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�Divulga��o
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| �� Na capa do
livro,�Tauana |
"Meu nome � Tauana dos Santos, tenho 21 anos.
Desde muito nova, fui v�tima de preconceito por
conta da religi�o a que perten�o, o candombl�, e
pela minha cor negra." O depoimento estampa uma
das orelhas do livro
Educa��o nos terreiros
� e como a escola se relaciona com crian�as de
candombl�, de Stela Guedes Caputo,
professora da Faculdade de Educa��o da Uerj, e
reflete a forma discriminat�ria como, de uma
forma geral, a pr�tica do ensino religioso �
feita nas escolas da rede p�blica.
O livro, publicado com apoio do Aux�lio �
Editora��o (APQ 3), nasceu de uma reportagem "Os
netos de santo" para o jornal
O Dia,
em 1992, ou seja, feita h� 20 anos, quando Stela
trabalhava como jornalista. Em 1996, mestranda
da Pontif�cia Universidade Cat�lica (PUC-Rio) e
aluna da professora Vera Candau, na disciplina
"Cotidiano Escolar: quest�es de ra�a, g�nero e
viol�ncia", Stela voltou ao terreiro. Para sua
surpresa, algumas das fotos que usara na mat�ria
de
O Dia haviam ilustrado uma outra
reportagem, de p�gina inteira, no jornal
evang�lico Folha Universal. O t�tulo sintetizava
o teor e o tom do texto: "Filhos do Dem�nio".
Milhares de jornais com as fotos de Tauana dos
Santos e Ricardo Nery, um menino de quatro anos
que j� naquela idade tocava um atabaque como
poucos adultos, foram espalhados pela Baixada
fluminense e por outras regi�es do estado. �
reportagem se seguiu a 13� edi��o do livro
Orix�s,
caboclos e guias � deuses ou dem�nios,
escrito pelo bispo Edir Macedo e mais uma vez
reproduzindo as fotos das crian�as. Nem �
preciso dizer que a publica��o resultou em
v�rios epis�dios de discrimina��o. Mas tomar
conhecimento de tudo isso tamb�m fez com que
Stela se decidisse a analisar mais profundamente
o assunto em sua tese de doutorado.
"N�o tenho religi�o, mas defendo radicalmente o
direito de qualquer pessoa de professar sua f�,
ou nenhuma f�", declara a autora. Para defender
sua tese e escrever o livro
Educa��o nos
terreiros, Stela frequentou terreiros e
escolas da rede p�blica, conversou com crian�as
e suas m�es, entrevistou m�es de santo e
professores de ensino religioso das escolas da
regi�o para mostrar um quadro bastante real de
como, na maioria dos casos, essas escolas
repetem o mesmo olhar discriminat�rio que
prevalece na sociedade quando o assunto s�o as
religi�es de matrizes africanas. Nas aulas de
ensino religioso, facultativas na grade escolar,
a ideia � abordar os aspectos culturais de todas
as religi�es, do juda�smo ao islamismo, do
espiritismo ao catolicismo, das religi�es
neopentecostais �s afro-brasileiras. Tudo isso
sem proselitismo ou catequese.
| �Stela Guedes |
��  |
��� Aos quatro anos,
Ricardo Nery�������� ��
��� ��j� batia atabaque, como og�
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Mas n�o � o que acontece nas escolas que a
autora visitou. Muitos professores da disciplina
s�o neopentecostais ou cat�licos, o que na
maioria dos casos significa limitar as aulas
apenas a essas duas abordagens. Sobre as
religi�es afro-brasileiras, apenas um enorme
sil�ncio. Uma das professoras de religi�o
entrevistadas admitiu que selecionava os textos
para suas aulas, procurando o que havia de comum
entre catolicismo e religi�es neopentecostais. �
pergunta se sabia que tinha alunos de religi�es
de matriz africana, ela apenas explicou: "Claro
que sei. Mas eles leram o texto que passei,
viram que estavam errados e vieram para o
catolicismo."
Situa��es como essas costumam fazer com que
alunos praticantes do candombl� omitam sua
religi�o, declarando-se cat�licos, escondam
marcas e guias religiosos. Expor-se como adeptos
do candombl� quase sempre significa ser chamado
pelos demais estudantes de macumbeiro, no
sentido pejorativo, ouvir declara��es que
desclassificam sua religi�o. Humilha��es que
levaram Luana, uma outra crian�a que tamb�m fez
parte da pesquisa, a certa altura da
adolesc�ncia declarar a Stela: "Quero ser
crente. Na escola, s� gostam dos alunos
crentes."
No caso de Ricardo Nery, cujo depoimento come�a
na segunda orelha do livro, � ele mesmo quem
conta: "Sou a crian�a da contracapa. Senti o
preconceito desde muito cedo. (...) O efeito da
mat�ria publicada na Folha Universal foi
arrasador. Me senti exclu�do por muitos amigos
do col�gio onde estudava e essa � uma fase da
inf�ncia que procuro at� hoje esquecer", declara
o og� de Xang�, fun��o que, com orgulho, ocupa
at� hoje, aos 24 anos, no terreiro de M�e
Palmira, em Mesquita, na Baixada fluminense.
"Nesses 20 anos que levei na pesquisa, n�o vi
nenhuma mudan�a de comportamento, seja de maior
toler�ncia religiosa ou de uma diminui��o no
racismo. Acho que a discrimina��o � profunda,
que ou invizibiliza o que � diferente, n�o
enxerga negros ou praticantes de candombl�, ou
enxerga e discrimina. O que s�o apenas formas
diferentes de preconceito", esclarece Stela. Ela
viu que, no espa�o da escola, a maioria das
crian�as se diz cat�lica. "N�o � culpa delas.
Professores que s�o de candombl� tamb�m s�o
discriminados. Recentemente, uma professora da
rede p�blica foi proibida de usar em suas aulas
o livro
Lendas de Exu, tamb�m da
Editora Pallas, com que procurava mostrar �s
crian�as a mitologioa africana. H� muito
obscurantismo. Afinal, na escola, est�o
presentes as mesmas tens�es, o mesmo racismo
existentes na sociedade."
Apesar de toda essa discrimina��o, pelo que
Stela p�de observar, n�o houve, entre as
crian�as, quem se afastasse do candombl� nesses
20 anos. Pelo contr�rio. "No candombl�, elas t�m
um aprendizado muito rico, e gostam muito disso.
Nos terreiros n�o h� crian�as infelizes. Nunca
vi ningu�m carregando � for�a uma crian�a para o
terreiro, obrigando a freq�entar. S� permanece
quem quer. Elas ficam tristes � na escola, com a
discrimina��o por que passam", pondera Stela.
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�Divulga��o
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��� Stela Guedes
Caputo: 20 anos de
���� pesquisas�em terreiros e escolas
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Segundo a autora, seu livro, que est� sendo
lan�ado na Uerj esta semana, vem tendo boa
aceita��o, embora reconhe�a, que �s vezes, entre
acad�micos, o tema seja visto com certa
desconfian�a. "Tem gente que torce o nariz. At�
j� me perguntaram o que candombl� tem a ver com
educa��o. Mas o candombl� � uma religi�o que tem
muito a ensinar�� educa��o. Educa��o como rede
de conhecimento, em que as crian�as aprendem a
l�ngua
yorub�, conhecem os mitos, as
ervas, s�o ensinadas sobre o respeito �
natureza. Tudo isso � um conhecimento
importante. � tamb�m uma religi�o que n�o
discrimina ningu�m por ra�a, por orienta��o
religiosa ou sexual, nem as fam�lias formadas a
partir disso. Aprender conte�dos � importante na
escola, mas, para mim, aprender a n�o ser
racista, n�o discriminar religi�es ou a
ser�homof�bico, por exemplo, � um�aprendizado
mais importante do que�matem�tica, portugu�s,
qu�mica. E � isso que o candombl� faz."
Para Stela, toda essa discuss�o tem que fazer
parte do curso de forma��o de professores, que �
onde se forma aqueles que ensinam. "Tamb�m acho
que n�o pode haver ensino religioso em escolas
p�blicas. A religi�o � bem-vinda na escola, mas
� mais um desafio ao professor reconhecer as
diferen�as, aprender a conviver. O que n�o se
precisa � de uma disciplina de ensino religioso,
com hegemonia cat�lica e neopentencostal",
critica.
Enquanto n�o h� mudan�as vis�veis por este lado,
a pesquisadora percebeu transforma��es bastante
palp�veis do outro. "Vejo isso no comportamento
de alguns adeptos do candombl�. Crian�as que, no
in�cio, n�o queriam ser identificadas, com medo
da discrimina��o, no decorrer desses anos,
mudaram o comportamento. Passaram a de assumir
mais, a militar nos movimentos sociais, sem
vergonha de sua cor nem de sua cultura." Tauana
� uma delas. Se no come�o da pesquisa, preferia
ser identificada como Michele, agora afirma com
orgulho: "Sou ekedi, que � a minha fun��o no
terreiro, sou negra, tenho cabelo crespo e sou
percussionista do grupo Orumil�." E quando a
pesquisadora pergunta o que a ajudou a mudar, se
foi a escola, ela responde de imediato: "N�o,
pelo contr�rio. Se dependesse da escola, eu
continuaria com vergonha da minha cultura e da
minha cor. O que ajudou mesmo foram os
movimentos negros e, claro, o terreiro."