Dica de leitura : " Capitalismo coronário" ( Kenneth Rogoff, professor de Harvard e ex economista-chefe do FMI)
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Mauricio David
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Feb 7, 2012, 1:16:31 PM2/7/12
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Interessante artigo do Kenneth Rogoff ( da Harvard University, ex
economista-chefe do FMI) comparando a crise econômica global a um artigo
cardíaco ( " a insalubre dinâmica política-regulatória-financeira que levou a
economia global ao ataque cardíaco de 2008"). " Precisamos desenvolver instituições
novas e muito melhores para proteger os interesses a longo prazo da sociedade",
é a proposição do economista de Harvard.
A
ampla e sistemática falha da regulamentação é o elefante na loja de louças
quando se fala em reformar o capitalismo ocidental de hoje. Sim, muito foi dito
sobre a insalubre dinâmica política- regulatória-financeira que levou a economia
global ao ataque cardíaco de 2008 (iniciando o que Carmen Reinhart e eu chamamos
de "A segunda grande contração"). Mas o problema é exclusivamente do setor
financeiro ou ele exemplifica uma falha mais profunda do capitalismo ocidental?
Considere a indústria alimentícia, particularmente sua às vezes maligna
influência sobre a saúde e a nutrição.
As taxas de obesidade estão subindo em
todo o mundo, embora, entre os grandes países, o problema seja talvez mais grave
nos Estados Unidos.
Segundo o Centro para Prevenção e
Controle de Doenças dos EUA, cerca de um terço dos adultos americanos são obesos
(ou seja, têm índice de massa corporal acima de 30). Ainda mais chocante, mais
de um sexto de crianças e adolescentes estão obesos, uma taxa que triplicou
desde 1980. (Transparência: minha mulher produz programas na TV e na internet,
cujo objetivo é combater a obesidade infantil.) Obviamente, os problemas da
indústria alimentícia foram vigorosamente destacados por especialistas em
nutrição e saúde, incluindo Michael Pollan e David Katz, e certamente por muitos
economistas também.
E há numerosos outros exemplos, dentro
de uma ampla variedade de bens e serviços, em que se podem achar questões
similares. Aqui, contudo, quero focalizar na ligação entre a indústria
alimentícia e problemas mais amplos do capitalismo contemporâneo (que certamente
facilitaram a explosão de obesidade mundial), e em por que o sistema político
americano devotou notavelmente pouca atenção a esse fato (embora a primeira-
dama Michelle Obama tenha feito um esforço importante para aumentar a
consciência sobre isso).
A obesidade afeta a expectativa de vida
de numerosas formas, que vão de doença cardiovascular a alguns tipos de câncer.
Além disso, a obesidade - certamente em manifestações mórbidas - pode afetar a
qualidade de vida. Os custos não só sobre o indivíduo, mas também sobre a
sociedade - diretamente, através do sistema de saúde, ou indiretamente, via
perda de produtividade, por exemplo, e custos mais elevados de transporte (mais
combustível para jatos, assentos maiores etc.).
Mas a obesidade epidêmica dificilmente
se parece com um assassino de crescimento. Produtos alimentícios baseados no
milho e com muitos aditivos químicos são reconhecidamente um dos maiores
indutores do ganho de peso; mas, de uma perspectiva convencional de
contabilidade de crescimento, são uma grande coisa.
O agronegócio é pago para
cultivar o milho (frequentemente subsidiado pelo governo), e os processadores de
alimentos são pagos para adicionar toneladas de químicos para criar um produto
formador de hábito - desta forma, irresistível. Ao longo do caminho, cientistas
são pagos para descobrir a melhor mistura de sal, açúcar e químicos para tornar
o último alimento instantâneo viciante ao máximo; publicitários são pagos para
criar interesse em torno dele; e a indústria farmacêutica faz uma fortuna
tratando das doenças que dele inevitavelmente resultam.
O capitalismo coronário é fantástico
para o mercado acionário, que inclui companhias de todas essas
indústrias.
Alimentos altamente processados são
bons também para criação de empregos, incluindo os de ponta em pesquisa,
propaganda e saúde.
Então, quem pode se queixar? Certamente
não os políticos, que se reelegem quando há emprego abundante e valorização das
ações em bolsa - e recebem doações de todas as indústrias que participam da
produção de alimentos processados. De fato, nos EUA, políticos que ousam falar
sobre as implicações dos alimentos processados para saúde, ambiente e
sustentabilidade em muitos casos descobrem que não receberam fundos para a
campanha.
É
verdade, as forças do mercado impulsionaram a inovação, que tem continuamente
barateado o preço dos alimentos processados, embora o das velhas e simples
frutas e verduras tenha subido. Este é um ponto justo, mas negligencia a enorme
falha do mercado.
Os consumidores recebem muito pouca
informação preciosa de escolas, bibliotecas ou campanhas de saúde; ao invés, são
inundados de desinformação via propaganda. As ações são particularmente
alarmantes para as crianças. Com pouca verba para TV pública de alta qualidade
na maioria dos países, as crianças são cooptadas por canais sustentados pela
publicidade, inclusive da indústria alimentícia.
Para além da desinformação, os
produtores têm pouco incentivo para absorver os custos do dano ambiental que
causam. Igualmente, os consumidores têm pouco incentivo para absorver os custos
médicos de suas escolhas alimentares.
Se nossos problemas fossem apenas a
indústria alimentícia causar ataques cardíacos e a indústria financeira causar
seu equivalente econômico, já seria ruim o bastante. Mas a patológica dinâmica
regulatória-política- econômica que caracteriza essas indústrias é muito mais
ampla.
Precisamos
desenvolver instituições novas e muito melhores para proteger os interesses a
longo prazo da sociedade.
É claro que o equilíbrio entre a
soberania do consumidor e o paternalismo é sempre delicado. Mas certamente
poderíamos começar a obter um equilíbrio mais saudável que o que temos dando ao
público mais e melhor informação através de diversas plataformas, de forma que
ele pudesse fazer escolhas políticas e de consumo mais conscientes.