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Matemática? Só para os ricos!

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Elviro Pereira

unread,
Jun 7, 2009, 5:28:48 PM6/7/09
to
[excelente an�lise de Sandra Duarte, retirado do blog
http://www.revistarubra.org ]

Sandra Duarte, professora de Matem�tica no ensino secund�rio, analisa o
�terror� dos alunos e faz o diagn�stico: a matem�tica foi sendo reduzida
porque um pa�s de trabalhadores de call center n�o precisa de forma��o
cient�fica, precisa de uma calculadora e de um computador, desde tenra
idade, e de dizer umas palavras simp�ticas em ingl�s para turista ver.
Frequentemente vem � baila o tema do insucesso na disciplina de Matem�tica
em Portugal. Certamente as nossas crian�as n�o trazem inscrito no seu c�digo
gen�tico �pouco jeito para a matem�tica�. Mas verifica-se que em todos os
estudos internacionais os nossos alunos revelam piores resultados nas provas
de matem�tica, ocupando os �ltimos lugares. Por exemplo, no �ltimo PISA
(Programme for International Student Assessment), um estudo realizado de 3
em 3 anos com alunos de 15 anos, que envolve dezenas de pa�ses incluindo
todos os europeus, os nossos alunos apresentavam dos piores resultados,
apenas ficando � frente da Gr�cia, Turquia, Uruguai, Brasil, Tun�sia,
Indon�sia, Tail�ndia, S�rvia e M�xico.

A an�lise deste estudo levou os especialistas a conclu�rem que h� uma forte
correla��o entre o sucesso dos alunos e o PIB desses pa�ses, ou seja, quanto
mais riqueza um pa�s produz melhor � o desempenho que os estudantes desse
pa�s revelam a matem�tica. Dito de outra forma, os pa�ses centrais apostam
na forma��o dos seus alunos, os pa�ses semiperif�ricos ou perif�ricos
abandonam ou desleixam este aspecto. Portugal �, no quadro da economia
mundial, um pa�s essencialmente de servi�os e � para isso que a forma��o �
dirigida, da� a obsess�o permanente do Minist�rio da Educa��o com saber usar
m�quinas de calcular, computadores e dominar ingl�s b�sico: n�o � isto que �
preciso saber para servir ou atender um cliente?

� evidente que os governos definem os programas curriculares conforme as
necessidades do seu pa�s. Ou seja, um aluno finland�s tem de ter um
conhecimento de matem�tica mais aprofundado que um aluno do Uruguai uma vez
que as necessidades dos mercados dos dois pa�ses s�o diferentes e n�o porque
um finland�s � em m�dia muito mais inteligente que um uruguaio. Por isso s�o
dadas melhores condi��es de aprendizagem a um mi�do finland�s que a um
uruguaio, havendo um maior investimento (em percentagem do PIB) na Finl�ndia
do que no Uruguai.

E que se pode concluir no caso portugu�s? O insucesso a Matem�tica n�o
acontece por culpa dos professores nem pela falta de jeito dos Portugueses
para as ci�ncias exactas. Acontece por op��o pol�tica. Sen�o, vejamos o
exemplo do curr�culo de Matem�tica ao longo dos �ltimos 33 anos (desde
1974), associado a todas as altera��es que a escola tem sofrido.

Os conte�dos program�ticos foram sendo sujeitos a reformula��es e
reajustamentos ao longo destes �ltimos anos. Por exemplo, no caso da
Matem�tica, tudo que era relativo � l�gica, estruturas alg�bricas,
formalismo matem�tico, demonstra��es foi retirado do programa. Ou seja, hoje
temos uma matem�tica onde as �coisas acontecem assim ou assado� porque �a
calculadora gr�fica diz que � assim ou assado�, n�o se dando a conhecer aos
alunos que a matem�tica � uma constru��o l�gica que decorre da observa��o de
regularidades e onde tudo acontece n�o por acaso mas sim por uma raz�o
l�gica. Hoje em dia temos uma vers�o light dos programas de Matem�tica de h�
30 anos atr�s - menos conte�dos e dos conte�dos existentes a abordagem �
pouco exigente e nada aprofundada.

Passamos de um ensino uniformizado para um ensino que � diversificado cada
vez mais cedo, inicialmente no ensino secund�rio (10.� ano) e agora no 3.�
ciclo (8.� ano). A justifica��o para a diversifica��o prende-se com o facto
de que nem todos os alunos t�m apet�ncia para um ensino te�rico, sendo
nalguns casos prefer�vel um ensino mais pr�tico que os prepare para o
dia-a-dia . ainda por cima faltam carpinteiros, canalizadores, mec�nicos,
etc. Mas quem s�o estes alunos? Que adolescentes �optam� por estes cursos?
De uma forma geral s�o alunos provenientes dos meios s�cio-econ�micos mais
baixos e cujos pais t�m baixas qualifica��es escolares, ou seja, s�o os
pobres. E como s�o os curr�culos destes cursos? S�o muito pobres.

A matriz curricular dos alunos foi sofrendo altera��es. Introduziram-se
�reas curriculares n�o disciplinares (�rea projecto, estudo acompanhado e
forma��o c�vica), ou seja, introduzirem-se �cenas� que n�o s�o disciplinas
mas fazem parte do curr�culo. Assim, os alunos passam mais tempo dentro de
uma sala de aula a serem orientados por um adulto nas suas tarefas em vez de
usarem o seu tempo de forma aut�noma. E simultaneamente os alunos viram
reduzidos os tempos dedicados a disciplinas como L�nguas Estrangeiras,
Geografia, Hist�ria, Ci�ncias Naturais ou F�sico-Qu�micas.

O resultado desta pol�tica educativa tem levado a que o acesso ao
conhecimento cient�fico seja cada mais restrito. Os sucessivos governos ao
tomarem estas medidas fizeram que os alunos que apenas podem aceder ao
conhecimento na escola (pais com fraca escolaridade) o fa�am de uma forma
amputada e empobrecida. Ou seja, aquilo que a escola p�blica oferece hoje em
dia � maioria da popula��o estudantil � menos quando comparado com o que
tinha para oferecer h� 30 anos atr�s: menos conhecimento nas l�nguas
estrangeiras, nas ci�ncias sociais (em particular Hist�ria e Geografia), nas
ci�ncias exactas e experimentais e nos trabalhos manuais/oficinais.

Nos concursos para o ensino superior h� cada vez menos procura nos cursos de
Matem�tica, F�sica, Hist�ria, Filosofia, Literatura. Pode dever-se � baixa
empregabilidade destes cursos, mas Marketing, Psicologia, Sociologia,
Jornalismo n�o t�m tamb�m baixa empregabilidade? O que leva a que haja uma
procura cada vez menor dos cursos de ci�ncias fundamentais? Hoje entram em
todo o Pa�s para o curso de Matem�tica o mesmo n�mero que entravam h� 15
anos s� na Universidade do Porto.

Mas h� ainda uma pergunta mais inquietante: por que � que quem vai para as
ci�ncias s�o cada vez mais os filhos de fam�lias com altas expectativas
acad�micas e sociais? N�o � isso que justifica que a imensa maioria seja
incapaz de fazer uma opera��o matem�tica b�sica mas que haja uma minoria que
ganha pr�mios nas olimp�adas internacionais de matem�tica? As ci�ncias
fundamentais ficam reservadas a um punhado de jovens, propriet�rios quase
�nicos da ci�ncia. N�o � isto a prova de que as medidas governamentais
afinal est�o mesmo a funcionar, uma vez que est�o a conseguir reservar para
uma minoria o conhecimento cient�fico que � t�o �til para perceber a
realidade e poder transform�-la?


--

�Se os pais soubessem o que se passa nas escola p�blicas iriam para a rua
manifestar-se com os professores.�

(Medina Carreira)

�A maior parte dos eleitores n�o votou no PS, esta maioria absoluta e
este sistema s�o logros eleitorais.�

[EP]


viriato

unread,
Jun 8, 2009, 1:33:56 AM6/8/09
to
On 7 Jun, 22:28, "Elviro Pereira" <elviro_pere...@hotmail.com> wrote:
> [excelente análise de Sandra Duarte, retirado do bloghttp://www.revistarubra.org]
>
> Sandra Duarte, professora de Matemática no ensino secundário, analisa o
> «terror» dos alunos e faz o diagnóstico: a matemática foi sendo reduzida
> porque um país de trabalhadores de call center não precisa de formação
> científica, precisa de uma calculadora e de um computador, desde tenra
> idade, e de dizer umas palavras simpáticas em inglês para turista ver.
> Frequentemente vem à baila o tema do insucesso na disciplina de Matemática
> em Portugal. Certamente as nossas crianças não trazem inscrito no seu código
> genético «pouco jeito para a matemática». Mas verifica-se que em todos os

> estudos internacionais os nossos alunos revelam piores resultados nas provas
> de matemática, ocupando os últimos lugares. Por exemplo, no último PISA

> (Programme for International Student Assessment), um estudo realizado de 3
> em 3 anos com alunos de 15 anos, que envolve dezenas de países incluindo

> todos os europeus, os nossos alunos apresentavam dos piores resultados,
> apenas ficando à frente da Grécia, Turquia, Uruguai, Brasil, Tunísia,
> Indonésia, Tailândia, Sérvia e México.
>
> A análise deste estudo levou os especialistas a concluírem que há uma forte
> correlação entre o sucesso dos alunos e o PIB desses países, ou seja, quanto
> mais riqueza um país produz melhor é o desempenho que os estudantes desse
> país revelam a matemática. Dito de outra forma, os países centrais apostam
> na formação dos seus alunos, os países semiperiféricos ou periféricos
> abandonam ou desleixam este aspecto. Portugal é, no quadro da economia
> mundial, um país essencialmente de serviços e é para isso que a formação é
> dirigida, daí a obsessão permanente do Ministério da Educação com saber usar
> máquinas de calcular, computadores e dominar inglês básico: não é isto que é

> preciso saber para servir ou atender um cliente?
>
> É evidente que os governos definem os programas curriculares conforme as
> necessidades do seu país. Ou seja, um aluno finlandês tem de ter um
> conhecimento de matemática mais aprofundado que um aluno do Uruguai uma vez
> que as necessidades dos mercados dos dois países são diferentes e não porque
> um finlandês é em média muito mais inteligente que um uruguaio. Por isso são
> dadas melhores condições de aprendizagem a um miúdo finlandês que a um
> uruguaio, havendo um maior investimento (em percentagem do PIB) na Finlândia
> do que no Uruguai.
>
> E que se pode concluir no caso português? O insucesso a Matemática não

> acontece por culpa dos professores nem pela falta de jeito dos Portugueses
> para as ciências exactas. Acontece por opção política. Senão, vejamos o
> exemplo do currículo de Matemática ao longo dos últimos 33 anos (desde
> 1974), associado a todas as alterações que a escola tem sofrido.
>
> Os conteúdos programáticos foram sendo sujeitos a reformulações e
> reajustamentos ao longo destes últimos anos. Por exemplo, no caso da
> Matemática, tudo que era relativo à lógica, estruturas algébricas,
> formalismo matemático, demonstrações foi retirado do programa. Ou seja, hoje
> temos uma matemática onde as «coisas acontecem assim ou assado» porque «a
> calculadora gráfica diz que é assim ou assado», não se dando a conhecer aos
> alunos que a matemática é uma construção lógica que decorre da observação de
> regularidades e onde tudo acontece não por acaso mas sim por uma razão
> lógica. Hoje em dia temos uma versão light dos programas de Matemática de há
> 30 anos atrás - menos conteúdos e dos conteúdos existentes a abordagem é

> pouco exigente e nada aprofundada.
>
> Passamos de um ensino uniformizado para um ensino que é diversificado cada
> vez mais cedo, inicialmente no ensino secundário (10.º ano) e agora no 3.º
> ciclo (8.º ano). A justificação para a diversificação prende-se com o facto
> de que nem todos os alunos têm apetência para um ensino teórico, sendo
> nalguns casos preferível um ensino mais prático que os prepare para o
> dia-a-dia . ainda por cima faltam carpinteiros, canalizadores, mecânicos,
> etc. Mas quem são estes alunos? Que adolescentes «optam» por estes cursos?
> De uma forma geral são alunos provenientes dos meios sócio-económicos mais
> baixos e cujos pais têm baixas qualificações escolares, ou seja, são os
> pobres. E como são os currículos destes cursos? São muito pobres.
>
> A matriz curricular dos alunos foi sofrendo alterações. Introduziram-se
> áreas curriculares não disciplinares (área projecto, estudo acompanhado e
> formação cívica), ou seja, introduzirem-se «cenas» que não são disciplinas
> mas fazem parte do currículo. Assim, os alunos passam mais tempo dentro de

> uma sala de aula a serem orientados por um adulto nas suas tarefas em vez de
> usarem o seu tempo de forma autónoma. E simultaneamente os alunos viram
> reduzidos os tempos dedicados a disciplinas como Línguas Estrangeiras,
> Geografia, História, Ciências Naturais ou Físico-Químicas.
>
> O resultado desta política educativa tem levado a que o acesso ao
> conhecimento científico seja cada mais restrito. Os sucessivos governos ao

> tomarem estas medidas fizeram que os alunos que apenas podem aceder ao
> conhecimento na escola (pais com fraca escolaridade) o façam de uma forma
> amputada e empobrecida. Ou seja, aquilo que a escola pública oferece hoje em
> dia à maioria da população estudantil é menos quando comparado com o que
> tinha para oferecer há 30 anos atrás: menos conhecimento nas línguas
> estrangeiras, nas ciências sociais (em particular História e Geografia), nas
> ciências exactas e experimentais e nos trabalhos manuais/oficinais.
>
> Nos concursos para o ensino superior há cada vez menos procura nos cursos de
> Matemática, Física, História, Filosofia, Literatura. Pode dever-se à baixa

> empregabilidade destes cursos, mas Marketing, Psicologia, Sociologia,
> Jornalismo não têm também baixa empregabilidade? O que leva a que haja uma
> procura cada vez menor dos cursos de ciências fundamentais? Hoje entram em
> todo o País para o curso de Matemática o mesmo número que entravam há 15
> anos só na Universidade do Porto.
>
> Mas há ainda uma pergunta mais inquietante: por que é que quem vai para as
> ciências são cada vez mais os filhos de famílias com altas expectativas
> académicas e sociais? Não é isso que justifica que a imensa maioria seja
> incapaz de fazer uma operação matemática básica mas que haja uma minoria que
> ganha prémios nas olimpíadas internacionais de matemática? As ciências
> fundamentais ficam reservadas a um punhado de jovens, proprietários quase
> únicos da ciência. Não é isto a prova de que as medidas governamentais
> afinal estão mesmo a funcionar, uma vez que estão a conseguir reservar para
> uma minoria o conhecimento científico que é tão útil para perceber a
> realidade e poder transformá-la?
>
> --
>
> «Se os pais soubessem o que se passa nas escola públicas iriam para a rua

> manifestar-se com os professores.»
>
> (Medina Carreira)
>
> «A maior parte dos eleitores não votou no PS,  esta maioria  absoluta  e
> este sistema são logros eleitorais.»
>
> [EP]

Cada cabeça cada sentença...Nada está bem...está tudo mal. MAS ESTARÁ?
É o dilema humano.

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