DEPOIS
DA TV, CORDEL GANHA A MARQUÊS DE SAPUCAÍ
Dizem que no
Brasil, tudo acaba em samba... Acabava! Agora acaba tudo em cordel. 90% dos
encartes de lojas que circularam agora em junho aqui em Fortaleza usaram a
gravura popular (de capas de folhetos) como principal ilustração. Até anuncios
da TV seguiram a mesma trilha.
É sempre bom
ver a cultura nordestina em destaque, sendo reconhecida em outros recantos do
país. Depois que a
Rede Globo lançou a novela Cordel Encantado é a vez de uma
grande escola de samba do Rio de Janeiro (a Acadêmicos do Salgueiro) aproveitar
o tema para o desfile de 2012. No entanto, essa badalação enorme que se criou em
torno da Literatura de Cordel às vezes me anima e às vezes me preocupa. Para
quem lê cordel desde a infância e conhece essa arte como a palma da mão, tais
manifestações às vezes soam falsas e meio pasteurizadas. A intenção pode ser
boa, mas o cordel com a sinopse do tema, que irá inspirar os
compositores na elaboração do samba-enredo da Acadêmicos do Salgueiro mistura,
equivocadamente, o linguajar matuto (que não é utilizado pelo verdadeiro
cordelista) com métrica claudicante e rimas duvidosas. É uma simbiose de
Patativa do Assaré com o samba do crioulo doido. Passa é longe da arte de José
Camelo de Melo, Leandro Gomes de Barros e José Pacheco da Rocha. Quantas vezes
vou ter ainda que repertir que CORDEL é uma coisa e POESIA MATUTA é
outra?
Sinceramente, versos
como "um cadim de inspiração" doem no ouvido. E
TROVA rimando com EUROPA é de fazer o velho Manoel D'Almeida Filho
se remexer na tumba! Outra coisa, ví xilogravuras de J. Borges, Costa Leite,
Dila e outros artistas compondo o cenário (que por sinal está belíssimo)... Será
que esses artistas populares nordestinos receberam alguma coisa de direito
autoral? Afinal de contas, o carnaval carioca é um negócio altamente lucrativo,
que movimenta cifras astronômicas. Não custa nada deixar uma moedinha cair na
cuia do ceguinho cantador de feira, não é mesmo?
Salgueiro 2012
(Cheio de poesia, imaginação e
encantamento)
Minha "fia", meu senhor
Deixa eu me apresentar
Sou
poeta e meu valor
Vai na avenida passar
Basta imaginação
Um "cadim" de
inspiração
Que eu começo a versar
Vou cantar a minha arte
Que
nasceu bem lá distante
Num lugar que hoje é parte
Da nossa origem
errante
Vim das bandas da Europa
Nas feiras, a boa trova
Era demais
importante!