O primeiro fato interessante desse episódio refere-se à fonte da informação. A
mencionada revista semanal transformou-se num dos principais porta-vozes do combalido
neoliberalismo, junto com outros veículos de comunicação da “grande mídia”. Embora
alardeiem o contrário, os interesses desses veículos fundam-se na defesa de classe a
que pertencem seus proprietários. E, como bem sabemos, distribuição de renda via
acesso qualificado à educação pública nunca foi prioridade das elites econômicas do
país. Isso explica a ênfase que o periódico deu à tese ultrapassada do ex-ministro e
atual secretário de educação, que faltou com a verdade ao afirmar que a meritocracia
com o viés neoliberal - isso porque existem várias formas de se avaliar o mérito - é
unanimidade entre os especialistas em educação do mundo todo.
Não é preciso ser um grande entendedor de educação para saber que seu desenvolvimento
se faz com profissionais bem formados, estimulados e reconhecidos socialmente; com
boas condições de trabalho; com infraestrutura compatível às demandas dos níveis,
etapas e modalidades de ensino; com gestão democrática que priorize a participação
direta da comunidade escolar nas decisões da escola e dos sistemas de ensino; e com
financiamento compatível para sustentar essas premissas e outras políticas
complementares ao ensino regular. Entre estas últimas, que são essenciais do ponto de
vista social, destacam-se o amparo à infância e à juventude; a sustentabilidade às
famílias para manterem seus filhos na escola; a saúde bucal, oftalmológica e a
prevenção às doenças relacionadas à higiene e às DST/AIDS; além da violência que se
relaciona diretamente ao uso e ao tráfico de drogas.
Porém, para o secretário Paulo Renato, a ‘culpa’ das mazelas educacionais de SP está
no corporativismo sindical. Trata-se, sob a lógica do compromisso social, de uma visão
medíocre sobre a abrangência das políticas públicas, típica de quem não consegue ou
não quer - por conveniência - enxergar as coisas sob uma ordem sistêmica, tal como se
deu na gestão em que foi Ministro de Estado e que optou pelas políticas fragmentadas,
desconexas e restritivas de direitos.
Em sua entrevista, o secretário Paulo Renato deixou cair a máscara e expressou o
projeto de educação que defende para a classe trabalhadora e seus filhos (principais
usuários da escola pública). Ele traduziu com clareza o conceito das políticas que seu
partido tem implementado há quatro gestões no governo do Estado. E nós perguntamos: a
população paulista, os redatores e os leitores de Veja estão satisfeitos com os
resultados da educação pública estadual? A política de bônus e de gratificações, as
cartilhas que "ensinam" os/as professores/as a lecionar, a punição às faltas dos
profissionais (professores e funcionários) por motivos de doença ou para atividade
sindical, as provinhas para medir a capacidade dos educadores, tudo isso, que se pauta
nos princípios da meritocracia, pura e simples, surtiram efeito até agora?
Para a CNTE, a educação de São Paulo ganharia mais se investisse, de fato, em seus
profissionais. Mas, ao contrário, as sucessivas gestões públicas optaram por
achincalhar os educadores. A atual, de José Serra, não aplica a Lei do piso salarial,
uma vez que não concede 1/3 da jornada para hora-atividade do professor. A violência
assola as escolas públicas e os profissionais também são vítimas constantes de
agressões e mortes. A saúde física e mental dos educadores está cada vez mais
comprometida pelas péssimas condições de trabalho. Os aposentados têm seus proventos
aviltados com as políticas de prêmios que rompem com o princípio constitucional da
paridade. Esse é o retrato da educação pública em São Paulo. E é justo não lutar
contra essa situação?