Segredo
Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
>E por falar em musica, lembrei-me de um poema lindissimo de Maria
>Teresa Horta que foi musicado por Luis Cilia (alguem se lembra dele?):
Oh p'ró meu dedo no ar, aliás, não leves a mal, mas eu até já o tinha
postado... noutro sítio.
Nesse disco o Luis Cilia foi buscar poemas de amor lindíssimos, pena q
ele não esteja à altura dos mesmos. Mas como os poemas são mesmo bons,
cá vai mais um.
....
Casa
David Mourão Ferreira
Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.
Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.
Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.
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Maria
>Nesse disco o Luis Cilia foi buscar poemas de amor lindíssimos, pena q
>ele não esteja à altura dos mesmos. Mas como os poemas são mesmo bons,
>cá vai mais um.
>
>....
>
>Casa
>David Mourão Ferreira
Agora vais-me tu perdoar mas eu adoro DMF :)
e aqui vão alguns:
PENÉLOPE
Mais do que sonho: comoção!
Sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu unico vestido.
Tu recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste;
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.
Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.
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GRITO
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que é nosso.
Sao os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo que é nosso
é excessivo.
E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a espádua.
São os teus olhos.
Depois, o grito.
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
do outro extremo desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.
E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa!
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TERNURA
Desvio dos teus ombros o lencol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada.. .
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...
Comecas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo. .
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
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ILHA
Deitada és uma ilha. E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente
promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planicie adolescente.
Deitada és uma ilha. Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias.
Mas nem sabes se grito por socorro
ou se te mostro só que me inebrias.
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias.
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É nesse ponto
de tuas coxas
que o meu pescoço
implora a forca
Mas dás-lhe o tronco
da luz, da sombra
num sorvedouro
de rosas roxas
Agreste gosto
de húmida polpa
o que dissolvo
dentro da boca
Eis num renovo
mágica força
Rei me coroo
em tuas coxas.
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Sobre mim cavalgas
cingindo-me os flancos
Colhes à passagem
a luz do instante
De dentes cerrados
ondulas avanças
retesas os braços
comprimes as ancas
Depois para a frente
inclinas-te olhando
o que entre dois ventres
ocorre entretanto
e o próprio galope
em que vais lançada
Que lua te empolga
Que sol te embriaga
Lua e sol tu és
enquanto cavalgas
amazona e égua
de espora cravada
no centro do corpo
Centauresa alada
com os seios soltos
como feitos de água
Queria bebê-los
quando mais te dobras
Os cabelos esses
sorvê-los agora
Mas de cada vez
que o rosto aproximas
já é outra a sede
que me queima a lingua
A de nos teus olhos
tão perto dos meus
descobrir o modo
de beber o céu
Um beijo
Victor
Victor Almeida escreveu na mensagem <367daf76...@news.telepac.pt>...
>E por falar em musica, lembrei-me de um poema lindissimo de Maria
>Teresa Horta que foi musicado por Luis Cilia (alguem se lembra dele?):
>
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