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From: Paulo Roberto Franco Andrade <francoandr
...@gmail.com>
Date: 2009/10/5
Subject: [osamigosde68] "O capitalismo é um parêntese na história da
humanidade’’. Entrevista especial com Anselm Jappe
To: Osamigosde68 <osamigosd
...@yahoogrupos.com.br>
*IHU é sigla do Instituto Humanitas Unisinos (Universidade do Vale do Rio
dos Sinos)*
*
*
*"A Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) é mantida pela Associação
Antônio Vieira, denominação civil da Província dos Jesuítas do Brasil
Meridional, da Companhia de Jesus, a ordem dos jesuítas fundada por Santo
Inácio de Loyola. Entre as maiores universidades privadas do Brasil,
concentra, no câmpus, em São Leopoldo (RS), cerca de 25 mil estudantes em
cursos de graduação, pós-graduação e extensão. Também integra uma rede de 200
instituições de ensino superior jesuítas, com 2,2 milhões de alunos no mundo
todo.<http://www.unisinos.br/principal/index.php?option=com_content&task=vi...>
(...)
. Leia +<http://www.unisinos.br/principal/index.php?option=com_content&task=vi...>
*
Mestre Fernand Braudel disse isso de forma mais poética, em seu "livrinho"
(em tamanho), enorme livro em ensinamentos, *Dinâmica do Capitalismo: **"O
capitalismo é o visitante da noite."*
*Paulo Franco*
‘’O capitalismo é um parêntese na história da humanidade’’. Entrevista
especial com Anselm Jappe
“O capitalismo vai terminar, e já estamos observando esse fim. Não é algo
que irá acontecer de um dia para o outro, mas os sinais de esgotamento são
visíveis”. Isso só vem a confirmar “o que a crítica do valor já havia dito
há 20 anos”, afirma o filósofo e ensaísta alemão.
*Confira a entrevista.*
O capitalismo não é uma “realização necessária de toda a história”, mas
apenas um “parêntese” nela. A ideia é do ensaísta alemão *Anselm Jappe*,
que, em entrevista especial, concedida pessoalmente à *IHU On-Line*, afirmou
haver uma ontologização do capitalismo tanto por parte do pensamento burguês
quanto por parte da dita esquerda. Esse valor “não tem um estatuto
ontológico verdadeiro, mas pretende tê-lo”, como se o capitalismo fosse uma
metafísica realizada. Segundo ele, inclusive os críticos do capitalismo não
o fazem verdadeiramente, pois “se limitam a criticar o liberalismo, propondo
como alternativa um capitalismo mais mitigado”. *Jappe* assegura que já
observamos sinais de colapso desse sistema, e a crise econômico-financeira
mundial é um deles: “O capitalismo vai terminar, e já estamos observando
esse fim. Não é algo que irá acontecer de um dia para o outro, mas os sinais
de esgotamento são visíveis”. Isso só vem a confirmar “o que a crítica do
valor já havia dito há 20 anos”, acentua.
*Jappe* dá detalhes sobre a crítica que faz, junto com *Robert Kurz*, à
teoria de multidão de *Michael Hardt* e *Toni Negri*. Em sua opinião, eles
não pensam uma saída do capitalismo, e inclusive entendem o valor como algo
positivo. O “negrismo”, dispara, é um marxismo tradicional com verniz pop, e
uma “impostura intelectual”. Entretanto, a teoria faz sucesso porque tece
“lisonjas a toda essa nova camada que trabalha no campo da informática”.
Outro equívoco, assinala, é a equiparação errônea que esses autores fazem
entre o conceito de trabalho abstrato e trabalho imaterial.
Momentos antes de proferir a conferência *Crise, Crítica Radical e
Emancipação Humana*, proferida no *IHU* *Ideias* de 01-10-2009,
*Jappe* conversou
com a *IHU On-Line*. O grupo *Crítica Radical*, de Fortaleza, apoiou o
evento.
Filósofo e ensaísta nascido na Alemanha, realizou seus estudos na Itália e
França, onde vive atualmente. Além de inúmeros artigos já publicados na
revista alemã *Krisis*, é autor de *Guy Debord* (Petrópolis: Vozes, 1999) e
*As Aventuras da Mercadoria* (Lisboa: Antígona, 2006). Leciona na Academia
de Belas-Artes de Frosinone (Latium, Itália). Após a cisão interna do *Grupo
Krisis*, posicionou-se ao lado dos autores que fundaram a revista *Exit!*,
cujos principais integrantes são *Robert Kurz*, *Roswtiha Scholz* e *Claus
Peter Ortlieb*. Participa do *Grupo Crítica Radical* e da Revista “*EXIT –
Crítica do Capitalismo para o Século XXI – com Marx para além de Marx*”.
*Confira a entrevista.*
*IHU On-Line - Por que afirma que o capitalismo é apenas um parêntese na
história humana?*
*Anselm Jappe* – Trata-se de uma formulação polêmica, porque o capitalismo
existe há, no mínimo, 200 anos nos países desenvolvidos como Inglaterra. Há
antecedentes do capitalismo na época da Renascença, remontando ao século
XIV. Disse que o capitalismo é um parêntese na história para fazer uma
objeção à apologia atual que o vê como uma realização necessária de toda a
história. Critico a ideia de que a humanidade e a evolução avançam para algo
melhor, e que o capitalismo seria uma espécie de apogeu da humanidade, uma
forma de sociedade e de economia que vai permanecer para sempre. Muitas
vezes, as apologias do capitalismo são feitas apresentando a democracia como
uma forma finalmente encontrada para o convívio dos seres humanos.
Assistimos, então, a uma espécie de ontologização do capitalismo. Isso
consiste em dizer que pode haver diferentes modelos de capitalismo, mas ele
se mantém no mesmo enquadramento do valor, do dinheiro, da democracia e do
Estado. Não é apenas o pensamento burguês, mas boa parte também do
pensamento que se proclama ser de esquerda, que se converteu a essa
ontologização do capitalismo, incapaz de imaginar algo diferente.
Com todas as mudanças propostas, pensam, mesmo assim, se permanecerá numa
lógica capitalista ou se não volta a se cair na barbárie e no caos. Muitos
daqueles que criticam o capitalismo hoje (como os altermundialistas e
associações como a *ATTAC* e todas aquelas pessoas que se encontram na
cúpula do *Fórum de Porto Alegre*) não o criticam verdadeiramente, porque se
limitam a criticar o liberalismo, propondo, como alternativa, um capitalismo
mais mitigado.
Em oposição a essa eternização do capitalismo é que falo de um parêntese,
dizendo que esse sistema foi o rompimento absoluto com todas as sociedades
pré-capitalistas. O capitalismo não é apenas uma sociedade entre outras,
constitui-se a fratura mais fundamental da história da humanidade,
principalmente porque introduziu um dinamismo e uma orientação que estavam
ausentes nas sociedades precedentes, que eram mais estáticas.
*O capitalismo não é um destino inevitável*
A partir disso, uma das principais características do capitalismo é a
resistência ao fato de que a atividade social se entenda como trabalho, e o
trabalho como valor, e o valor como dinheiro. Então, tudo isso não é
natural, histórico e eterno. Tudo isso veio ao mundo com o capitalismo.
Aliás, essa não é uma afirmação de Marx, somente. Há estudos de *Marcel
Mauss* e *Karl Polanyi* que mostraram o caráter radicalmente diferente das
sociedades antes do capitalismo. Não estou falando apenas em sociedade
etnológica, como *Polanyi*demonstrou que, no século XVII, havia lógicas
sociais bem diferentes, ou como*Thompson* demonstrou em sua obra clássica, A
formação da classe trabalhadora na Inglaterra.
Tudo isso permite demonstrar os diferentes pontos de vista, não somente
marxistas, de que o traço fundamental do capitalismo não é algo natural do
ser humano, mas pertence apenas a uma fase determinada da história humana.
Deste ponto de vista, podemos dizer que o capitalismo é apenas uma fase da
humanidade, e assim como veio ao mundo, pode, também, desaparecer. É claro
que não quero dizer que o capitalismo seja um simples “incidente” depois do
qual se podem mudar muitas coisas. Essa expressão mostra, simplesmente, que
o capitalismo não é, necessariamente, um destino inevitável.
E quando falo em parêntese, não significa que havia uma espécie de sociedade
feliz, e o capitalismo chegou como uma “erupção do mal”, e que esse
parêntese vai se fechar para reencontrar uma espécie de felicidade. Isso
seria muito bom, mas não é o que acontece. O capitalismo vai terminar, e já
estamos observando esse fim. Não é algo que irá acontecer de um dia para o
outro, mas os sinais de esgotamento são visíveis.
*IHU On-Line - Quais são os principais impactos da crise
econômico-financeira atual no capitalismo, na política, no trabalho? Esse
sistema está ameaçado com tal cenário mundial?*
*Anselm Jappe* – De fato, a crise do ano passado confirmou o que a crítica
do valor já havia dito há 20 anos. É claro que a crise financeira não é a
causa da crise do capitalismo, mas, bem pelo contrário, a financeirização
foi apenas uma maneira do capitalismo continuar vivendo, principalmente,
através do endividamento contínuo. A crise financeira não era, simplesmente,
devida à cupidez dos bancos ou especulação que roubava dos trabalhadores,
mas se deu, essencialmente, a emergência da verdadeira realidade de hoje, ou
seja, o esgotamento do valor, a sua saturação. Graças ao desenvolvimento
tecnológico, se usa cada vez menos a força de trabalho para a produção de
mercadorias. E menos força de trabalho significa, também, menos valor e mais
dificuldade para acumular capital na produção do real. É por isso que o
capital vai se refugiar na especulação para ficar no capital fictício.
*Retorno da financeirização*
Com a crise, há uma espécie de retorno na financeirização. Essa
financeirização é uma remissão da crise, e não a sua causa. Ao contrário, é
um modo de esconder e ocultar essa crise. Muitas empresas ou estados que já
deveriam ter decretado falência há muito tempo, simplesmente continuam
existindo, acrescentando, a cada ano, mais um zero a seus números.
Com a verdadeira crise que começa a emergir em plena luz do dia, há um
grande aumento do desemprego na Europa. Agora se diz que ela passou, e que a
economia está sendo retomada. Contudo, fora alguns ciclos que continuam
possíveis, há uma “retomada” pelo fato de que são queimadas reservas de um
modo nunca visto antes.
Para compreender isso, devemos prestar atenção em determinados fatos
precisos. Na França, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, o
patrimônio acumulado dos franceses diminuiu de forma significativa. Até
mesmo as classes médias, que podiam cobrir suas despesas, começam a vender
seus bens imobiliários não apenas para investir, mas para saldar
compromissos. Cada família está endividada em, pelo menos, 15 mil euros.
Praticamente toda a Itália tem de trabalhar quase que gratuitamente para
poder reembolsar essa dívida.
Nos EUA, a situação é ainda mais extrema. Quando falamos em bancos e que o
governo intervenha, permanecemos, ainda, numa esfera larga das finanças.
Entretanto, o que pode acontecer é uma reação em cadeia, porque sabemos que
todas as dívidas irão criar uma espécie de corrente. Há um verdadeiro risco
de que todas essas correntes se rompam e haja um grande pânico.
Até aqui, as instituições conseguiram evitar esse pânico. Muitas vezes, elas
se vangloriam em ter aprendido a lição com o que houve em 1929 e que agora
sabem administrar a crise, mas, na verdade, não há nenhuma solução
estrutural, nenhum novo modelo de acumulação e nenhuma indústria que utilize
de forma maciça a força de trabalho. Evita-se a crise, simplesmente,
oferecendo cada vez mais crédito. No final das contas, é o mesmo que
acontece com quem bebeu e acorda de ressaca, e soluciona o problema bebendo
ainda mais. Isso pode funcionar por um período imediato, mas não pode ser
uma solução a longo prazo.
*IHU On-Line - O valor alcançou uma ontologização em nossa sociedade? Em
caso positivo, como podemos falar em fim da metafísica se o valor atingiu
esse status ontológico?*
*Anselm Jappe* – O valor não tem um estatuto ontológico verdadeiro, mas
pretende tê-lo. Pretende-se que toda estrutura tenha um valor que possa ser
trocado no mercado, mas, na verdade, essa é uma ilusão coletiva.
Ultimamente, existem análises do capitalismo não apenas como um sistema
econômico, mas como uma espécie de metafísica realizada. A modernidade gosta
muito de se apresentar como uma espécie de secularização, pensa ser muito
superior às religiões antigas. A religião foi abandonada, e, em seu lugar,
se adotou a “metafísica do real” ou, ainda, a “metafísica realizada”.
*Marx*chamou
a mercadoria de ser sensível e suprassensível. A mercadoria, o seu
fetichismo, é uma forma de religião, não no sentido banal, de se dar
importância demais à mercadoria, mas no sentido que as mercadorias e seus
movimentos, o que chamamos de mercado, podem ter estabelecido uma dominação
impessoal em nossas sociedades, porque esquecemos que fomos nós que criamos
essas mercadorias e suas leis. Foi por isso que*Marx* falou do fetichismo da
mercadoria já a partir de 1842, e tomou esse termo já na*Crítica à religião*.
Ele se referia aos modernos, que se achavam tão modernos, e que, na verdade,
não são muito diferentes daquilo que chamamos de selvagens. Há a projeção de
um poder coletivo sobre um ser que é considerado como sendo independente
desse poder humano. Por isso que podemos estabelecer uma relação entre a
teoria do fetichismo de Marx com a teoria antropológica do fetichismo como
encontramos em *Émile Durkheim*.
*IHU On-Line - Você e Kurz contestam a teoria do Império e Multidão, de
Hardt e Negri. Quais são os principais aspectos dessa crítica?*
*Anselm Jappe* – A teoria da multidão, de *Hardt* e *Negri* nada mais é do
que uma versão pós-moderna do marxismo mais tradicional, baseada na ideia de
que a força de trabalho enquanto tal já está fora da relação capitalista, e
que o capitalismo não é senão uma espécie de apropriação do que os operários
criam. Na verdade, enquanto portadores de um metabolismo com a natureza,
como diz *Marx*. Para o marxismo tradicional, foram os operários industriais
que garantiram esse metabolismo. *Negri* simplesmente substituiu o operário
industrial pelo operário imaterial, ou “informático”, ou aquele que trabalha
na cultura.
Na verdade, ele e *Hardt* não conseguem nem mesmo pensar uma saída do
capitalismo. Pelo contrário. Falam de autovalorização da multidão. Inclusive
entendem o valor como um valor positivo. Eles querem simplesmente liberar a
produção em relação a essa espécie de parasitismo de uma classe que não
trabalha e controla os meios de produção.
Esse é o marxismo mais tradicional que temos, pintado com outras cores ou
com outro verniz, um verniz mais pop. *Negri* e *Hardt* utilizam o conceito
de trabalho abstrato mas não entendem absolutamente nada desse conceito em *
Marx*, considerando-o que é igual ao trabalho imaterial. Então, todo o
“negrismo” pode ser qualificado como uma impostura intelectual. Mas tem
sucesso porque lisonjeia a toda essa nova camada que trabalha no campo da
informática, por exemplo. Há relações totalmente acríticas com o conteúdo da
vida capitalista. Eles dão um tom positivo a tudo que tem a ver com a
“cultura capitalista”, com as formas de sujeito, da dissolução dos antigos
vínculos.
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