Sandra Duarte, professora de Matem�tica no ensino secund�rio, analisa o
�terror� dos alunos e faz o diagn�stico: a matem�tica foi sendo reduzida
porque um pa�s de trabalhadores de call center n�o precisa de forma��o
cient�fica, precisa de uma calculadora e de um computador, desde tenra
idade, e de dizer umas palavras simp�ticas em ingl�s para turista ver.
Frequentemente vem � baila o tema do insucesso na disciplina de Matem�tica
em Portugal. Certamente as nossas crian�as n�o trazem inscrito no seu c�digo
gen�tico �pouco jeito para a matem�tica�. Mas verifica-se que em todos os
estudos internacionais os nossos alunos revelam piores resultados nas provas
de matem�tica, ocupando os �ltimos lugares. Por exemplo, no �ltimo PISA
(Programme for International Student Assessment), um estudo realizado de 3
em 3 anos com alunos de 15 anos, que envolve dezenas de pa�ses incluindo
todos os europeus, os nossos alunos apresentavam dos piores resultados,
apenas ficando � frente da Gr�cia, Turquia, Uruguai, Brasil, Tun�sia,
Indon�sia, Tail�ndia, S�rvia e M�xico.
A an�lise deste estudo levou os especialistas a conclu�rem que h� uma forte
correla��o entre o sucesso dos alunos e o PIB desses pa�ses, ou seja, quanto
mais riqueza um pa�s produz melhor � o desempenho que os estudantes desse
pa�s revelam a matem�tica. Dito de outra forma, os pa�ses centrais apostam
na forma��o dos seus alunos, os pa�ses semiperif�ricos ou perif�ricos
abandonam ou desleixam este aspecto. Portugal �, no quadro da economia
mundial, um pa�s essencialmente de servi�os e � para isso que a forma��o �
dirigida, da� a obsess�o permanente do Minist�rio da Educa��o com saber usar
m�quinas de calcular, computadores e dominar ingl�s b�sico: n�o � isto que �
preciso saber para servir ou atender um cliente?
� evidente que os governos definem os programas curriculares conforme as
necessidades do seu pa�s. Ou seja, um aluno finland�s tem de ter um
conhecimento de matem�tica mais aprofundado que um aluno do Uruguai uma vez
que as necessidades dos mercados dos dois pa�ses s�o diferentes e n�o porque
um finland�s � em m�dia muito mais inteligente que um uruguaio. Por isso s�o
dadas melhores condi��es de aprendizagem a um mi�do finland�s que a um
uruguaio, havendo um maior investimento (em percentagem do PIB) na Finl�ndia
do que no Uruguai.
E que se pode concluir no caso portugu�s? O insucesso a Matem�tica n�o
acontece por culpa dos professores nem pela falta de jeito dos Portugueses
para as ci�ncias exactas. Acontece por op��o pol�tica. Sen�o, vejamos o
exemplo do curr�culo de Matem�tica ao longo dos �ltimos 33 anos (desde
1974), associado a todas as altera��es que a escola tem sofrido.
Os conte�dos program�ticos foram sendo sujeitos a reformula��es e
reajustamentos ao longo destes �ltimos anos. Por exemplo, no caso da
Matem�tica, tudo que era relativo � l�gica, estruturas alg�bricas,
formalismo matem�tico, demonstra��es foi retirado do programa. Ou seja, hoje
temos uma matem�tica onde as �coisas acontecem assim ou assado� porque �a
calculadora gr�fica diz que � assim ou assado�, n�o se dando a conhecer aos
alunos que a matem�tica � uma constru��o l�gica que decorre da observa��o de
regularidades e onde tudo acontece n�o por acaso mas sim por uma raz�o
l�gica. Hoje em dia temos uma vers�o light dos programas de Matem�tica de h�
30 anos atr�s - menos conte�dos e dos conte�dos existentes a abordagem �
pouco exigente e nada aprofundada.
Passamos de um ensino uniformizado para um ensino que � diversificado cada
vez mais cedo, inicialmente no ensino secund�rio (10.� ano) e agora no 3.�
ciclo (8.� ano). A justifica��o para a diversifica��o prende-se com o facto
de que nem todos os alunos t�m apet�ncia para um ensino te�rico, sendo
nalguns casos prefer�vel um ensino mais pr�tico que os prepare para o
dia-a-dia . ainda por cima faltam carpinteiros, canalizadores, mec�nicos,
etc. Mas quem s�o estes alunos? Que adolescentes �optam� por estes cursos?
De uma forma geral s�o alunos provenientes dos meios s�cio-econ�micos mais
baixos e cujos pais t�m baixas qualifica��es escolares, ou seja, s�o os
pobres. E como s�o os curr�culos destes cursos? S�o muito pobres.
A matriz curricular dos alunos foi sofrendo altera��es. Introduziram-se
�reas curriculares n�o disciplinares (�rea projecto, estudo acompanhado e
forma��o c�vica), ou seja, introduzirem-se �cenas� que n�o s�o disciplinas
mas fazem parte do curr�culo. Assim, os alunos passam mais tempo dentro de
uma sala de aula a serem orientados por um adulto nas suas tarefas em vez de
usarem o seu tempo de forma aut�noma. E simultaneamente os alunos viram
reduzidos os tempos dedicados a disciplinas como L�nguas Estrangeiras,
Geografia, Hist�ria, Ci�ncias Naturais ou F�sico-Qu�micas.
O resultado desta pol�tica educativa tem levado a que o acesso ao
conhecimento cient�fico seja cada mais restrito. Os sucessivos governos ao
tomarem estas medidas fizeram que os alunos que apenas podem aceder ao
conhecimento na escola (pais com fraca escolaridade) o fa�am de uma forma
amputada e empobrecida. Ou seja, aquilo que a escola p�blica oferece hoje em
dia � maioria da popula��o estudantil � menos quando comparado com o que
tinha para oferecer h� 30 anos atr�s: menos conhecimento nas l�nguas
estrangeiras, nas ci�ncias sociais (em particular Hist�ria e Geografia), nas
ci�ncias exactas e experimentais e nos trabalhos manuais/oficinais.
Nos concursos para o ensino superior h� cada vez menos procura nos cursos de
Matem�tica, F�sica, Hist�ria, Filosofia, Literatura. Pode dever-se � baixa
empregabilidade destes cursos, mas Marketing, Psicologia, Sociologia,
Jornalismo n�o t�m tamb�m baixa empregabilidade? O que leva a que haja uma
procura cada vez menor dos cursos de ci�ncias fundamentais? Hoje entram em
todo o Pa�s para o curso de Matem�tica o mesmo n�mero que entravam h� 15
anos s� na Universidade do Porto.
Mas h� ainda uma pergunta mais inquietante: por que � que quem vai para as
ci�ncias s�o cada vez mais os filhos de fam�lias com altas expectativas
acad�micas e sociais? N�o � isso que justifica que a imensa maioria seja
incapaz de fazer uma opera��o matem�tica b�sica mas que haja uma minoria que
ganha pr�mios nas olimp�adas internacionais de matem�tica? As ci�ncias
fundamentais ficam reservadas a um punhado de jovens, propriet�rios quase
�nicos da ci�ncia. N�o � isto a prova de que as medidas governamentais
afinal est�o mesmo a funcionar, uma vez que est�o a conseguir reservar para
uma minoria o conhecimento cient�fico que � t�o �til para perceber a
realidade e poder transform�-la?
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�Se os pais soubessem o que se passa nas escola p�blicas iriam para a rua
manifestar-se com os professores.�
(Medina Carreira)
�A maior parte dos eleitores n�o votou no PS, esta maioria absoluta e
este sistema s�o logros eleitorais.�
[EP]
Cada cabeça cada sentença...Nada está bem...está tudo mal. MAS ESTARÁ?
É o dilema humano.