Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Agricultura e do Planejamento
A medida preliminar adotada pelo governo em relação à caderneta de poupança foi muito bem-feita. Ela traz tranquilidade aos depositantes e desobstrui o caminho para o Banco Central continuar com sua cuidadosa política de redução da Selic até trazer a taxa de jurosreal do Brasil ao nível internacional. Alguns analistas do cenário econômico, talvez um pouco mais excitados do que habitualmente, enxergaram os sinais de uma crise entre os bancos e o governo que não prosperou e afinal se limitou a alguns "muxoxos" deselegantes.
É sempre bom sinalizar que o nosso sistema bancário é hoje reconhecido como um dos mais hígidos, ágeis e seguros do mundo. Sua construção, desde a crise de 1997, custou 4% do PIB brasileiro, mas dispomos hoje de sofisticados mecanismos de intermediação financeira que rivalizam com os melhores de planeta graças à ação enérgica do Banco Central e de seu amplo espectro de fiscalização. Os spreads bancários continuam sendo os maiores do mundo, mas tanto o Ministério da Fazenda como o próprio BC estão analisando junto com os bancos os caminhos para reduzi-los a níveis razoáveis.
O regime da nova caderneta teve início em 04 de maio e os depositantes não se deixaram impressionar pela "aritmética terrorista" de que haveria perdas na poupança. A compreensão é que as mudanças não mexem na remuneração da antiga caderneta. Tudo aquilo que o depositante tinha até o dia 4/05 na caderneta continua recebendo a mesma remuneração e tem a mesma segurança e liquidez que sempre teve. A nova caderneta de poupança é que vai render 70% da Selic + TR, mas isso não tem nada a ver com o que o depositante já tem lá na poupança. Se o governo tiver sucesso (como estou certo que terá) vai reduzir a taxa de juros que as pessoas estão pagando nas compras do automóvel, da geladeira, do fogão ou nas prestações da viagem.
Essa taxa de juros vai cair, portanto a dívida vai ter uma taxa de juros menor, mas o patrimônio que o depositante tem na poupança vai ter o mesmo rendimento. No final, vamos pagar menos nas compras por conta da baixa da taxa de juros que o governo está perseguindo: vai sobrar dinheiro que poderá ser usado aplicando na caderneta de poupança nova, ou consumindo. Quer dizer, foi uma medida do governo muito bem-feita, inteligente, muito bem estudada. Não há o menor risco de alguém ser prejudicado por conta disso. Pelo contrário: melhora a situação de todos ou deixa igual.
O dinheirinho da caderneta antiga permanece lá, firme, líquido e certo, rendendo a mesma coisa que rendia no passado. Os depósitos da caderneta nova é que terão uma nova posição de remuneração: 70% da Selic mais a TR. Ninguém precisa se assustar porque ela não será muito diferente da remuneração que a poupança oferece hoje. Ainda assim, essa remuneração menor só se efetivará quando a taxa Selic cair abaixo de 8,5% ao ano. É preciso, portanto, estar prevenido e não acreditar que o governo tenha feito qualquer coisa que perturbe o rendimento, a segurança ou a liquidez da caderneta de poupança.
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