CARTA CAPITAL / Antonio Luiz M. C. Costa : Tempestade à vista

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arthur garbayo

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May 21, 2012, 12:25:06 PM5/21/12
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Tempestade à vista
Revista Carta Capital - 21/05/2012
Europa – França e Alemanha custam a se entender, enquanto a crise se acelera na Grécia e na Espanha
Por Antonio Luiz M. C. Costa

Foi bonita a festa da posse de François Hollande em 15 de maio, apesar da chuva que o obrigou a trocar duas vezes de terno enquanto insistia em usar carro aberto e cumprimentar os cidadãos.

Como se fosse preciso outro aviso das tempestades que o aguardam, um raio atingiu o avião que o levava a Berlim e o forçou a retornar a Paris para trocar de aeronave, atrasando em mais de uma hora o primeiro encontro com Angela Merkel.

Quase ao mesmo tempo, o porta-voz do presidente grego Karolus Papoulias anunciou o fracasso das negociações para formar um novo governo e a necessidade de convocar novas eleições, marcadas no dia seguinte para 17 de junho, a mesma data do segundo turno das eleições parlamentares francesas. O governo interino será liderado pelo juiz (sem partido) Panagiotis Pikrammenos, ex-presidente do Conselho de Estado, órgão que assessora juridicamente o governo e funciona como Tribunal Supremo administrativo.

Nas eleições de 6 de maio, a Nova Democracia (conservador) e o Pasok (social-democrata) somaram 149 votos, dois a menos que a maioria. Em tese, bastariam os 19 deputados do Esquerda Democrática, o menor e mais moderado dos partidos contra a Troika no Parlamento, para articular um governo. Mas este se recusou a aceitar tanto as coalizões tradicionais propostas pelos líderes dos partidos pró-acordo quanto o governo "tecnocrático" de notáveis sugerido pelo presidente Papoulias se o Syriza (Esquerda Radical), do qual é uma dissidência, também não participasse. Seria um suicídio político, pois esse governo sem projeto viável ou apoio popular certamente fracassaria, o que seria mais uma catástrofe para os sócios maiores e a aniquilação para um partido pequeno e sem tradição.

O Syriza, segundo colocado nas eleições de 6 de maio, está à frente em todas as pesquisas publicadas desde o dia 10, mesmo com um leve crescimento do Nova Democracia (à custa do Pasok e dos partidos menores). Pelos números atuais, tampouco conseguiria formar um governo. Representa melhor, porém, a rejeição da maioria do povo grego ao acordo, bem como a resistência à ameaça alemã de expulsar seu país da Zona do Euro. E suas propostas, mesmo tachadas de radicais pelos representantes do sistema financeiro europeu e pelos partidos gregos tradicionais, coincidem com o que muitos analistas moderados do outro lado do Atlântico julgam sensato.

Euclides Tsakalotos, economista da Universidade de Atenas que é deputado do Syriza e principal assessor econômico do líder Alexis Tsipras, afirma que a arquitetura financeira da União Europeia é desfavorável a economias periféricas como a da Grécia e esta não é um caso excepcional entre os demais PIIGS, que também desmoronarão se essa estrutura não for reformada a fundo. A análise coincide, no essencial, com a dos prêmios Nobel Joseph Stiglitz e Paul Krugman, bem como as de outros economistas respeitados.

A aposta do Syriza é que, apesar das ameaças, a Alemanha e a Troika farão concessões substanciais para evitar uma ruptura grega que contaminaria Espanha, Itália e Portugal de forma incontrolável e levaria ao colapso do euro – e um custo de 5% do PIB ou 1 trilhão de euros para aos países da união monetária, segundo o Centre for Economic and Business Research (reduzidos a 300 bilhões se a saída for ordeira). É a tese de John Maynard Keynes: "Se você deve ao banco mil libras, o problema é seu; se você deve 1 milhão de libras, o problema é do banco". E apavora o ex-vice-primeiro-ministro Theodoros Pangalos, do Pasok: "Estou com muito medo. Há uma corrente que aponta que os alemães estão blefando. Mas o que ocorrerá é que eles não darão dinheiro para que paguemos nossas dívidas. Temos até junho antes de ficarmos sem dinheiro. Você acha que um alemão vai dar dinheiro a alguém que tenta imitar Chávez?", perguntou ao jornalista do britânico Sunday Telegraph.

Mas e os alemães também não blefam? Alardeiam que a crise já dura mais de um ano e os bancos tiveram tempo de se proteger, desfazer-se dos papéis gregos e assim por diante. Mas devem saber que não é suficiente. A estatização às pressas do Grupo Bankia mostrou que o setor bancário espanhol está bem mais frágil do que se supunha. O relatório do BBVA às autoridades do mercado de capitais dos EUA afirma que as tensões nos mercados financeiros europeus "alcançaram níveis superiores aos registrados após a falência do Lehman Brothers", em setembro de 2008. Os bancos espanhóis devem 263 bilhões de euros ao BCE, ante 42 bilhões em abril de 2011 e, só em provisões para perdas com ativos imobiliários, precisam de mais 22 bilhões. Todos, inclusive Santander e BBVA foram fortemente rebaixados pela agência Moodys em 17 de maio e o Bankia perdeu mais 1 bilhão em depósitos desde a intervenção.

É evidente que a situação da Europa é pior do que há um ano e que deixar a Grécia quebrar aumentará o risco de o mesmo ocorrer a Portugal, Espanha e até Itália. O Syriza tem razão ao menos nesse aspecto: o caso da Grécia é mais urgente, talvez mais grave, mas não é excepcional. É questão de tempo até que outros países deslizem para situação semelhante, inclusive quanto à radicalização política. Os programas de austeridade, longe de afastarem o perigo, apenas aceleram o processo ao agravar a retração da economia e a queda da arrecadação e ampliarem o déficit público.

Vale notar que, antes mesmo de a vitória das esquerdas ser confirmada nas eleições parlamentares francesas ou a do Syriza na Grécia, os ânimos da Europa serão testados pelo referendo na Irlanda sobre o pacto fiscal europeu, em 31 de maio. A pesquisa mais recente, divulgada em 17 de maio, indica vitória do "sim" por 37% a 24% (35% indecisos), mas muito depende dos acontecimentos nas próximas semanas. Não se sabe sequer se o colapso da Grécia poderá ser adiado até lá. A fuga de capitais de 6 a 15 de maio foi de 5 bilhões de euros, ritmo que pode quebrar seus bancos em questão de dias. Paul Krugman prevê o rompimento com o euro em junho, o mais tardar.

O encontro de Hollande com Merkel não deu sinais de que os dois líderes da Zona do Euro estejam prestes a concordar sobre a maneira de lidar com a emergência. Marcaram as respectivas posições. Hollande reafirmou a disposição de rediscutir o pacto fiscal e a criação de títulos europeus e Merkel sua absoluta oposição a essas propostas. Aceitaria apenas medidas complementares de "incentivo ao crescimento" no longo prazo, que não dizem respeito às questões concretas do momento. Concordaram em respeitar a convocação de novas eleições e as escolhas do povo grego – até porque seria contraproducente agir de outro modo – e expressar "interesse" em que o país permaneça na Zona do Euro.

Alguém vai ceder? Por enquanto, só o pensamento desejoso tem respostas. Analistas do mercado financeiro acreditam piamente que Hollande faz um jogo de cena e se renderá a Merkel assim que se fechem as urnas das eleições parlamentares. Assim escreve, por exemplo, Peter Coy, editor de economia da Bloomberg Businessweek: "Hollande é um tecnocrata cordial, deverá avançar apenas lentamente na implementação das promessas demagógicas que fez durante a campanha e governará a partir do centro. Em parte por opção própria e em parte devido às circunstâncias: a situação financeira da França é precária demais para permitir que ignore os déficits e se arrisque a romper com a Alemanha. Hollande será obrigado a fazer mais ou menos o que Nicolas Sarkozy fez: tranquilizar os mercados e agradar a Merkel". Mais que isso, aposta que Hollande, por vir da esquerda, convencerá os sindicatos franceses a concordar com reformas trabalhistas que não aceitaram de Sarkozy.

Immanuel Wallerstein, sociólogo estadunidense crítico do capitalismo e da globalização, aposta no oposto: "Os alemães estão sob uma pressão enorme. O descontentamento interno impôs perdas ao partido conservador de Merkel e seu aliado liberal. A vitória de Hollande encorajou os social-democratas da Europa a se moverem para a esquerda. Há também, o que é estranho, mas importante, uma pressão dos EUA para a Alemanha se mover na direção proposta por Hollande.

Merkel, como qualquer bom líder político, tenta sentir para onde o vento sopra. Sua linguagem, portanto, começou a evoluir. Ela talvez até acolha bem a pressão de fora para fazer o que é sensato para a própria Alemanha e fortalecer o poder de compra (de produtos alemães, entre outros) do restante da União Europeia". E conclui que a Alemanha pode abandonar sua inflexibilidade.

Os dois raciocínios soam plausíveis. Mas o primeiro esquece que não é só a situação financeira da França que está em jogo, mas a sobrevivência do euro, da União Europeia e da prosperidade alemã: Berlim também não pode se dar ao luxo de romper com Paris. O segundo talvez subestime a estreiteza da elite industrial e financeira alemã representada por Merkel. Mas ela acaba de ser enfraquecida por derrotas eleitorais também no próprio país.

As eleições nacionais devem ser em outubro de 2013, mas nas estaduais de Schleswig-Holstein (6 de maio), os conservadores tiveram o pior resultado desde 1950 e sua aliança manteve o governo da região por um triz. No estado mais populoso, a Renânia-Westfália (dia 13), onde tiveram 45% em 2005 e 35% em 2010, ficaram desta vez com 26%, deixando bem mais confortável a maioria antes apertada da aliança de social-democratas e verdes.

Quem pagou pela derrota foi o ministro do Ambiente, Norbert Rottgen. Já foi tido como possível sucessor de Merkel, mas acabou demitido com ênfase e sem ter a oportunidade de salvar a face e "pedir demissão". Como líder da oposição na Renânia-Westfália, fora dele a ideia de rejeitar o orçamento estadual de 2012 (em votação de 14 de março), forçar nova eleição e liderar a campanha, esperando recuperar a maioria local perdida na disputa de 2010.

O governo reiterou seu compromisso com a austeridade, mas os social-democratas alemães não tardaram em tirar proveito do tropeço e coordenar suas demandas com os socialistas franceses. Rejeitaram o plano de Merkel de enviar o pacto fiscal ao Parlamento em 25 de maio e aprová-lo em junho e condicionaram o apoio a medidas complementares, incluindo o imposto sobre transações financeiras e um programa de crescimento e emprego. Como a ratificação exige dois terços do Parlamento e o governo conta com apenas 53%, não terá alternativa a não ser negociar com sua oposição – e, por tabela, com o novo governo francês. O pacto deveria entrar em vigor em 1º de julho e permitir a criação do Mecanismo de Estabilização Financeira (MEF), que administraria 700 bilhões de euros sem fiscalização parlamentar, substituindo os acordos emergenciais usados até agora na Grécia, Irlanda e Portugal.

Mais uma vez, planos e cronogramas serão fúteis se a Grécia quebrar. E uma vez que os gregos rejeitaram o não-futuro oferecido pela Alemanha, de uma década ou mais de depressão sem perspectivas, não resta um caminho do meio. Se os alemães cumprirem a ameaça, a Grécia não terá como pagar funcionários em euros. Terá de abandonar desordenadamente a moeda e trocar um desespero sem fim por uma crise aguda seguida de uma possível recuperação no médio prazo, como fizeram a Argentina e a Islândia.

Não se sabe que partido grego teria a ganhar com isso, se o Syriza, apesar de perder sua aposta, ou mesmo os temíveis neonazistas. Para o restante da Europa também seria uma roleta-russa de resultados imprevisíveis. Ninguém pode afirmar se o sistema financeiro e os demais países endividados evitarão a quebradeira, ou se o euro sobreviverá. O premier britânico, David Cameron, ao discutir a questão no Parlamento em 16 de maio, pareceu cético – e culpou Merkel por alimentar a especulação com suas ameaças.

Se, pelo contrário, Merkel e a Troika recuam ante o risco de uma quebradeira europeia generalizada e promovem um Plano Marshall para a Grécia, terão de fazer o mesmo pelos outros países em apuros e mudar radicalmente a política econômica. O Syriza, pequeno partido de um país falido, ganhar a queda de braço com a poderosa elite alemã? Talvez seja a salvação da União Europeia no médio prazo, mas também uma catástrofe política para as forças que a comandaram nos últimos anos. Soa utópico esperar isso do atual governo alemão. E quando for substituído, provavelmente será tarde demais.


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Para ter mais informação acesse estes portais:  www.desenvolvimentistas.com.br e http://www.joserobertoafonso.ecn.br/


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