[etnolinguistica] Viagem ao Redor do Brasil (Fonseca 1880, 1881)

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Biblioteca Digital Curt Nimuendaju

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Mar 11, 2010, 1:30:15 PM3/11/10
to nimue...@googlegroups.com


A Biblioteca Digital Curt Nimuendaju acaba de acrescentar a seu acervo os dois volumes (1880, 1881) de Viagem ao Redor do Brasil, de João Severiano da Fonseca (1836-1897). A obra resultou da participação de seu autor -- médico e militar, veterano da Guerra do Paraguai e irmão do futuro "generalíssimo" Deodoro -- na expedição da Comissão de Limites entre o Brasil e a Bolívia,
que percorreu os territórios fronteiriços do velho Matto Grosso (atuais estados de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia) entre 1875 e 1878.

Importante para o conhecimento da história do oeste brasileiro, a obra é também uma rica fonte de dados etnolingüísticos.  Além de descrever costumes de povos indígenas com os quais a comissão entrou em contato, como os Chiquitano e os Palmela, Severiano da Fonseca inclui vocabulários de várias línguas indígenas faladas no Brasil e na Bolívia (Chiquitano, Guarayo, Palmela, Baure, Itonama e  Cayuvava).  A obra serve de testemunha do papel desempenhado por índios de diversas etnias ("brasileiras" ou "bolivianas") como auxiliares na exploração e colonização do território; um exemplo anedótico desta diversidade é o grupo de quatro remadores contratados pela comissão, que incluía falantes nativos de três línguas (Itonama, Baure e Cayuvava).

A contribuição lingüística mais importante da obra é, provavelmente, o vocabulário da língua dos Palmela, cuja inclusão na família Karib (surpreendente, dada sua localização em Rondônia) seria sugerida já pelo próprio Severiano da Fonseca (com base em
comparações com vocabulários de línguas como o Galibi, publicados nos Glossaria de Martius (1867)).

A obra pode ser acessada no seguinte endereço:
http://biblio.etnolinguistica.org/fonseca-1880-viagem

Para saber mais:

Meira, Sérgio. 2006. A família lingüística Caribe (Karíb). Revista de Estudos e Pesquisas, v.3, n.1/2, p.157-174. http://www.etnolinguistica.org/artigo:meira-2006

Métraux, Alfred. 1942. Map of Eastern Bolivia and Western Matto Grosso. http://biblio.etnolinguistica.org/imagem:2

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Biblioteca Digital Curt Nimuendaju
http://biblio.etnolinguistica.org/

Para receber informações sobre novos acréscimos ao acervo da Biblioteca, acompanhe-nos no Twitter (http://twitter.com/nimuendaju) ou assine nossa lista de anúncios:
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Marcelo Jolkesky

unread,
Mar 11, 2010, 4:06:19 PM3/11/10
to etnolin...@yahoogrupos.com.br


Prezados colegas,
 
Encontrei um artigo intrigante de Vladimir Pericliev comparando as línguas Jê Meridionais com línguas Polinésicas (tronco Austronésio), resultado de um trabalho conduzido em 2002 no Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology:
Pericliev , V. (2007). The Kaingang (Brazil) seem linguistically related to Oceanic populations. Journal of Universal Language 8:39-59.
 
Outras hipóteses de relações genéticas intercontinentais têm sido propostas ultimamente, como Mongol-Sahaptin (Qiuju, 2004) e Dene-Yenisey (Vajda, 2008).
Resolvi postar no grupo para levantar uma proposta de debate: até que ponto os argumentos somente lexicais, fonológicos ou morfossintáticos resultantes da aplicação do método comparativo são confiáveis em comparações de longa distância? O meu ponto de vista é que, de alguma forma, todos os domínios lingüísticos estejam necessariamente envolvidos e produzam conjuntamente as evidências de parentesco, não sendo provas cientificamente contundentes aquelas apresentadas isoladamente apenas de uma ou outra subárea. Neste sentido o trabalho de Vajda, dentre muitos,  deveria ser considerado um modelo para investigações neste campo científico.
 
obrigado pela atenção,
um abraço,
Marcelo
 
Referências:
 
Qiuju, Yu (2004). A Comparative Study of Proto-Mongolian and Proto-Sahaptian. Ph.D. dissertation. University of Regina, Saskatchewan.

Vajda, Edward (2008). A Siberian Link with Na-Dene Languages, Fairbanks: Dene-Yeniseic Symposium, http://www.uaf.edu/anlc/docs/vajda-2008.pdf
.
--- 11/03/10 Per tarihinde Biblioteca Digital Curt Nimuendaju <bib...@etnolinguistica.org> şöyle yazıyor:

Kimden: Biblioteca Digital Curt Nimuendaju <bib...@etnolinguistica.org>
Konu: [etnolinguistica] Viagem ao Redor do Brasil (Fonseca 1880, 1881)
Kime: nimue...@googlegroups.com
Tarihi: 11 Mart 2010 Perşembe, 15:30

 
A Biblioteca Digital Curt Nimuendaju acaba de acrescentar a seu acervo os dois volumes (1880, 1881) de Viagem ao Redor do Brasil, de João Severiano da Fonseca (1836-1897). A obra resultou da participação de seu autor -- médico e militar, veterano da Guerra do Paraguai e irmão do futuro "generalíssimo" Deodoro -- na expedição da Comissão de Limites entre o Brasil e a Bolívia,
que percorreu os territórios fronteiriços do velho Matto Grosso (atuais estados de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia) entre 1875 e 1878.

Importante para o conhecimento da história do oeste brasileiro, a obra é também uma rica fonte de dados etnolingüísticos.  Além de descrever costumes de povos indígenas com os quais a comissão entrou em contato, como os Chiquitano e os Palmela, Severiano da Fonseca inclui vocabulários de várias línguas indígenas faladas no Brasil e na Bolívia (Chiquitano, Guarayo, Palmela, Baure, Itonama e  Cayuvava).  A obra serve de testemunha do papel desempenhado por índios de diversas etnias ("brasileiras" ou "bolivianas") como auxiliares na exploração e colonização do território; um exemplo anedótico desta diversidade é o grupo de quatro remadores contratados pela comissão, que incluía falantes nativos de três línguas (Itonama, Baure e Cayuvava).

A contribuição lingüística mais importante da obra é, provavelmente, o vocabulário da língua dos Palmela, cuja inclusão na família Karib (surpreendente, dada sua localização em Rondônia) seria sugerida já pelo próprio Severiano da Fonseca (com base em
comparações com vocabulários de línguas como o Galibi, publicados nos Glossaria de Martius (1867)).

A obra pode ser acessada no seguinte endereço:
http://biblio. etnolinguistica. org/fonseca- 1880-viagem

Para saber mais:

Meira, Sérgio. 2006. A família lingüística Caribe (Karíb). Revista de Estudos e Pesquisas, v.3, n.1/2, p.157-174. http://www.etnoling uistica.org/ artigo:meira- 2006

Métraux, Alfred. 1942. Map of Eastern Bolivia and Western Matto Grosso. http://biblio. etnolinguistica. org/imagem: 2

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Sergio Monteiro

unread,
Mar 15, 2010, 12:51:44 AM3/15/10
to etnolin...@yahoogrupos.com.br


A minha contribuição é oriunda de um físico que não tem preparação formal em linguística.  É uma contribuição baseada na lógica e não no conhecimento real.

Me parece que qualquer solução para expressar idéias e pensamentos, podem aparecer mais de uma vez em linguas diferentes.  Assim sendo, pontos de contatos entre línguas, quer sejam gramaticais, quer sejam estruturais, não podem ser considerados fortes indícios de parentesco linguístico, apenas devendo ser tratados como elementos adicionais que indicam possível contato no passado.  A acumulação destas particularidades linguísticas, e.g., ergatividade, etc. aumenta o grau de crença de as línguas em questão terem algum relacionamento, mas apenas isto, apenas aumentam a crença em um possível relacionamento.  O mesmo se dá com palavras parecidas, uma palavra apenas parecida contando nada, pois é algo que pode acontecer por acaso, ao passo que 100 palavras parecidas, especialmente se seguirem uma regra, já passam a ser um argumento forte para parentesco linguístico.

Interessante observar que um caso similar existe em biologia, onde até existe um descritivo estabelecido: evolução paralela.  Evolução paralela, como os companheiros sabem, é a aparição de alguma característica similar, em aparência física, ou outra, sem no entanto haver ancestral comum.  Em adaptação biológica (erroneamente chamada evolução biológica, porque o H. sapiens não é superior à formiga), sabe-se de muitos casos de animais físicamente similares e que no entanto não tem ancestral comum - além do ancestral primário, bilhões de anos atrás.  O nosso penis, por exemplo, apareceu independentemente várias vezes.

Obrigado por lerem esta contribuição de um físico com pretenção a linguista, e desculpem-me a pretenção.

Sergio


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_ \<,_
(_)/ (_)

Sergio Monteiro
montei...@yahoo.com

--- On Thu, 3/11/10, Marcelo Jolkesky <marjo...@yahoo.com.br> wrote:

From: Marcelo Jolkesky <marjo...@yahoo.com.br>
Subject: [etnolinguistica] Kaingáng e Polinésio?
To: etnolin...@yahoogrupos.com.br
Date: Thursday, March 11, 2010, 1:06 PM

Prezados colegas,
 
Encontrei um artigo intrigante de Vladimir Pericliev comparando as línguas Jê Meridionais com línguas Polinésicas (tronco Austronésio), resultado de um trabalho conduzido em 2002 no Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology:
Pericliev , V. (2007). The Kaingang (Brazil) seem linguistically related to Oceanic populations. Journal of Universal Language 8:39-59.
 
Outras hipóteses de relações genéticas intercontinentais têm sido propostas ultimamente, como Mongol-Sahaptin (Qiuju, 2004) e Dene-Yenisey (Vajda, 2008).
Resolvi postar no grupo para levantar uma proposta de debate: até que ponto os argumentos somente lexicais, fonológicos ou morfossintáticos resultantes da aplicação do método comparativo são confiáveis em comparações de longa distância? O meu ponto de vista é que, de alguma forma, todos os domínios lingüísticos estejam necessariamente envolvidos e produzam conjuntamente as evidências de parentesco, não sendo provas cientificamente contundentes aquelas apresentadas isoladamente apenas de uma ou outra subárea. Neste sentido o trabalho de Vajda, dentre muitos,  deveria ser considerado um modelo para investigações neste campo científico.
 
obrigado pela atenção,
um abraço,
Marcelo
 
Referências:
 
Qiuju, Yu (2004). A Comparative Study of Proto-Mongolian and Proto-Sahaptian. Ph.D. dissertation. University of Regina, Saskatchewan.

Vajda, Edward (2008). A Siberian Link with Na-Dene Languages, Fairbanks: Dene-Yeniseic Symposium, http://www.uaf. edu/anlc/ docs/vajda- 2008.pdf

.
--- 11/03/10 Per tarihinde Biblioteca Digital Curt Nimuendaju <biblio@etnolinguist ica.org> şöyle yazıyor:

Kimden: Biblioteca Digital Curt Nimuendaju <biblio@etnolinguist ica.org>


Konu: [etnolinguistica] Viagem ao Redor do Brasil (Fonseca 1880, 1881)

Kime: nimuendaju@googlegr oups.com




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Eduardo Rivail Ribeiro

unread,
Mar 13, 2010, 4:22:24 PM3/13/10
to etnolin...@yahoogrupos.com.br
Caro Marcelo,

Obrigado, uma vez mais. Antes, uma questão administrativa: infelizmente, no site do grupo, a mensagem ficou truncada, por ser longa demais (mais uma limitação do Yahoo Grupos que eu desconhecia). Para que aqueles colegas que optaram por ler mensagens apenas no site possam se beneficiar da discussão, eu te pediria que, se possível, incluísse as tabelas de dados em seu site e nos enviasse um link.

No caso da América do Sul, um exemplo parecido ao cenário que você sugere (exceto pelo fato de que as línguas continuam compartilhando o mesmo território) seria o caso do Quechua e do Aymara, que alguns (Longacre, por exemplo) incluem na mesma família, outros não. E me lembro de ter lido a respeito de cenários parecidos envolvendo as línguas européias, que vêm sofrendo convergência gramatical e lexical por séculos.

Mas, se entendi bem, o que você está defendendo é basicamente o método comparativo canônico. Desde suas origens, a lingüística histórico-comparativa vem reconhecendo o grande valor de evidências gramaticais. E nenhuma comparação bem feita que eu conheça se limita ao léxico básico. Se, no caso do Macro-Jê, o uso de evidências gramaticais é menos comum, isto é conseqüência de dois fatores básicos:

1. Há pouca morfologia na maioria das línguas atuais e, pelo pouco que se pode detectar através da comparação entre famílias, esta já teria sido a situação na proto-língua.

2. Muitas das línguas Macro-Jê se extinguiram sem que sua gramática tivesse sido devidamente documentada. Mesmo no caso das línguas ainda faladas, faltam descrições suficientemente aprofundadas. Por exemplo, antes da minha tese de mestrado (1996), a existência de um infixo -r- em Karajá, formador de nomes deverbais, não havia sequer sido mencionada. Até que se descubra isso, como poderíamos saber que o Karajá e a família Jê compartilham este cognato? Às vezes, mesmo no caso de línguas extintas e pouco documentadas, as evidências existem mas passam despercebidas. É o caso do "marcador de posse alienável" em Krenák, que mencionei recentemente (http://www.etnolinguistica.org/nota:2). Mais uma vez, não basta que sejam morfemas parecidos (Jê *j-õ, Krenák nhuck), mas que sigam correspondências fonológicas regulares.

Então, no caso de evidências gramaticais, elas têm sido usadas sempre que possível. Greenberg já apontava, no caso do Chiquitano, as notáveis semelhanças no sistema de prefixos pessoais -- algo confirmado por Adelaar. Já em Rodrigues (1986), prefixos pessoais desempenhavam papel importante na constituição do tronco. Mas, uma vez mais, não basta que sejam parecidos; as correspondências fonológicas devem ser regulares, corroboradas por dados lexicais.

O mesmo vale para os chamados "prefixos relacionais". Há várias análises divergentes sobre a natureza destes morfemas (ou mesmo se são morfemas ou não), mas, para mim, parece inegável que sua ocorrência em línguas tão divergentes quanto o Karajá, o Ofayé e o Djeoromitxi é uma herança da proto-língua -- especialmente porque tais alternâncias são ilustradas por cognatos lexicais e corroboradas por correspondências fonológicas.

No estudo que Hein e eu fizemos propondo a inclusão da família Jabutí, fizemos uso de todas as evidências que tínhamos então à nossa disposição, seguindo à risca o método comparativo. Isto inclui o léxico básico, menos propício a empréstimos, o sistema de marcação pessoal, etc. O pouco de morfologia que há em Jabutí é, em grande parte, cognato do que temos em outras famílias do tronco. E há indícios claros de que as alternâncias morfológicas envolvendo os chamados "relacionais" em começo de raiz (como em Jê *j-arkwa 'boca' vs. *s-arkwa 'boca dele') ocorrem também na família Jabutí. O mais importante é que todas estas similaridades são corroboradas por correspondências fonológicas regulares.

O mesmo pode ser dito com relação ao Chiquitano. Eu concordo com as conclusões de Adelaar e, recentemente, concluí um artigo identificando cognatos adicionais, possíveis empréstimos compartilhados com outras línguas Macro-Jê (das famílias Boróro e Jabuti), etc. Talvez uma das evidências gramaticais mais importantes para a inclusão do Chiquitano seja a existência de consoantes iniciais "móveis"(z-, n-) correspondendo aos "relacionais" em Jê (e fenômenos parecidos em Jabuti, Karajá, etc.), e que alternam com zero em certos ambientes; mais uma vez, as correspondências fonológicas batem. Aliás, posso te enviar este artigo em separado, caso te interesse.

Enfim, há muito trabalho básico que precisa ser feito antes de se partir para hipóteses de relacionamento genético fora do tronco e, principalente, fora do continente. As próprias fronteiras do Macro-Jê são um tanto fluidas (eu excluo o Guató, mas não tenho a menor dúvida quanto à inclusão do Chiquitano e da família Jabutí) e há muito ainda a se aprender no nível da descrição individual de cada língua.

Nenhum método computacional redime uma análise capenga, baseada em dados deficientes ou descontextualizados (por mais sofisticado que seja o método ou a teoria). E isto, infelizmente, é que parece ser ignorado por lingüistas que menosprezam o método histórico-comparativo e o trabalho longo de descrever uma língua em seus mínimos detalhes. Anedoticamente, um colega outro dia mencionou um trabalho de um outro lingüista com passagem pelo Max Plank em que, graças a um método novo, ele demonstrava que o Pataxó pertencia à família Maxakalí. Uai, já não sabíamos disso?

Abraços,

Eduardo


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Marcelo Jolkesky

unread,
Mar 13, 2010, 1:30:42 PM3/13/10
to etnolin...@yahoogrupos.com.br

Prezado Eduardo,
 
Muito obrigado pelas ponderações. Eu concordo inteiramente contigo. É um erro aplicar o método comparativo em línguas pertencentes a famílias distintas e não às proto-línguas destas famílias.
Com a minha colocação eu gostaria também de apontar para a seguinte questão sobre o método comparativo, quando aplicado, por exemplo, unicamente ao léxico. Como o próprio nome indica, o método serve para averiguar a existência ou não de relações entre as línguas comparadas, relações não necessariamente por si genéticas, mas também derivadas de contato. Para esclarecer o que pretendo dizer – peço aos interessados que sigam o raciocínio. Como estamos tratando de metodologia, tomei a liberdade de realizar um exercício e exemplificar a situação com um caso muito interessante, entre as línguas L e A (que mais tarde serão reveladas). Se aplicarmos o método apenas ao léxico básico destas línguas, encontraremos uma série de correspondências sistemáticas. Observe que os campos semânticos investigados refletem apenas o vocabulário básico: (i) natureza; (ii) partes do corpo; (iii) saúde e; (iv) termos de parentesco. Vejam os
resultados:

 (L) /b/ : (A) /b/

 

 

 

 

 


antepassados, ancestrais

(L)

/аtа-bubаjаr/

:

(A)

/ata-baba/


criança, menino

(L)

/bаlа/ (bebê)

:

(A)

/bala/


pântano, pantanal

(L)

/bаtаʁluʁ/

:

(A)

/bataqlɯq/


corpo, carne

(L)

/bеdеn/

:

(A)

/bædæn/


cérebro, miolos

(L)

/bеjin/

:

(A)

/bejin/


irmã (do pai)

(L)

/bibi/

:

(A)

/bibi/


nuvem

(L)

/bulut/

:

(A)

/bulud/


baía

(L)

/buχtа/

:

(A)

/buxta /


(L) /d/ : (A) /d/

 

 

 

 

 


ilha

(L)

/аdо/

:

(A)

/ada/


corpo, carne

(L)

/bеdеn/

:

(A)

/bædæn/


montanha, morro

(L)

/dаʁ/

:

(A)

/daq/


irmão (da mãe)

(L)

/dаji/

:

(A)

/dajɯ/


veia, artéria

(L)

/dаmаr/, /dаm/

:

(A)

/damaɾ/


remédio

(L)

/dаrmаn/

:

(A)

/dæɾman/


estrela

(L)

/ulduz/

:

(A)

/ulduz/


estômago, barriga

(L)

/mеdе/

:

(A)

/mædæ/


fêmea

(L)

/diʃi/, /diʃidi/

:

(A)

/diʃi/


campo, planície

(L)

/dyzеn/, /dyzеnluχ/

:

(A)

/dyzænlik/


mundo

(L)

/dynjа/

:

(A)

/dynja/


(L) /ᴣ/ : (A) /dʒ/

 

 

 

 

 


forte, poderoso

(L)

/ɡuʒlu/

:

(A)

/kydʒly/


pulmão

(L)

/ʒiɡеr/

:

(A)

/aɣdʒijæɾ/


velho

(L)

/quʒа/

:

(A)

/qodʒa/


(L) /ɡ/ : (A) /k/

 

 

 

 

 


forte, poderoso

(L)

/ɡuʒlu/

:

(A)

/kydʒly/


sombra

(L)

/ɡylɡе/

:

(A)

/kœlɡæ/


(L) /p/ : (A) /p/

 

 

 

 

 


onda

(L)

/lеpе/

:

(A)

/læpæ/


montanha, morro

(L)

/tеpе/

:

(A)

/tæpæ/


despido, nu

(L)

/tʃuplаχ/

:

(A)

/tʃɯlpaq/


lama, lodo

(L)

/pаltʃuχ/

:

(A)

/paltʃɯq/


(L) /t/ : (A) /t/

 

 

 

 

 


antepassados, ancestrais

(L)

/аtа-bubаjаr/

:

(A)

/ata-baba/


pântano, pantanal

(L)

/bаtаʁluʁ/

:

(A)

/bataqlɯq/


doente, doença

(L)

/χеstе/

:

(A)

/xæstæ/


montanha, morro

(L)

/tеpе/

:

(A)

/tæpæ/


cadáver

(L)

/mеjit/

:

(A)

/mejit/


baía

(L)

/buχtа/

:

(A)

/buxta /


órfão/órfã

(L)

/еtim/, /jеtim/

:

(A)

/jetim/


(L) /tʃ/ : (A) /tʃ/

 

 

 

 

 


lama, lodo

(L)

/pаltʃuχ/

:

(A)

/paltʃɯq/


queixo

(L)

/tʃеnе/

:

(A)

/tʃænæ/


despido, nu

(L)

/tʃuplаχ/

:

(A)

/tʃɯlpaq/


campo, planície

(L)

/tʃyl/

:

(A)

/tʃœl/


(L) /k/ : (A) /k/

 

 

 

 

 


macho

(L)

/erkеk/

:

(A)

/eɾkæk/


homem

(L)

/kаs/

:

(A)

/kiʃi/


espuma

(L)

/kаf/

:

(A)

/kœpyk/


crânio, caveira

(L)

/kеlе/

:

(A)

/kælæ/


pulso

(L)

/ʁilin bilеk/

:

(A)

/bilæk/


família

(L)

/kilfеt/

:

(A)

/kylfæt/


(L) /q/ : (A) /q/

 

 

 

 

 


forte, poderoso

(L)

/quwаtlu/

:

(A)

/qyvætli/


parentes

(L)

/quhumаr/

:

(A)

/qohumlaɾ/


velho

(L)

/quʒа/

:

(A)

/qodʒa/


nascente, poço

(L)

/quj/

:

(A)

/quju/


areia

(L)

/qum/

:

(A)

/qum/


(L) /l/ : (A) /l/

 

 

 

 

 


nuvem

(L)

/bulut/

:

(A)

/bulud/


mudo

(L)

/lаl/

:

(A)

/lal/


onda

(L)

/lеpе/

:

(A)

/læpæ/


campo, planície

(L)

/tʃyl/

:

(A)

/tʃœl/


mar

(L)

/hyl/

:

(A)

/ɡœl/ (lago)


sombra

(L)

/ɡylɡе/

:

(A)

/kœlɡæ/


braço

(L)

/ʁil/

:

(A)

/qol/


pulso

(L)

/ʁilin bilеk/

:

(A)

/bilæk/


filhos, prole

(L)

/wеlеdаr/, /ewlеdаr/

:

(A)

/œvladlaɾ/


forte, poderoso

(L)

/ɡuʒlu/

:

(A)

/kydʒly/


(L) /r/ : (A) /ɾ/

 

 

 

 

 


filhos, prole

(L)

/wеlеdаr/, /ewlеdаr/

:

(A)

/œvladlaɾ/


veia, artéria

(L)

/dаmаr/, /dаm/

:

(A)

/damaɾ/


remédio

(L)

/dаrmаn/

:

(A)

/dæɾman/


ferida, chaga

(L)

/χеr/

:

(A)

/jaɾa/,  /xoɾa/


vento

(L)

/ɡаr/

:

(A)

/qaɾ/ (neve)


coração

(L)

/rik’/

:

(A)

/yɾæk/


dedo

(L)

/qаrmаχ/ (garra)

:

(A)

/baɾmaq/


macho

(L)

/erkеk/

:

(A)

/eɾkæk/


praia

(L)

/qеrеχ/

:

(A)

/ɣɯɾaɣi sahil/


túmulo, sepultura

(L)

/sur/

:

(A)

/mæzaɾ/


parentes

(L)

/quhumаr/

:

(A)

/qohumlaɾ/


pus

(L)

/irin/

:

(A)

/iɾin/


veneno

(L)

/zеhеr/

:

(A)

/zæhæɾ/


pulmão

(L)

/ʒiɡеr/

:

(A)

/aɣ dʒijæɾ/


(L) /m/ : (A) /m/

 

 

 

 

 


caverna, gruta

(L)

/mаʁаrа/

:

(A)

/maɣaɾa/


pessoa, ser humano

(L)

/itеm/ /itim/ (homem)

:

(A)

/adam/


irmão (do pai)

(L)

/imi/

:

(A)

/æmi/


dedo

(L)

/qаrmаχ/ (garra)

:

(A)

/baɾmaq/


areia

(L)

/qum/

:

(A)

/qum/


veia, artéria

(L)

/dаmаr/, /dаm/

:

(A)

/damaɾ/


remédio

(L)

/dаrmаn/

:

(A)

/dæɾman/


mamilo, teta

(L)

/mаm/,  /mаmunin kw’еnk’/

:

(A)

/mæmædʒik/


órfão/órfã

(L)

/еtim/,  /jеtim/

:

(A)

/jetim/


fumaça

(L)

/ɡum/

:

(A)

/duman/ (nevoeiro)


estômago, barriga

(L)

/mеdе/

:

(A)

/mædæ/


cadáver

(L)

/mеjit/

:

(A)

/mejit/


(L) /n/ : (A) /n/

 

 

 

 

 


queixo

(L)

/tʃеnе/

:

(A)

/tʃænæ/


remédio

(L)

/dаrmаn/

:

(A)

/dæɾman/


descendentes

(L)

/nеsilаr/

:

(A)

/nævæ-nætidʒæ/


genro

(L)

/еznе/,  /jеznе/

:

(A)

/jeznæ/


pus

(L)

/irin/

:

(A)

/iɾin/


mundo

(L)

/dynjа/

:

(A)

/dynja/


calcanhar

(L)

/dаbаn/ (calcanhar, pé)

:

(A)

/daban/


corpo, carne

(L)

/bеdеn/

:

(A)

/bædæn/


(L) /f/ : (A) /f/

 

 

 

 

 


família

(L)

/kilfеt/

:

(A)

/kylfæt/


tempestade

(L)

/t’urfаn/

:

(A)

/fɯɾtɯna/


peito

(L)

/χurun qʼеfеs/

:

(A)

/dœʃ qæfæsi/


débil, fraco

(L)

/zаjif/,  /zеif/

:

(A)

/zæif, /


(L) /s/ : (A) /s/

 

 

 

 

 


bem, saúde, são

(L)

/sаʁ/, /sаʁlаm/, /sаʁlаmwаl/

:

(A)

/saɣlam/, /saɣlamlɯq/


calma, calmaria

(L)

/sеkin/

:

(A)

/sakit /


rio, riacho, córrego

(L)

/sеl/

:

(A)

/sel/


(L) /ʃ/ : (A) /ʃ/

 

 

 

 

 


luz

(L)

/iʃiʁ/

:

(A)

/iʃɯq/


viver, vivo/a, vida

(L)

/jаʃаjiʃ/

:

(A)

/jaʃamaq/


bebê, nenê

(L)

/ʃаrаɡ/

:

(A)

/uʃaq/


fêmea

(L)

/diʃi, diʃidi/

:

(A)

/diʃi/


(L) /χ/ : (A) /x/

 

 

 

 

 


baía

(L)

/buχtа/

:

(A)

/buxta/


irmã (da mãe)

(L)

/χаlа/

:

(A)

/xala/


ferida, chaga

(L)

/χеr/

:

(A)

/xoɾa/, /jaɾa/


doente, doença

(L)

/χеstе/

:

(A)

/xæstæ/


(L) /χ/ : (A) /q/
/V_.

 

 

 

 

 


dedo

(L)

/qаrmаχ/ (garra)

:

(A)

/baɾmaq/


lama, lodo

(L)

/pаltʃuχ/

:

(A)

/paltʃɯq/


despido, nu

(L)

/tʃuplаχ/

:

(A)

/tʃɯlpaq/


(L) /h/ : (A) /h/

 

 

 

 

 


ar, clima

(L)

/hаwа/

:

(A)

/hava/


veneno

(L)

/zеhеr/

:

(A)

/zæhæɾ/


parentes

(L)

/quhumаr/

:

(A)

/qohumlaɾ/


(L) /w/ : (A) /v/

 

 

 

 

 


filhos, prole

(L)

/wеlеdаr/, /ewlеdаr/

:

(A)

/œvladlaɾ/


chama

(L)

/jаlаw/

:

(A)

/alov/


ar, clima

(L)

/hаwа/

:

(A)

/hava/


forte, poderoso

(L)

/quwаtlu/

:

(A)

/qyvætli/


(L) /z/ : (A) /z/

 

 

 

 

 


débil, fraco

(L)

/zаjif/, /zеif/

:

(A)

/zæif, /


gêmeos

(L)

/ekizеr/

:

(A)

/ækiz/


campo, planície

(L)

/dyzеn/, /dyzеnluχ/

:

(A)

/dyzænlik/


estrela

(L)

/ulduz/

:

(A)

/ulduz/


genro

(L)

/еznе/, /jеznе/

:

(A)

/jeznæ/


veneno

(L)

/zеhеr/

:

(A)

/zæhæɾ/


(L) /j/ : (A) /j/

 

 

 

 

 


cérebro, miolos

(L)

/bеjin/

:

(A)

/bejin/


viver, vivo/a, vida

(L)

/jаʃаjiʃ/

:

(A)

/jaʃamaq/


nascente, poço

(L)

/quj/

:

(A)

/quju/


cadáver

(L)

/mеjit/

:

(A)

/mejit/


irmão (da mãe)

(L)

/dаji/

:

(A)

/dajɯ/


(L) /ʁ/ : (A) /ɣ/
/._V

 

 

 

 

 


caverna, gruta

(L)

/mаʁаrа/

:

(A)

/maɣaɾa/


bem, saúde, são

(L)

/sаʁ/,  /sаʁlаm/,  /sаʁlаmwаl /

:

(A)

/saɣlam/,  /saɣlamlɯq/


chuva

(L)

/mur jаʁun/ (gelo)

:

(A)

/jaɣɯʃ/


(L) /ʁ/ : (A) /q/
/V_.

 

 

 

 

 


braço

(L)

/ʁil/

:

(A)

/qol/


pântano, pantanal

(L)

/bаtаʁluʁ/

:

(A)

/bataqlɯq/


montanha, morro

(L)

/dаʁ/

:

(A)

/daq/


luz

(L)

/iʃiʁ/

:

(A)

/iʃɯq/
 

(L) /a/ : (A) /a/

 

 

 

 

 


calcanhar

(L)

/dаbаn/ (calcanhar, pé)

:

(A)

/daban/


espuma

(L)

/kаf/

:

(A)

/kœpyk/


irmão (da mãe)

(L)

/dаji/

:

(A)

/dajɯ/


débil, fraco

(L)

/zаjif/,  /zеif/

:

(A)

/zæif/


mudo

(L)

/lаl/

:

(A)

/lal/


lama, lodo

(L)

/pаltʃuχ/

:

(A)

/paltʃɯq/


criança, menino

(L)

/bаlа/ (bebê)

:

(A)

/bala/


irmã (da mãe)

(L)

/χаlа/

:

(A)

/xala/


chama

(L)

/jаlаw/

:

(A)

/alov/


mamilo, teta

(L)

/mаm/,  /mаmunin kІwеnkІ/

:

(A)

/mæmædʒik/


veia, artéria

(L)

/dаmаr/,  /dаm/

:

(A)

/damaɾ/


bem, saúde, são

(L)

/sаʁ/,  /sаʁlаm,  /sаʁlаmwаl /

:

(A)

/saɣlam,  /saɣlamlɯq/


vento

(L)

/ɡаr/

:

(A)

/qaɾ/ (neve)


montanha, morro

(L)

/dаʁ/

:

(A)

/daq/


remédio

(L)

/dаrmаn/

:

(A)

/dæɾman/


dedo

(L)

/qаrmаχ/ (garra)

:

(A)

/baɾmaq/


bebê, nenê

(L)

/ʃаrаɡ/

:

(A)

/uʃaq/


caverna, gruta

(L)

/mаʁаrа/

:

(A)

/maɣaɾa /


viver, vivo/a, vida

(L)

/jаʃаjiʃ/

:

(A)

/jaʃamaq/


pântano, pantanal

(L)

/bаtаʁluʁ/

:

(A)

/bataqlɯq/


ar, clima

(L)

/hаwа/

:

(A)

/hava/


(L) /e/ : (A) /e/

 

 

 

 

 


macho

(L)

/erkеk/

:

(A)

/eɾkæk/


genro

(L)

/еznе/,  /jеznе/

:

(A)

/jeznæ/


cérebro, miolos

(L)

/bеjin/

:

(A)

/bejin/


cadáver

(L)

/mеjit/

:

(A)

/mejit/


rio, riacho, córrego

(L)

/sеl/

:

(A)

/sel/


(L) /e/ : (A) /æ/

 

 

 

 

 


macho

(L)

/erkеk/

:

(A)

/eɾkæk/


genro

(L)

/еznе/,  /jеznе/

:

(A)

/jeznæ/


estômago, barriga

(L)

/mеdе/

:

(A)

/mæ dæ/


corpo, carne

(L)

/bеdеn/

:

(A)

/bædæn/


veneno

(L)

/zеhеr/

:

(A)

/zæhæɾ/


calma, calmaria

(L)

/sеkin/

:

(A)

/sakit /


crânio, caveira

(L)

/kеlе/

:

(A)

/kælæ/


queixo

(L)

/tʃеnе/

:

(A)

/tʃænæ/


onda

(L)

/lеpе/

:

(A)

/læpæ/


montanha, morro

(L)

/tеpе/

:

(A)

/tæpæ/


descendentes

(L)

/nеsilаr/

:

(A)

/nævæ-nætidʒæ/


doente, doença

(L)

/χеstе/

:

(A)

/xæstæ/


(L) /i/ : (A) /i/

 

 

 

 

 


irmã (do pai)

(L)

/bibi/

:

(A)

/bibi/


pulmão

(L)

/ʒiɡеr/

:

(A)

/aɣ dʒijæɾ/


pulso

(L)

/ʁilin bilеk/

:

(A)

/bilæk/


rosto

(L)

/tʃin/

:

(A)

/sifæt/


pus

(L)

/irin/

:

(A)

/iɾin/


fêmea

(L)

/diʃi/,  /diʃidi/

:

(A)

/diʃi/


órfão/órfã

(L)

/еtim/,  /jеtim/

:

(A)

/jetim/


gêmeos

(L)

/ekizеr/

:

(A)

/ækiz/


(L) /i/ : (A) /æ/

 

 

 

 

 


coração

(L)

/rikІ/

:

(A)

/yɾæk/


avó

(LE)

/tʃ’еχi didе/

:

(AZ)

/nænæ/


irmão (do pai)

(L)

/imi/

:

(A)

/æmi/


(L) /u/ : (A) /u/

 

 

 

 

 


parentes

(L)

/quhumаr/

:

(A)

/qohumlaɾ/


nascente, poço

(L)

/quj/

:

(A)

/quju/


estrela

(L)

/ulduz/

:

(A)

/ulduz/


nuvem

(L)

/bulut/

:

(A)

/bulud/


fumaça

(L)

/ɡum/

:

(A)

/duman/ (nevoeiro)


baía

(L)

/buχtа/

:

(A)

/buxta /


areia

(L)

/qum/

:

(A)

/qum/


(L) /u/ : (A) /ɯ/

 

 

 

 

 


despido, nu

(L)

/tʃuplаχ/

:

(A)

/tʃɯlpaq/


pântano, pantanal

(LE)

/bаtаʁluʁ/

:

(AZ)

/bataqlɯq/


lama, lodo

(LE)

/pаltʃuχ/

:

(AZ)

/paltʃɯq/


tempestade

(LE)

/t’urfаn/

:

(AZ)

/fɯɾtɯna/


chuva

(L)

/mur jаʁun/ (gelo)

:

(A)

/jaɣɯʃ/


(L) /y/ : (A) /œ/

 

 

 

 

 


mar

(L)

/hyl/

:

(A)

/ɡœl/ (lago)


campo, planície

(L)

/tʃyl/

:

(A)

/tʃœl/


sombra

(L)

/ɡylɡе/

:

(A)

/kœlɡæ/


terreno

(L)

/ylkwе/

:

(A)

/œlkæ/


(L) /y/ : (A) /y/

 

 

 

 

 


omoplata

(L)

/qynin qʼil/

:

(A)

/kyɾæk/


mundo

(L)

/dynjа/

:

(A)

/dynja/


campo, planície

(L)

/dyzеn/,  /dyzеnluχ/

:

(A)

/dyzænlik/
 
Tais resultados são tentadores (porém existem alguns falsos cognatos) e fariam possivelmente alguns lingüistas acreditarem numa relação genética, caso desconhecessem a história destas línguas e de seus povos. Entretanto, as línguas L e A correspondem respectivamente ao Lézgi (família Caucasiana Setentrional) e Azerí (família Turca), duas línguas da região do Cáucaso. Não existem quaisquer relações genéticas entre as duas famílias, muito menos entre as duas línguas.
Trazendo agora a questão para o continente sul-americano, gostaria de trabalhar encima das seguintes pressuposições: (i) numa determinada época, numa região da América do Sul, dois povos de línguas (A e B) totalmente distintas e geneticamente não relacionadas (pertencendo respectivamente às famílias X e Y), passam a conviver num sistema multiétnico similar ao ocorrido entre as populações caucasianas e turcas; (ii) em função da baixa demografia populacional, a conquista desta região por nações terceiras e sua conseqüentes pressões culturais e político-sociais poderiam resultar na assimilação ou extermínio da maior parte dos povos falantes das línguas das famílias X e Y, assim como no desencadeamento de uma série de ‘migrações forçadas’, daqueles povos que não quiseram se submeter.
Considerando ainda que os dois povos falantes das línguas A e B tivessem então emigrado, cada um para uma direção e lá se instalado e vivido por mais vários séculos e só então suas línguas viessem a ser escritas, documentadas e estudadas. Certamente, os lingüistas, ao comparar seu léxico, seriam fortemente levados a concluir por uma relação genética entre as línguas A e B, dado que desconhecem toda a trajetória percorrida por ambos os povos.
Mas e se comparassem as palavras de classes fechadas (como os pronomes, numerais), os morfemas flexionais e derivacionais, sua morfossintaxe? Encontrariam também tal semelhança?
Voltando para nosso caso conhecido (Azerí e Lézgi), vejamos então o que ocorre:
A seguir estão expostos os pronomes livres e formas possessivas/genitivas em Lézgi e Azerí (A e I em Azerí são representações de vogais que sofrem harmonia: A = /a/, /æ/;  I = /i/, /ɯ/, /y/, /u/)

pronomes livres

 

(absolutivo)

 

(nominativo)


eu

(L)

/zun/

(A)

/mæn/


tu

(L)

/wun/

(A)

/sæn, siz/


ele, ela

(L)

/аm/, /ada/ (ERG)

(A)

/o/


nós

(L)

/tʃun/

(A)

/biz/


vós

(L)

/kyn/

(A)

/siz/


eles, elas

(L)

/аbur/

(A)

/onlaɾ/
 

pronomes possessivos/genitivos

 

(genitivo)

 

(possessivo)


eu

(L)

/zi(n)/+[nome]

(A)

-/(I)m/


tu

(L)

/wi(n)/ +[nome]

(A)

-/(I)n/


ele, ela

(L)

/adan/+[nome]

(A)

-/(s)I/


nós

(L)

/tʃi(n)/ +[nome]

(A)

-/(I)mIz/


vós

(L)

/ky(n)/ +[nome]

(A)

-/(I)nIz/


eles, elas

(L)

/аburun/+[nome]

(A)

-/(s)I/; -/lAɾi/
 

flexão verbal
(concordância de número e pessoa)

 

(ausente)

 

(com o sujeito [nominativo])


eu

(L)

(A)

-/Am/ (presente/futuro)
-/m/ (passado)


tu

(L)

(A)

-/sAn/ (presente/futuro)
-/n/ (passado)


ele, ela

(L)

(A)

∅; -dIr (futuro)


nós

(L)

(A)

-/Iq/ (presente/futuro)
-/q/, -/k/ (passado)


vós

(L)

(A)

-/sInIz/ (presente/futuro)
-/nIz/ (passado)


eles, elas

(L)

(A)

-/lAɾ/ (presente/passado/futuro)
 
O sistema de marcação de caso:

nominativo

(L)

(A)

forma básica


acusativo

(L)

(A)

-/(n)I/


absolutivo

(L)

forma básica

(A)


ergativo [ERG]

(L)

muitos sufixos:
-/di/, -/a/,  -/e/, -/re/ (mais comuns)

(A)


genitivo [GEN]

(L)

-[ERG]-/n/

(A)

-/(n)In/


dativo

(L)

-[ERG]-/z/

(A)

-/jA/


locativo [LOC]

(L)

-[ERG]-/w/

(A)

-/dA/


instrumental

(L)

-[ERG]- [LOC]-/di/; -/gwaz/

(A)

-/lA/


subessivo

(L)

-[ERG]-/k/; -[GEN]+/k’anik/

(A)

-/altɯnda/


inessivo [INES]

(L)

-/a/, -/e/

(A)

-/itʃindæ/


superessivo

(L)

[INES]-/l/

(A)

-/ystyndæ/
 
morfemas verbais:

negação

(L)

/tV/-

(A)

-/m/


imperfectivo

(L)

-/zawa/, -/zwa/

(A)


perfectivo

(L)

-/na/

(A)


passado

(L)

(A)

-/dI/


presente

(L)

(A)

-/Iɾ/


infinitivo neɡativo

(L)

-/tʃ/

(A)

-/mA/


futuro

(L)

-/da/

(A)

-/atʃaq/; -/Aɾ/


interroɡativo (sim/não)

(L)

-/ni/

(A)

-/mI/
 
numerais:

0

(L)

/nolʔ/

(A)

/sɯfɯɾ/


1

(L)

/sad/

(A)

/biɾ/


2

(L)

/qʷ’ed/

(A)

/iki/


3

(L)

/pud/

(A)

/ytʃ/


4

(L)

/q’ud/

(A)

/dœɾd/


5

(L)

/vad/

(A)

/beʃ/


6

(L)

/rugud/

(A)

/altɯ/


7

(L)

/irid/

(A)

/jedi/


8

(L)

/myʒyd/

(A)

/sækiz/


9

(L)

/k’yd/

(A)

/doquz/


10

(L)

/ts’ud/

(A)

/on/
 
Como se pode observar, a estrutura morfossintática destas línguas é bastante diferente. As poucas possíveis semelhanças, como, por exemplo, o caso genitivo, se trata na realidade de mera coincidência.
Há uma diferença gritante também em seus sistemas fonológicos (confira aqui).
http://en.wikipedia.org/wiki/Azerbaijani_language
http://en.wikipedia.org/wiki/Lezgian_language
 
Tendo isto em vista, acredito que só a demonstração de semelhanças em todos os domínios lingüísticos é que servirão conjuntamente como evidência de alguma relação genética. Certamente também não serão provas cabais, pois existem os casos dos pidjins e crioulos.
Eduardo lembrou bem da hipótese de inclusão do Guató no Macro-Jê, altamente controversa e baseada somente em pouquíssimas semelhanças lexicais. Eu também incluiria o Chiquitano, onde até o momento foram mostradas somente evidências lexicais, além das marcas de posse no singular (Santana  2006; Adelaar 2008), porém nenhuma outra semelhança morfossintática.
Gostaria de pedir a opinião dos demais colegas, especialistas e interessados, nesta discussão.
 
mais uma vez obrigado pela atenção,
 
Marcelo
 
Referências:
Adelaar, W. F. H. (2008). Relações externas do Macro-Jê: o caso do Chiquitano. Em: S Telles & A. S. de Paula (orgs.) Topicalizando Macro-Jê,  9-29. Recife: NECTAR.
Haspelmath, M. (1993) . A Grammar of Lezgian. Berlin: Mouton de Gruyter.
Key, M. R.; Comrie, B. (eds.) (2007) The International Dictionary Series. <http://lingweb.eva.mpg.de/ids/>
Öztopçu, K. (2003). Elementary Azerbaijani. Turk Dilleri Arastirmalari Dizisi. Santa Monica, California - Istanbul
Santana, A. C.  (2006). Comparações preliminares entre a língua Chiquitano (Brasil/ Bolívia) e o Proto-Jê. Ponencia al 52º Congreso Internacional de Americanistas, Sevilla, julio de 2006.
 


--- 12/03/10 Cum tarihinde Eduardo R. Ribeiro <kar...@gmail.com> şöyle yazıyor:


Kimden: Eduardo R. Ribeiro <kar...@gmail.com>
Konu: Re: [etnolinguistica] Kaingáng e Polinésio?
Kime: etnolin...@yahoogrupos.com.br
Tarihi: 12 Mart 2010 Cuma, 13:06


 

Caro Marcelo,

Muito obrigado pela dica. Aproveitei para incluir este item na Bibliografia Macro-Jê Online:

http://macro- je.etnolinguisti ca.org/item: 328

Aproveitando a ocasião, peço aos colegas que estudam línguas Macro-Jê que nos mantenham informados sobre novas publicações, entrando em contato diretamente com um dos editores da Bibliografia ou preenchendo um dos formulários disponíveis no site do projeto. A idéia é que tenhamos, por ocasião do próximo Encontro MAcro-Jê, uma bibliografia o mais completa possível, já incorporando o conteúdo da bibliografia impressa. Mas, para tanto, precisamos de mais voluntários e a participação ativa dos colegas.

Eu concordo que é salutar discutirmos questões metodológicas na determinação de relacionamentos genéticos de longo alcance e manternos a mente aberta para novas possibilidades de parentesco. Acho até que, no caso do Macro-Jê, o excesso de certeza tem contribuído para atravancar o progresso dos estudos comparativos (como a insistência em incluir o Guató, com base mais em tradição que evidências comparativas, demonstra).

No entanto, no caso do artigo de Pericliev, creio que não contribui nada novo em termos de rigor metodológico. Pelo contrário. É apenas a aplicação deficiente do método comparativo, semelhante às idéias que Guérios propunha (por exemplo, em "Cartas Etnolingüísticas", correspondência dele com Nimuendaju). A própria obviedade da semelhança fonológica entre algumas formas polinésias e Kaingáng deve ser vista com suspeita. Mesmo dentro do mesmo tronco, as semelhanças entre famílias são pouco óbvias, o que seria de se esperar depois de milênios de separação. No caso do artigo de Pericliev, a impressão que se tem é que o Kaingáng seria mais próximo das línguas polinésias do que de línguas Macro-Jê como o Karajá.

Na pequena lista de cognatos (selecionados da suposta centena de cognatos encontrados) , vários casos são puramente onomatopaicos: trovejar, respirar, assobiar, tremer. Acho curiosa a justificativa que ele dá para o uso de formas assim: "Henry suggests that the Xokleng word is onomatopoeic; whether this is indeed the case or not, however, is immaterial in the present context insofar as the Kaingang and Polynesian languages do have similar forms, while other, non-Kaingang or Polynesian languages, would have quite different forms." Além disso, em pelo menos dois casos, o uso de óbvios casos de polissemia como diferentes entradas na lista de cognatos ('sol' e 'dia', 'roupa' e 'coberta') contribui para inflar o número de semelhanças (um caso de propaganda enganosa). É este tipo de lambança metodológica que me deixa com um pé atrás a respeito de trabalhos assim.

Condição sine qua non na determinação de parentesco, lingüístico ou não, é descartar a possibilidade de que as similaridades observadas sejam devidas a fatores outros que herança genética. Nenhum dos argumentos não lexicais de Pericliev passa este teste: semelhanças semânticas em sistema de parentesco; semelhanças superficiais no inventário fonológico; o uso de paralelismo como recurso discursivo. Tudo isto pode surgir -- e comumente surge -- independentemente, e mesmo línguas que obviamente pertencem a uma mesma família podem diferir nestes aspectos. Em um caso, características que parecem ser (caso Pericliev esteja correto) inovações em línguas oceânicas (a falta de contraste surdo vs. sonoro em consoantes obstruintes e a existência de consoantes pré-nasalizadas) acabam sendo usadas como "evidência" de parentesco com Kaingáng/Xoklé ng (onde tais características são reconstruíveis para o Proto-Jê e estavam presentes,
provavelmente, já no Proto-Macro- Jê):

"Like Austronesian languages, and especially their Oceanic branch, which are known to have lost the voicing contrast in obstruents and to have developed prenasalized consonants in opposition to plain consonants, Xokleng (as described in Henry 1935, 1948) also does not have plain voiced obstruents, but contrasts plain voiceless with prenasalized voiced consonants."

Quanto ao trabalho de Vajda, eu conheço pouco e nem de longe tenho a competência para avaliar se está correto ou não. Há poucos especialistas no mundo que têm suficiente conhecimento de línguas dos dois lados do Estreito de Bering para avaliar se Vajda está correto -- e, pelo que tenho visto, muitos deles tendem a concordar com as conclusões de Vajda. Mas, se Vajda está correto, isto seria, na minha opinião, uma confirmação da eficiência do bom e velho método comparativo. Afinal, Vajda não compara isoladamente uma língua de cá com línguas de lá; ele compara proto-línguas, reconstruídas usando o método comparativo.

Bem, estas são algumas idéias que me ocorreram. Obrigado, Marcelo, por propor este tópico interessantíssimo aqui na lista!

Abraços,

Eduardo

----Original Message -----
From: Marcelo Jolkesky
To: etnolinguistica@ yahoogrupos. com.br
Sent: Thursday, March 11, 2010 4:06 PM
Subject: [etnolinguistica] Kaingáng e Polinésio?

Prezados colegas,

Encontrei um artigo intrigante de Vladimir Pericliev comparando as línguas Jê Meridionais com línguas Polinésicas (tronco Austronésio), resultado de um trabalho conduzido em 2002 no Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology:
Pericliev , V. (2007). The Kaingang (Brazil) seem linguistically related to : Oceanic populations. Journal of Universal Language 8:39-59.
http://www.unish. org/unish/ DOWN/PDF/ 8_2_2.pdf

Outras hipóteses de relações genéticas intercontinentais têm sido propostas ultimamente, como Mongol-Sahaptin (Qiuju, 2004) e Dene-Yenisey (Vajda, 2008).
Resolvi postar no grupo para levantar uma proposta de debate: até que ponto os argumentos somente lexicais, fonológicos ou morfossintáticos resultantes da aplicação do método comparativo são confiáveis em comparações de longa distância? O meu ponto de vista é que, de alguma forma, todos os domínios lingüísticos estejam necessariamente envolvidos e produzam conjuntamente as evidências de parentesco, não sendo provas cientificamente contundentes aquelas apresentadas isoladamente apenas de uma ou outra subárea. Neste sentido o trabalho de Vajda, dentre muitos, deveria ser considerado um modelo para investigações neste campo científico.

obrigado pela atenção,
um abraço,
Marcelo

Referências:

Qiuju, Yu (2004). A Comparative Study of Proto-Mongolian and Proto-Sahaptian. Ph.D. dissertation. University of Regina, Saskatchewan.

Vajda, Edward (2008). A Siberian Link with Na-Dene Languages, Fairbanks: Dene-Yeniseic Symposium, http://www.uaf. edu/anlc/ docs/vajda- 2008.pdf
.

--- 11/03/10 Per tarihinde Biblioteca Digital Curt Nimuendaju <biblio@etnolinguist ica.org> Åöyle yazıyor:

Kimden: Biblioteca Digital Curt Nimuendaju <biblio@etnolinguist ica.org>
Konu: [etnolinguistica] Viagem ao Redor do Brasil (Fonseca 1880, 1881)
Kime: nimuendaju@googlegr oups.com

Tarihi: 11 Mart 2010 PerÅembe, 15:30

A Biblioteca Digital Curt Nimuendaju acaba de acrescentar a seu acervo os dois volumes (1880, 1881) de Viagem ao Redor do Brasil, de João Severiano da Fonseca (1836-1897). A obra resultou da participação de seu autor -- médico e militar, veterano da Guerra do Paraguai e irmão do futuro "generalíssimo" Deodoro -- na expedição da Comissão de Limites entre o Brasil e a Bolívia,
que percorreu os territórios fronteiriços do velho Matto Grosso (atuais estados de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia) entre 1875 e 1878.

Importante para o conhecimento da história do oeste brasileiro, a obra é também uma rica fonte de dados etnolingüísticos. Além de descrever costumes de povos indígenas com os quais a comissão entrou em contato, como os Chiquitano e os Palmela, Severiano da Fonseca inclui vocabulários de várias línguas indígenas faladas no Brasil e na Bolívia (Chiquitano, Guarayo, Palmela, Baure, Itonama e Cayuvava). A obra serve de testemunha do papel desempenhado por índios de diversas etnias ("brasileiras" ou "bolivianas" ) como auxiliares na exploração e colonização do território; um exemplo anedótico desta diversidade é o grupo de quatro remadores contratados pela comissão, que incluía falantes nativos de três línguas (Itonama, Baure e Cayuvava).

A contribuição lingüística mais importante da obra é, provavelmente, o vocabulário da língua dos Palmela, cuja inclusão na família Karib (surpreendente, dada sua localização em Rondônia) seria sugerida já pelo próprio Severiano da Fonseca (com base em
comparações com vocabulários de línguas como o Galibi, publicados nos Glossaria de Martius (1867)).

A obra pode ser acessada no seguinte endereço:
http://biblio. etnolinguistica. org/fonseca- 1880-viagem

Para saber mais:

Meira, Sérgio. 2006. A família lingüística Caribe (Karíb). Revista de Estudos e Pesquisas, v.3, n.1/2, p.157-174. http://www.etnoling uistica.org/ artigo:meira- 2006

Métraux, Alfred. 1942. Map of Eastern Bolivia and Western Matto Grosso. http://biblio. etnolinguistica. org/imagem: 2

------
Biblioteca Digital Curt Nimuendaju
http://biblio. etnolinguistica. org/

Para receber informações sobre novos acréscimos ao acervo da Biblioteca, acompanhe-nos no Twitter (http://twitter. com/nimuendaju) ou assine nossa lista de anúncios:
http://groups. google.com/ group/nimuendaju

A Biblioteca Digital Curt Nimuendaju é uma iniciativa do portal Etnolinguistica. Org.

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Eduardo R. Ribeiro

unread,
Mar 12, 2010, 11:06:24 AM3/12/10
to etnolin...@yahoogrupos.com.br
Caro Marcelo,

Muito obrigado pela dica. Aproveitei para incluir este item na Bibliografia Macro-Jê Online:

http://macro-je.etnolinguistica.org/item:328

Aproveitando a ocasião, peço aos colegas que estudam línguas Macro-Jê que nos mantenham informados sobre novas publicações, entrando em contato diretamente com um dos editores da Bibliografia ou preenchendo um dos formulários disponíveis no site do projeto. A idéia é que tenhamos, por ocasião do próximo Encontro MAcro-Jê, uma bibliografia o mais completa possível, já incorporando o conteúdo da bibliografia impressa. Mas, para tanto, precisamos de mais voluntários e a participação ativa dos colegas.

Eu concordo que é salutar discutirmos questões metodológicas na determinação de relacionamentos genéticos de longo alcance e manternos a mente aberta para novas possibilidades de parentesco. Acho até que, no caso do Macro-Jê, o excesso de certeza tem contribuído para atravancar o progresso dos estudos comparativos (como a insistência em incluir o Guató, com base mais em tradição que evidências comparativas, demonstra).

No entanto, no caso do artigo de Pericliev, creio que não contribui nada novo em termos de rigor metodológico. Pelo contrário. É apenas a aplicação deficiente do método comparativo, semelhante às idéias que Guérios propunha (por exemplo, em "Cartas Etnolingüísticas", correspondência dele com Nimuendaju). A própria obviedade da semelhança fonológica entre algumas formas polinésias e Kaingáng deve ser vista com suspeita. Mesmo dentro do mesmo tronco, as semelhanças entre famílias são pouco óbvias, o que seria de se esperar depois de milênios de separação. No caso do artigo de Pericliev, a impressão que se tem é que o Kaingáng seria mais próximo das línguas polinésias do que de línguas Macro-Jê como o Karajá.

Na pequena lista de cognatos (selecionados da suposta centena de cognatos encontrados), vários casos são puramente onomatopaicos: trovejar, respirar, assobiar, tremer. Acho curiosa a justificativa que ele dá para o uso de formas assim: "Henry suggests that the Xokleng word is onomatopoeic; whether this is indeed the case or not, however, is immaterial in the present context insofar as the Kaingang and Polynesian languages do have similar forms, while other, non-Kaingang or Polynesian languages, would have quite different forms." Além disso, em pelo menos dois casos, o uso de óbvios casos de polissemia como diferentes entradas na lista de cognatos ('sol' e 'dia', 'roupa' e 'coberta') contribui para inflar o número de semelhanças (um caso de propaganda enganosa). É este tipo de lambança metodológica que me deixa com um pé atrás a respeito de trabalhos assim.

Condição sine qua non na determinação de parentesco, lingüístico ou não, é descartar a possibilidade de que as similaridades observadas sejam devidas a fatores outros que herança genética. Nenhum dos argumentos não lexicais de Pericliev passa este teste: semelhanças semânticas em sistema de parentesco; semelhanças superficiais no inventário fonológico; o uso de paralelismo como recurso discursivo. Tudo isto pode surgir -- e comumente surge -- independentemente, e mesmo línguas que obviamente pertencem a uma mesma família podem diferir nestes aspectos. Em um caso, características que parecem ser (caso Pericliev esteja correto) inovações em línguas oceânicas (a falta de contraste surdo vs. sonoro em consoantes obstruintes e a existência de consoantes pré-nasalizadas) acabam sendo usadas como "evidência" de parentesco com Kaingáng/Xokléng (onde tais características são reconstruíveis para o Proto-Jê e estavam presentes, provavelmente, já no Proto-Macro-Jê):

"Like Austronesian languages, and especially their Oceanic branch, which are known to have lost the voicing contrast in obstruents and to have developed prenasalized consonants in opposition to plain consonants, Xokleng (as described in Henry 1935, 1948) also does not have plain voiced obstruents, but contrasts plain voiceless with prenasalized voiced consonants."

Quanto ao trabalho de Vajda, eu conheço pouco e nem de longe tenho a competência para avaliar se está correto ou não. Há poucos especialistas no mundo que têm suficiente conhecimento de línguas dos dois lados do Estreito de Bering para avaliar se Vajda está correto -- e, pelo que tenho visto, muitos deles tendem a concordar com as conclusões de Vajda. Mas, se Vajda está correto, isto seria, na minha opinião, uma confirmação da eficiência do bom e velho método comparativo. Afinal, Vajda não compara isoladamente uma língua de cá com línguas de lá; ele compara proto-línguas, reconstruídas usando o método comparativo.

Bem, estas são algumas idéias que me ocorreram. Obrigado, Marcelo, por propor este tópico interessantíssimo aqui na lista!

Abraços,

Eduardo

----Original Message -----
From: Marcelo Jolkesky
To: etnolin...@yahoogrupos.com.br
Sent: Thursday, March 11, 2010 4:06 PM
Subject: [etnolinguistica] Kaingáng e Polinésio?



Prezados colegas,

Encontrei um artigo intrigante de Vladimir Pericliev comparando as línguas Jê Meridionais com línguas Polinésicas (tronco Austronésio), resultado de um trabalho conduzido em 2002 no Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology:
Pericliev , V. (2007). The Kaingang (Brazil) seem linguistically related to : Oceanic populations. Journal of Universal Language 8:39-59.
http://www.unish.org/unish/DOWN/PDF/8_2_2.pdf

Outras hipóteses de relações genéticas intercontinentais têm sido propostas ultimamente, como Mongol-Sahaptin (Qiuju, 2004) e Dene-Yenisey (Vajda, 2008).
Resolvi postar no grupo para levantar uma proposta de debate: até que ponto os argumentos somente lexicais, fonológicos ou morfossintáticos resultantes da aplicação do método comparativo são confiáveis em comparações de longa distância? O meu ponto de vista é que, de alguma forma, todos os domínios lingüísticos estejam necessariamente envolvidos e produzam conjuntamente as evidências de parentesco, não sendo provas cientificamente contundentes aquelas apresentadas isoladamente apenas de uma ou outra subárea. Neste sentido o trabalho de Vajda, dentre muitos, deveria ser considerado um modelo para investigações neste campo científico.

obrigado pela atenção,
um abraço,
Marcelo

Referências:

Qiuju, Yu (2004). A Comparative Study of Proto-Mongolian and Proto-Sahaptian. Ph.D. dissertation. University of Regina, Saskatchewan.

Vajda, Edward (2008). A Siberian Link with Na-Dene Languages, Fairbanks: Dene-Yeniseic Symposium, http://www.uaf.edu/anlc/docs/vajda-2008.pdf
.

--- 11/03/10 Per tarihinde Biblioteca Digital Curt Nimuendaju <bib...@etnolinguistica.org> şöyle yazıyor:


Kimden: Biblioteca Digital Curt Nimuendaju <bib...@etnolinguistica.org>
Konu: [etnolinguistica] Viagem ao Redor do Brasil (Fonseca 1880, 1881)
Kime: nimue...@googlegroups.com

Tarihi: 11 Mart 2010 PerÅŸembe, 15:30



A Biblioteca Digital Curt Nimuendaju acaba de acrescentar a seu acervo os dois volumes (1880, 1881) de Viagem ao Redor do Brasil, de João Severiano da Fonseca (1836-1897). A obra resultou da participação de seu autor -- médico e militar, veterano da Guerra do Paraguai e irmão do futuro "generalíssimo" Deodoro -- na expedição da Comissão de Limites entre o Brasil e a Bolívia,
que percorreu os territórios fronteiriços do velho Matto Grosso (atuais estados de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia) entre 1875 e 1878.

Importante para o conhecimento da história do oeste brasileiro, a obra é também uma rica fonte de dados etnolingüísticos. Além de descrever costumes de povos indígenas com os quais a comissão entrou em contato, como os Chiquitano e os Palmela, Severiano da Fonseca inclui vocabulários de várias línguas indígenas faladas no Brasil e na Bolívia (Chiquitano, Guarayo, Palmela, Baure, Itonama e Cayuvava). A obra serve de testemunha do papel desempenhado por índios de diversas etnias ("brasileiras" ou "bolivianas") como auxiliares na exploração e colonização do território; um exemplo anedótico desta diversidade é o grupo de quatro remadores contratados pela comissão, que incluía falantes nativos de três línguas (Itonama, Baure e Cayuvava).

A contribuição lingüística mais importante da obra é, provavelmente, o vocabulário da língua dos Palmela, cuja inclusão na família Karib (surpreendente, dada sua localização em Rondônia) seria sugerida já pelo próprio Severiano da Fonseca (com base em
comparações com vocabulários de línguas como o Galibi, publicados nos Glossaria de Martius (1867)).

A obra pode ser acessada no seguinte endereço:
http://biblio. etnolinguistica. org/fonseca- 1880-viagem

Para saber mais:

Meira, Sérgio. 2006. A família lingüística Caribe (Karíb). Revista de Estudos e Pesquisas, v.3, n.1/2, p.157-174. http://www.etnoling uistica.org/ artigo:meira- 2006

Métraux, Alfred. 1942. Map of Eastern Bolivia and Western Matto Grosso. http://biblio. etnolinguistica. org/imagem: 2

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