico.
Seria necess�ria uma an�lise do sistema de avalia��o que se quer impor nas
escolas portuguesas. Tarefa imposs�vel, pelo estudo minucioso que requer,
tanto da natureza das transforma��es actuais das tecnologias biopol�ticas do
antigo poder que se manifestava num certo sistema educativo, como do pr�prio
sistema de avalia��o, com as particularidades que apresenta. Sumariamente,
pode-se dizer o seguinte: a dupla vertente da governa��o S�crates que
evoc�mos atr�s - por um lado, o centralismo autorit�rio, regulador, fazendo
intervir o Estado nos mais �nfimos mecanismos da vida social; por outro, a
vontade de �emagrecer o Estado�, de reduzir o seu peso na sociedade civil,
�modernizando� o seu funcionamento, leva a que os efeitos das reformas, e em
particular a do sistema educativo, possam ser, na subst�ncia, puramente
superficiais, n�o produzindo mudan�as de fundo, e, na forma, imperativos
pesad�ssimos, tarefas insuport�veis e inexequ�veis. Porqu�? Porque - e
refiro-me aqui ao Estatuto da Carreira Docente, ao Estatuto do Aluno e �
avalia��o dos professores - a vertente autorit�ria e super-reguladora do
Estado exerce-se fundamentalmente e quase exclusivamente na forma, na
burocracia, nas centenas de documentos, formul�rios, regulamenta��es que os
professores devem estudar, preencher, hor�rios extraordin�rios que devem
cumprir, etc., sem que os conte�dos do ensino, a subst�ncia da rela��o de
aprendizagem professor-aluno seja tratada. Quem examine em pormenor toda
esta extraordin�ria burocracia, que j� � p�s-kafkiana, a que est�o
submetidos os professores fica com a ideia de que uma esp�cie de del�rio
atravessa quotidianamente os conceptores e decisores do MNE. � verdade que
o governo recuou depois das manifesta��es e greves dos professores. Mas n�o
esque�amos que toda aquela burocracia que caiu sobre os professores,
sufocando-os, impedindo-os de ensinar, foi pensada para ser aplicada - o que
revela mesmo um certo del�rio na concep��o das tecnologias de biopoder. O
processo de domestica��o dos professores est� em curso - e longe de ter
terminado. Mas o que se passou chegou para ver que tipo de �moderniza��o� da
educa��o, atrav�s da avalia��o, est� nos esp�ritos dos governantes mesmo se
estes, pela resist�ncia dos professores que contaminou a opini�o p�blica,
foram levados a ceder em certos aspectos.
Porqu� tudo isto? Porque o interesse do Governo �, antes de
mais, cumprir a racionalidade or�amental, levando dezenas de milhares de
professores a abandonar a escola. Atrav�s, afinal, de um sistema educativo
em que avaliar significa desnortear, desanimar, dominar, humilhar, desprezar
os professores, os alunos e a educa��o. � o m�ximo de mais-valia de biopoder
que o Governo quer extrair - com o risco, inevit�vel, de o sistema se voltar
contra si mesmo.[...]
No processo de domestica��o da sociedade, a teimosia do primeiro-ministro e
da sua ministra da Educa��o representam muito mais do que simples tra�os
psicol�gicos. S�o t�cnicas terr�veis de domina��o, de castra��o e de
esmagamento e de fabrica��o de subjectividades obedientes. Conviria chamar a
este mecanismo t�o eficaz �a desactiva��o da ac��o�. � a n�o-inscri��o
elevada ao estatuto sofisticado de uma t�cnica pol�tica, � maneira de certos
processos psic�ticos. [...]�
Jos� Gil (2009), Em busca da identidade. O desnorte, Rel�gio d'�gua, Lisboa
--
�Se os pais soubessem o que se passa nas escola p�blicas iriam para a rua
manifestar-se com os professores.�
(Medina Carreira)
�A maior parte dos eleitores n�o votou no PS, esta maioria absoluta e
este sistema s�o logros eleitorais.�
[EP]