Dica de leitura : "Claude Lévy-Strauss : O Poeta no Laboratório", de Patrick Wilcken, Editora Objetiva) - uma trajetória intelectual do grande antropólogo francês

1 view
Skip to first unread message

Mauricio David

unread,
Feb 10, 2012, 5:57:23 PM2/10/12
to master...@googlegroups.com
 

 

O mitólogo

Artista manqué e manipulador de narrativas, Lévi-Strauss foi um grande escritor na arte da retórica

por Perry Anderson

·        

O antropólogo mais famoso do século XX poderia intimidar qualquer candidato a biógrafo. Claude Lévi-Strauss, que morreu há dois anos, negava que sua pessoa tivesse qualquer interesse. Dizia que lembrava pouco de seu passado e tinha a sensação de que não havia escrito os próprios livros. Segundo suas palavras, ele era apenas uma “encruzilhada passiva” onde “coisas aconteciam”: “Eu nunca tive, e ainda não tenho, a percepção de sentir minha identidade pessoal. Eu me vejo como o lugar onde alguma coisa está acontecendo, mas não existe um ‘eu’.”

Essas afirmativas tampouco eram meras confissões pessoais. Seu sistema intelectual baseava-se numa rejeição radical da significação do sujeito e até mesmo de sua realidade. Essa dupla barreira seria obstáculo suficiente para uma biografia. Mas há outro obstáculo, ainda mais difícil: paradoxalmente, Lévi-Strauss é também autor de um livro de memórias, Tristes Trópicos, uma obra-prima literária incontestável, na qual ele definiu as experiências que considerava decisivas de sua vida. Quem poderia fazer melhor? Com certeza, nenhum cronista convencional. Na cultura francesa, onde há muito tempo a arte da biografia é notoriamente fraca, a única tentativa de traçar um retrato de corpo inteiro do antropólogo, feita por Denis Bertholet em 2003, é testemunho suficiente dessa deficiência.

Patrick Wilcken desafiou todas as dificuldades. Claude Lévi-Strauss: O Poeta no Laboratório, publicado pela editora Objetiva, é ao mesmo tempo uma biografia e um estudo crítico do pensador do mais alto nível. Gracioso e vívido como narrativa, é também um modelo de apreciação intelectual. Livre tanto do impulso reverencial como da tentação de desmascarar, Wilcken produziu um relato maravilhosamente tranquilo e lúcido da vida e do pensamento de seu biografado.

 

 história que ele conta pode ser dividida em cinco partes. Nascido em 1908, filho de um pintor – que logo ficou démodé– e apreciador de música, Lévi-Strauss foi um socialista militante em sua juventude. Atraído pelas artes, formou-se em filosofia numa época de fermento vanguardista e ausência de fronteiras disciplinares rígidas. Seu primeiro artigo publicado foi sobre Babeuf, o precursor do comunismo, e sua dissertação, sobre o marxismo. Aos 26 anos, era professor de um liceu provincial quando lhe ofereceram subitamente a oportunidade de se juntar a um pequeno grupo de estudiosos franceses, do qual fazia parte Fernand Braudel, que iria dar aulas na recém-fundada Universidade de São Paulo. O patrono deste convite foi seu ex-orientador, o sociólogo Célestin Bouglé, colaborador de Émile Durkheim, e a matéria que escolheu para lecionar em São Paulo foi sociologia.

Mais tarde, ele iniciaria Tristes Trópicos, com as célebres palavras: “Odeio as viagens e os exploradores.” Mas isso era pura provocação. Entediado e inquieto na França, como muitos intelectuais de sua geração (André Malraux e Paul Nizan já tinham feito seus nomes com façanhas no exterior), Lévi-Strauss confessou honestamente em entrevista a Didier Eribon: “Eu estava em um estado de excitação intelectual intensa. Sentia-me revivendo as aventuras dos primeiros viajantes do século XVI. Por minha conta, descobria o Novo Mundo. Tudo me parecia fabuloso: as paisagens, os animais, as plantas.”

 

Nesse ponto, Wilcken, autor de um belo estudo sobre a corte portuguesa no Rio de Janeiro, tem a enorme vantagem de ter um conhecimento profundo do país em que Lévi-Strauss desembarcou. Pela primeira vez, a experiência que o transformou em antropólogo é contextualizada de forma mais adequada. Na França, a sociologia de Durkheim, e depois a de Mauss, tratava indiferentemente de sociedades modernas e “primitivas” – isto é, pré-letradas –, de um modo que o trabalho de mentalidade mais histórica de Weber ou Sombart na Alemanha não se permitia. A etnologia era mais um campo frouxo da sociologia do que uma disciplina distinta. Desse modo, o estudo de tribos locais era, em certo sentido, o caminho óbvio para Lévi-Strauss, se ele quisesse capitalizar seu tempo no Brasil para avançar sua carreira na França. Também se sentia atraídopelas artes – não demorou para que ele e sua esposa passassem a frequentar a roda em torno de Mário de Andrade, poeta líder do Brasil modernista, de quem o casal se tornou amigo – e alimentava ambições políticas – embora indiferentes à cena local, onde um levante comunista explodiu após sua chegada e uma ditadura modelada nos regimes de Salazar e Mussolini se instalou não muito tempo depois. Em 1936, quando a Frente Popular chegou ao poder na França, ele ficou decepcionado por não ser chamado pelo Ministério socialista. Foi então que decidiu abandonar a ideia de uma carreira política. A exploração etnográfica do interior do Brasil tornou-se a alternativa.

 

inte anos mais tarde, com a publicação de Tristes Trópicos, as incursões aos kadiwéu, bororo e nambikwara se tornaram lendárias. A reconstrução meticulosa que Wilcken faz dessas incursões, objetiva mas nunca insensível, mostra a realidade. Pelos padrões contemporâneos, foram visitas breves, itinerantes, que envolveram tanto um trabalho de conjectura quanto de pesquisa de campo, num sentido moderno. Pouco familiarizado com o português, Lévi-Strauss não conhecia nenhuma língua indígena e não passou muito tempo com qualquer dos grupos nativos que encontrou. Tampouco sua expedição principal, em 1938, teve alguma semelhança com a peregrinação solitária implicitamente sugerida por seu livro de memórias. Nas palavras de Wilcken:

Quando o grupo e os equipamentos foram finalmente reunidos em campos dos arredores de Cuiabá, os animais de carga, as caixas, os sacos e as selas, os homens barbudos de calções folgados de algodão e botas de couro pareciam mais uma feira ambulante de interior do que uma expedição científica. Nas páginas de Tristes Trópicos, esse grande elenco de apoio muitas vezes desaparece no fundo da cena. Na realidade, a expedição da serra do Norte estava tão longe do padrão etnográfico de Malinowski – o solitário do início do século xx que aprendia meticulosamente a língua local e mergulhava em sua cultura – quanto possível. Em contraste com a jornada conradiana aos extremos da humanidade, na maior parte do tempo, o séquito de Lévi-Strauss era mais numeroso do que os nativos que ele tentava estudar.

Mas o tom de Wilcken não é reprovador. Quaisquer que sejam suas falhas, a expedição não foi somente complicada e perigosa, mas produtiva, fornecendo a Lévi-Strauss uma quantidade de hipóteses imaginativas que lhe seriam muito úteis quando chegou ao seu verdadeiro campo de pesquisa, milhares de quilômetros longe dos arbustos ou da selva.

De volta à França na primavera de 1939, com 30 anos recém-completados e o cérebro ainda ocupado com o que tinha visto, estava tão despolitizado que não percebeu a iminência da guerra na Europa, nem se deu conta das realidades da vitória nazista e do governo colaboracionista de Vichy: em 1940, tentou – e felizmente não conseguiu – voltar para a Paris ocupada como professor, quando os judeus já estavam em risco. Demitido pelo regime de Pétain, teve o visto de regresso ao Brasil negado, mas conseguiu um convite da New School for Social Research de Nova York, e (ajudado pelas conexões de uma tia rica nos Estados Unidos) partiu de Marselha em um navio onde estavam, entre outros refugiados, André Breton e Victor Serge, aventura retratada em um dos episódios mais saborosos de Tristes Trópicos. Ao chegar finalmente a Nova York, Manhattan foi, nas palavras de Wilcken, mais do que o Mato Grosso, “seu verdadeiro choque cultural”.

Ali, em meio a uma comunidade de expatriados franceses bem maior do que a de São Paulo, ele se incorporou ao ambiente vanguardista dos surrealistas – Max Ernst, Yves Tanguy, André Masson, Roberto Matta, para não falar do próprio Breton – para os quais a antropologia e a psicanálise eram as chaves para as fontes inconscientes da existência. Ele havia pintado quando menino; no Brasil, começara a escrever uma peça no espírito de Corneille; na França, iniciara um romance no estilo de Conrad. Em Nova York, desistiu dessas ambições, mas aprendeu a investir a sensibilidade que estava por trás delas (agora moduladas pelo novo cenário: “Os surrealistas enriqueceram e refinaram meu gosto estético”) em formas que seriam discursivas, em vez de criativas.

 

 mudança decisiva, no entanto, veio de duas outras direções: o encontro com a riqueza empírica da etnologia americana, em grande parte reunida por Franz Boas, que ainda estava vivo em Nova York, e as perspectivas teóricas do círculo linguístico de Praga, trazidas para a América por Roman Jakobson, que se tornou seu amigo íntimo. Nada disso era conhecido na França. Enquanto dominava a primeira na Biblioteca Pública de Nova York, Lévi-Strauss absorvia a segunda, que passou a ser a estrutura fundamental de seu pensamento a partir de então.

Cerca de sete anos mais tarde – era então adido cultural francês, instalado numa mansão da Quinta Avenida – sua fusão das duas rendeu As Estruturas Elementares do Parentesco, publicado logo após seu retorno a Paris, em 1948. Nesse enorme compêndio, que procurava sistematizar em um conjunto de padrões inter-relacionados uma vasta gama de sistemas de matrimônio do mundo pré-letrado conhecido, ele sustentava que o tabu do incesto era um universal antropológico que marcava a ruptura entre a natureza e a cultura que tornava possível a sociedade humana. Embora nem todos os achados sobre os quais o livro se baseava fossem corretos, e nem todas as suas interpretações fossem sempre confiáveis, nada como as Estruturas Elementares havia sido tentado antes. Nas palavras de Wilcken: “Sua originalidade, a firmeza de suas afirmações, o senso de uma reorientação teórica há muito tempo necessária fizeram dele um ponto de referência de seu tempo.”

 

A maior parte dessa obra talvez fosse impenetravelmente técnica, mas sua tese central era de fácil compreensão, por incrível que pareça. Demoraria algumas décadas para que sua premissa básica se mostrasse errada: historicamente, não houve proibição universal do incesto e algumas sociedades, como a Pérsia e os Egito antigos, até mesmo o fruíam.

Quando Estruturas Elementares foi publicado, Lévi-Strauss ainda era, do ponto de vista acadêmico, um estranho na França. O livro ganhou fortuna pública graças a uma resenha brilhante feita em Les Temps Modernes por Simone de Beauvoir, outrora colega de Lévi-Strauss, que havia consultado o manuscrito ao escrever O Segundo Sexo. Sua aceitação acadêmica foi mais lenta. Tendo sido rejeitado duas vezes pelo Collège de France, Lévi-Strauss mudou seu foco do parentesco para os mitos e, em 1952, publicou seu primeiro ensaio voltado diretamente para um público mais amplo, Raça e História. Nele, esvaziava a pretensão ocidental de superioridade cognitiva sobre as sociedades pré-letradas; a chegada da indústria e da ciência modernas era resultado de combinações aleatórias na mesa de roleta do tempo, em vez de consequência de alguma dinâmica interna histórica.

Três anos depois, veio a revelação de seu excepcional talento literário, com os soturnos fogos de artifício de Tristes Trópicos– uma meditação filosófica tanto quanto, ou mais do que, um livro de memórias antropológicas. Sob o signo de Lucrécio e Rousseau, em vez de Durkheim, ele mostrava seu período no Brasil como uma destruição implacável de ilusões românticas, mas que era também um rito de passagem fabuloso para verdades sobre a humanidade e seu lugar no universo, reprimida pela húbris metropolitana. De sua segunda e mais significativa formação como etnólogo, em Nova York, ele não dizia nada. Para o método, reconhecia três “amantes”: Marx, Freud e a geologia, cada um explorando estratos escondidos sob a superfície da realidade. Em 1955, tratava-se de um credo que não diminuía o charme de seu livro. Por unanimidade, e compreensivelmente, Tristes Trópicos foi saudado como um clássico das letras francesas.

 

Naquela época, impressiona como eram íntimos os laços – por mais paradoxal que possa parecer, tendo em vista o antagonismo entre o estruturalismo e o existencialismo – que ligavam Lévi-Strauss à usina da cultura de esquerda liderada por Sartre. Não foi somente Simone de Beauvoir que se esforçou para pôr Estruturas Elementares no mapa. O Les Temps Modernes publicou um capítulo prévio de Tristes Trópicos, assim como textos posteriores bem conhecidos, como “A gesta de Asdiwal”.

 

 entrada de Lévi-Strauss no Collège de France, dez anos após sua primeira tentativa, foi orquestrada por Merleau-Ponty. A sensibilidade de Lévi-Strauss para perceber de onde sopravam os ventos desempenhou sem dúvida um papel nisso. Mas era também uma configuração intelectual não rara da Quarta República, marcada por alianças muitas vezes imprevisíveis e debates calorosos, que cairiam abruptamente em declínio com a instauração da Quinta República e a ascensão de De Gaulle ao poder.

Com essa mudança de regime, nasceu o estruturalismo propriamente dito. Em 1958, Lévi-Strauss publicou seu manifesto, na coletânea de ensaios intitulada Antropologia Estrutural. “Durante séculos as humanidades e as ciências sociais se resignaram a contemplar o mundo das ciências naturais e exatas como uma espécie de paraíso onde nunca entrariam”, ele declarou, mas “de repente, há uma pequena porta que se abre entre os dois campos, e é a linguística que fez isso”. Não apenas mitos ou lendas populares, mas, em princípio, qualquer fenômeno do mundo social ou cultural poderia ser mapeado e decodificado com o rigor dos fonemas. Desde Comte, o pensamento francês sempre teve uma vertente significativa de cientificismo. Ao anunciar uma antropologia equipada com a autoridade da linguística, Lévi-Strauss tentava torná-la dominante.

Por um tempo, ele fez isso com considerável sucesso, enquanto espíritos empreendedores se esforçavam para emular ou estender seu programa a uma ampla gama de áreas do conhecimento, enquanto ele consolidava sua hegemonia a partir de seu posto de comando no ápice da erudição francesa. Em uma performance de virtuose, O Pensamento Selvagem (1962) pretendia mostrar, simultaneamente, o estruturalismo inato dos sistemas classificatórios das sociedades pré-letradas e a futilidade das pretensões do marxismo – para não falar do existencialismo –, na pessoa de Sartre. Tratava-se, no entanto, de um edifício teórico que repousava sobre um alicerce frágil: a noção de que a linguagem oferecia uma analogia para o estudo de qualquer outro campo da vida social.

 

O próprio Saussure, criador da linguística estrutural, havia expressamente advertido contra essa ilusão. Assim como a genética de hoje gerou esperançosos aplicadores da teoria da evolução a todos os campos imagináveis ​​das humanidades e ciências sociais, independentemente da falta de qualquer outra conexão entre elas que não seja metafórica, do mesmo modo, há meio século, a linguística cativou uma ampla gama de entusiastas que viram nela o “abre-te, sésamo” para a compreensão do mundo.

A contribuição do próprio Lévi-Strauss para essa expansão foi Mitológicas (1964-71), sua monumental tetralogia sobre os sistemas de mitos nas Américas: cerca de 2 mil páginas que supostamente põem a nu as propriedades universais da mente humana, idênticas nos mitos e seus analistas, desdobradas por ele em uma composição científica, melódica e autorreferente como a música.

 

o final dos anos 70, a onda estruturalista havia refluído e, por fim, Lévi-Strauss recuou das extravagâncias que havia ajudado a lançar, observando – quinze anos depois de O Pensamento Selvagem– queo estruturalismo não era mais que uma “imitação muito fraca e pálida do que as ciências duras estão fazendo”. E afirmou que havia simplesmente tentado encontrar algum tipo de ordem por trás da aparente desordem de seus materiais, sem impor quaisquer conclusões a eles.

Mais proeminente do que a retração teórica, talvez apenas tática, foi seu retrocesso político e cultural. Na velhice, o outrora simpatizante do socialismo e do surrealismo tornou-se cada vez mais conservador – um dos pilares da Académie Française, inimigo da arte moderna, eleitor moderado, admirador de Gobineau.

 

Ainda assim, eram preferências de fundo, nas quais Lévi-Strauss não insistia muito. A estrela subsequente do estruturalismo inverteu essa trajetória, mas sem efeito intelectual melhor: Michel Foucault passou quase sem intervalo de uma “nova filosofia” bem-vista no Palácio do Eliseu [sede da Presidência da República] a uma “justiça popular” pregada pela Gauche Prolétarienne. Lévi-Strauss certamente sabia como promover a divulgação de suas ideias e defender seus próprios interesses, mas fazia isso dentro dos limites de certa reserva tradicional e dignidade antiquada. As piruetas do jovem exibicionista e sua sede de publicidade eram estranhas a ele. Consciente de como eram arbitrárias as arqueologias de Foucault, ele negou qualquer apoio institucional ao seu admirador.

 

 veredicto final do delicado e comovente livro de Patrick Wilcken é impecável. “Em um mundo de áreas do conhecimento cada vez mais especializadas, talvez não venha nunca mais a existir um corpo de trabalho de alcance e ambição tão estimulantes”; mas embora “as ideias de Lévi-Strauss tivessem grande amplitude e abrangência”, elas estavam em última análise instaladas em um “espaço intelectualmente claustrofóbico” – um “empreendimento de um único homem que se tornou tão absolutamente idiossincrático que era impossível se basear nele”.

 

Como sistema, “o estruturalismo implicava profundidade, mas com seu jogo de signos sem referência, muitas vezes se parecia com derrapagem sobre vidro polido”. No entanto, “o que dava vida à produção de Lévi-Strauss, e introduzia o lirismo que confundiu seus críticos anglo-saxônicos, era um profundo interesse pela expressão e apreciação estética que corria em paralelo com o lado cognitivo de seu trabalho”. O antropólogo se via como um artista manqué. Mas Lévi-Strauss não era apenas um grande colecionador e tecelão de narrativas – “os mitos são objetos muito lindos”, observou ele, “e nunca nos cansamos de contemplá-los, manipulá-los”. O segundo verbo fala por si mesmo. Ele foi também um grande escritor na arte, longe de ser menor, da retórica.

 

=============================================================

 

Compartilhar:

·        

·        

·        

Crepúsculo estruturalista nos trópicos

Morto há um ano, Lévi-Strauss foi sensível à utopia, atualmente em voga, que combina o bem-estar possibilitado pela civilização ocidental com a harmonia ambiental das sociedades “primitivas”

por Otávio Frias Filho

·        

Um abismo parece se abrir entre o século XX e nós. A sensação de distância psicológica em relação a uma época ainda tão recente, tema predileto do historiador britânico Tony Judt, talvez tenha se acentuado por causa do advento digital: os anos 80 foram a última década analógica da História. Também foram o decênio que encerrou o brutal ciclo de violência organizada a partir de credos ideológicos que se proclamavam “científicos”, deflagrado no começo do século pelo comunismo e pelo fascismo, origem da carnificina de proporções inéditas que o marcou.

Parece que as violentas energias liberadas pela sociedade industrial de massas por fim encontraram, nos anos 80, um ponto de equilíbrio ou saturação. Depois de testar as fórmulas da escolástica de dirigismo sociológico que intoxicou o século, era como se o espírito da época evoluísse (ou retrocedesse) para um consenso amplo e desambicioso em torno da democracia representativa e da economia de mercado. Até agora, as forças remanescentes que resistem a esse consenso ou bem são inarticuladas (como a revolta difusa na periferia de grandes cidades) ou regressivas, dependentes de formações históricas pré-modernas, como o fundamentalismo islâmico.

Seja real ou psicológica, a distância relativa compele a um olhar irônico sobre os “ismos” que proliferaram no século XX e atualmente se mostram frívolos na sua pretensão científica, assim como soam fúteis as tremendas controvérsias que travaram. Quase podemos contemplar suas contendas, apesar do curto tempo decorrido, com estranhamento parecido ao que nos inspiraria a luta entre guelfos e gibelinos, partidários respectivamente do papa e do imperador alemão, cujo conflito hoje esquecido obcecou o pensamento europeu no século XIII.

Algo assim vale também para o estruturalismo, a corrente de pensamento que no âmbito das ciências humanas e sociais terá sido, depois do marxismo, a influência intelectual recente mais poderosa no meio universitário, inclusive brasileiro. Os autores que notabilizaram o estruturalismo eram franceses, e seu predomínio internacional consistiu, entre os anos de 1950 e 1970, lado a lado com o existencialismo, na derradeira de uma longa série de cabalas intelectuais radicadas em Paris.

Ciosos de suas originalidades, Roland Barthes (semiologia, o estudo dos sistemas simbólicos), Jacques Lacan (psicanálise) e Claude Lévi-Strauss (antropologia) foram reticentes quanto ao rótulo de estruturalistas que lhes era atribuído – e Michel Foucault (história social) dificilmente se encaixaria nele. Mas abordaram seus respectivos objetos de estudo como linguagens inconscientes desenvolvidas em função de parâmetros abstratos e invariáveis, inerentes ao espírito humano, que cabia investigar. Não era outro o postulado que os primeiros estruturalistas, os russos Roman Jakobson e Nikolai Trubetzkoy, haviam tomado de empréstimo à linguística para experimentá-lo na teoria literária e na crítica de arte.

Na condição de estudante nos anos 80, testemunhei o crepúsculo do estruturalismo numa universidade tropical. O que pudesse ter havido de disciplina intelectual nessa escola de pensamento em seu período ortodoxo desaparecera na obra de discípulos exibicionistas e epígonos. Eles se empenhavam em disputar um torneio de radicalidade, esgotado numa proclamação de colapso do entendimento ante os mistérios da linguagem e numa espécie de relativismo absoluto – apenas dois dos paradoxos cultivados com gosto no caldo, chamado pós-estruturalista ou simplesmente “desconstrução”, que já então começava a inundar a área das humanidades.

No departamento da Universidade de São Paulo que frequentei havia um grupo de professores avessos, embora tivessem formação francófila e de esquerda, ao predomínio maciço de autores marxistas na formação dos alunos. Estes, num período de politização ideológica, muitas vezes vinham das passeatas contra a ditadura militar munidos de um marxismo de almanaque e afoitos por obter, em sala de aula, a confirmação “científica” de suas certezas. Por espírito de diversidade, porque estavam mudando de opinião ou porque associavam a politização excessiva a um aviltamento de padrões acadêmicos, aqueles professores insistiam em dar cursos sobre autores fora de moda, como Émile Durkheim, Alexis de Tocqueville e Lévi-Strauss, cuja fama conhecera o apogeu vinte anos antes.

A leitura de Durkheim, tido por fundador da sociologia, servia como advertência de que a ciência social sempre aspirou submeter-se aos controles matemáticos da ciência física e que toda generalização deve estar apoiada numa série de repetições documentadas. A crítica que Tocqueville faz à democracia de massas é tão abrangente que extrapola o conservadorismo político do autor para assumir tons proféticos quanto à propensão de governos, apoiados na opinião da maioria, para degenerar em intolerância e conformismo. 

Mas o que Lévi-Strauss propunha era bem mais complexo, sutil e tentador. Era todo um sistema explicativo de amplo espectro, no contexto do qual o próprio marxismo, com sua imensa aptidão para encaixar fatos num único molde teórico, figurava como caso particular. Se o marxismo parecia ter levado a “ciência social” ao limite possível na análise da estrutura produtiva do capitalismo, Lévi-Strauss parecia realizar empreitada semelhante na compreensão daquele nível que os marxistas chamam de “superestrutura”, ou seja, a religião, os costumes, as instituições, a arte – numa palavra, a cultura. O estruturalismo era uma morfina intelectual tão sedutora quanto o marxismo, mas que atuava como antídoto ao englobá-lo ou, à maneira da homeopatia, curava por semelhança.

Na ocasião de sua morte, há um ano, Claude Lévi-Strauss foi exaltado como campeão do relativismo cultural. Ele decerto dedicou a vida à demonstração de que nenhuma cultura é “superior” a outra, já que nenhuma pode ser considerada sob critérios que não os seus próprios. Se uma dada cultura nos parece rudimentar ou “primitiva”, é porque somos ignorantes para atinar com sua complexidade, discernir o que é valioso para os que estão imersos nela e perceber que o “pensamento selvagem” não apenas funciona de maneira análoga ao pensamento científico, como chega por vezes às mesmas conclusões.

Mas não está no relativismo a originalidade de Lévi-Strauss, embora ele tenha expandido como ninguém a simpatia compreensiva para com as sociedades “primitivas”, que desde então incorporaram as aspas para sempre. Essas sociedades simplesmente escolheram, na concepção de Lévi-Strauss, recusar a revolução neolítica que deu origem ao impulso tecnológico que nos arrasta de modo desenfreado até hoje. Devido a “uma sabedoria particular”, elas impediram a “história de irromper em seu seio” e decidiram há muito tempo “perseverar em seu ser”.

São sociedades que ele chama de “frias”, as que mudam pouco e não conhecem devir histórico, em oposição às sociedades “quentes”, das quais a civilização técnica ocidental seria o exemplo mais exitoso. Mas esse êxito, medido em acumulação material, reflete para Lévi-Strauss uma visão estreita, válida talvez no contexto desta sociedade, não de outra. Um machado de pedra e outro de ferro, ele diz, são igualmente benfeitos; a “utilidade” de cada um é relativa à sociedade onde é empregado e somente nela pode ser apreciada.

Outros já haviam sido relativistas antes, notadamente Franz Boas, americano emigrado da Alemanha, criador da antropologia cultural e primeiro grande adversário intelectual do racismo. Exerceu, aliás, influência decisiva sobre o jovem Gilberto Freyre quando este foi aluno na Universidade de Columbia, em Nova York. Num acaso significativo, Boas expirou nos braços de Lévi-Strauss, em 1942, vítima de uma síncope durante um almoço naquela cidade.

Mesmo etnólogos da primeira geração a se profissionalizar na Europa, na passagem do século XIX ao XX, imbuídos ainda do sentimento de superioridade da cultura europeia sobre as demais, sentiram o desalento que acometeu sir James Frazer, autor do monumental compêndio de mitos e ritos que é O Ramo de Ouro (1922), diante da espantosa diversidade das sociedades humanas e da aparente impossibilidade de reduzir suas desencontradas expressões culturais a um denominador comum, um sistema, uma unidade, cuja manifestação mais alta fosse a civilização ocidental. A busca dessa unidade, presumida e oculta, logo se tornou a razão de ser da antropologia.

Assim como o contato de viajantes com o Novo Mundo havia municiado autores renascentistas de um espelho onde examinar sua própria sociedade, os périplos dos etnólogos na África, no Ártico e na Oceania abriram caminho à aceitação intelectual da singularidade de cada cultura. Se havia uma unidade subjacente a todas, ela não estava estampada na cultura europeia mais do que em qualquer outra.

Estudando sociedades reveladas no rastro do colonialismo tardio, etnólogos como o polonês Bronislaw Malinowski e o britânico Radcliffe-Brown contribuíram para solapar a legitimidade da civilização europeia em seu afã de subjugar as demais. Para esses expoentes da escola funcionalista, os costumes “selvagens”, por mais bizarro que fosse seu aspecto, corresponderiam a funções necessárias na sociedade em que vigem, as quais deveriam ser esclarecidas pela etnologia.

Assim, num percurso sinuoso que não tem o esquematismo com que é sumarizado aqui, a etnologia atravessou ao menos três fases.

Na primeira, o aventureiro, o traficante de mercadorias e o funcionário colonial ainda se confundem com o etnógrafo amador que cataloga por diletantismo, nem sempre desinteressado. Na segunda, o pesquisador universitário e profissionalizado busca encontrar na diversidade alheia os fundamentos racionais de sua própria sociedade, como se nesta culminasse tudo o que nas demais seria mero esboço (vertente que os antropólogos chamam de “evolucionismo”). Ocorre que as evidências do enorme diapasão daquela diversidade crescem conforme a pesquisa se estende mundo afora, deixando atônitos os estudiosos, desesperados diante de um quebra-cabeça impossível de montar.

Irrompem sistemas de parentesco cada vez mais complexos, rituais disparatados, mitos incompreensíveis – e um verdadeiro pesadelo antropológico, o totemismo, que vincula certos clãs a determinados animais e vegetais, ora por interdição, ora por obrigação, e para o qual não se conseguia atinar com uma lógica que elucidasse nem sequer a maior parte dos casos.

Numa terceira fase, já marcada pela influência crescente do marxismo universitário e da crítica ao colonialismo, a etnologia se volta contra si mesma. Uma insidiosa consciência de culpa leva os antropólogos a valorizar tanto mais uma sociedade quanto mais diferente ela for da sua. A resposta para o fracasso tanto na busca de uma lógica implícita à diversidade, como na preservação da hegemonia europeia sobre o mundo, seria o relativismo cultural. Aqui entra em cena Lévi-Strauss.

Não duvidemos da importância que o trabalho de campo entre os bororos, os kadiwéus e os nambikwaras, durante expedições ao Brasil Central entre 1935 e 1938, possa haver desempenhado na formação de Lévi-Strauss. Para além da pesquisa empírica, que ele não praticou mais depois disso, porém, sua contribuição criativa se deu no âmbito da filosofia da etnologia e na audaciosa tentativa de unificar as ciências humanas sob uma mesma linguagem.

O momento decisivo na trajetória de seu pensamento ocorreu pouco depois do período brasileiro, quando Lévi-Strauss, já de volta à França, teve de se refugiar do nazismo na New School for Social Research de Nova York (1941), colocando-se ali sob a influência da linguística estrutural por meio de Roman Jakobson, de quem se tornou amigo. Data dessa época sua ligação com André Breton e outros surrealistas, que teriam ensinado o antropólogo, segundo declarou, a fazer aproximações entre coisas aparentemente estranhas entre si.

Franz Boas, num livro de 1911, foi um dos primeiros a destacar que as leis da linguagem funcionam no nível inconsciente, o que permite estudá-las como fenômeno objetivo e sugere um paralelismo a ser explorado entre língua e cultura. Mas a iluminação que Lévi-Strauss obteve via Jakobson remontava a Ferdinand de Saussure, estudioso suíço considerado o precursor do estruturalismo. Saussure ensinara em seu célebre curso de linguística, no início do século passado, que os signos não funcionam por causa do valor intrínseco que possa residir em cada um, mas pelos contrastes que formam quando justapostos.

Um fonema ou uma letra não significam nada em si, mas passam a significar quando postos em contraste com outros fonemas e letras. Um punhado de fonemas ou letras invariáveis, quando combinados, produz uma infinidade de sentidos. Da mesma maneira, intuiu Lévi-Strauss, os grandes enigmas da etnografia – os sistemas de parentesco, o totemismo, os mitos das sociedades “primitivas”, tão díspares na multiplicidade de suas configurações ostensivas – seriam “línguas” culturais desenvolvidas sobre uma estrutura simples e invariável, a gramática do pensamento.

Deve-se ressaltar que a paixão pela simetria, além de preferência estética, é nada menos que uma ideia fixa entre os estruturalistas. Lévi-Strauss abraçou o conceito estruturalista dos “pares de oposições”, em que a se opõe a b tal como c se opõe a d, donde uma similitude entre ab e cd. E passou décadas a ler uma quantidade fantástica de relatos de campo e a redigir brilhantes exegeses destinadas a fazê-los caber em seu sistema.

Desse ângulo, as narrativas compostas por povos e civilizações remotos seriam modos de pensar o mundo que o organizam a partir de oposições sensíveis (céu/terra, cru/cozido, fresco/podre, permitido/proibido, natureza/cultura, etc.) e pela eventual irrupção de um terceiro termo, que faz a mediação entre os opostos. Não importam os termos em si, mas as relações entre eles. O mundo – na realidade, seu reflexo projetado nas expressões simbólicas do espírito humano – é um sistema inconsciente de relações de contradição e similitude. Nem matéria nem forma, mas ambas de uma só vez, esse sistema subjacente seria a estrutura.

O estruturalismo foi o último, ao menos até o momento, dos modelos totalizantes de explicação intentados pelas ciências humanas, dos quais os exemplares mais influentes haviam sido o positivismo, o marxismo e a psicanálise. Vigora hoje um cauteloso ceticismo intelectual, propenso a sorrir das ambições de tais teorias, e da retórica que tantas vezes fizeram passar por ciência. Mas Lévi-Strauss esteve entre os que julgaram ter encontrado indícios de uma lógica sob o caos aparente da história e da cultura, uma unidade entranhada na excentricidade – e nesse sentido não se pode afirmar que ele foi relativista.

Duas perguntas haveriam de interessar o leitor retrospectivo de Lévi-Strauss, alguém que o lesse com os olhos de hoje.

A primeira é se ele, tendo perseguido a miragem de uma unidade subjacente a todas as culturas, não teria afinidades com a psicologia evolutiva, com a sociobiologia e as demais abordagens ditas neodarwinistas, que também distinguem uma plataforma invariável sob a diversidade cultural. Lévi-Strauss quase nunca menciona o darwinismo em sua obra, e existe ao menos uma passagem em que ele associa a sociobiologia então nascente a uma simplificação grosseira. Embora seu pensamento flerte com a matemática, ele não se desgarra da tradição filosófica e humanista. Julgava as ciências da natureza “uma terra prometida aonde não terei o privilégio de entrar”.

De toda forma, a analogia seria mais aparente do que real. Os neodarwinistas postulam, com efeito, que a cultura replica e acentua diretrizes invariantes implícitas no código genético (onde foram gravadas pela seleção natural), mas atribuem conteúdos determinados a esses mandamentos. O estruturalismo recusa a universalidade de qualquer conteúdo. O que é invariável é a estrutura, ou seja, a forma que organiza os conteúdos, que descreve as relações abstratas entre eles

A outra questão é política e diz respeito à equivalência entre as culturas. É difícil negar que cada cultura deveria ter autonomia para “manter” suas decisões, ainda que estas tenham sido inconscientes e ancestrais. Mas também é difícil negar que a civilização ocidental conquistou um acervo de realizações materiais que atua como o mais poderoso dos ímãs sobre o desejo humano em todas as culturas. Esse ímã está liquidando a diversidade cultural, desde logo, ao incorporá-la.

Nosso autor sabia que o destino das sociedades “quentes” é absorver as demais e tinha uma visão trágica desse encontro. Seu estilo literário não era alheio à argumentação de feitio jurídico, e ele cometia malabarismos para contornar evidências às vezes objetivas, como numa passagem em que tenta sugerir ao incrédulo leitor que a medicina do Extremo Oriente estava “alguns milênios” à frente da ocidental. Seria o caso de questionar o direito da antropologia de negar às sociedades “primitivas” o acesso à tecnologia e ao bem-estar objetivo que ela gera.

Lévi-Strauss não foi indiferente a uma utopia, atualmente em voga, que procura reunir valores de ambas as matrizes, combinando o dinamismo e o bem-estar possibilitados pela civilização ocidental com a estabilidade e a harmonia ambiental das sociedades “primitivas”. “A civilização mundial”, ele escreveu, “só poderia ser a coligação de culturas, preservando cada qual sua originalidade.” A consecução desse ideal é certamente dispendiosa, e talvez impraticável.

Enquanto isso, a cultura que produziu Claude Lévi-Strauss – a tradição europeia que provinha do Iluminismo, da arte erudita e das humanidades universitárias –, considerada outrora dominante, já estava sob ameaça no período final de sua vida, e ele lamentava essa extinção, que hoje parece em vias de se consumar, mais que tudo.

 

REVISTA PIAUI

Jan.2012

REVISTA PIAUI. Lévi-Strauss.doc
Reply all
Reply to author
Forward
0 new messages