Por que a Am����rica Latina n����o cresce como a ����sia?Em 1980 o parque industrial
brasileiro era maior que o da Tail����ndia, Mal����sia, Cor����ia do Sul e China
combinados. Em 2010, a ind����stria brasileira representou pouco menos de 15%
em compara�����o com esses pa����ses. Acho que o que tem que perguntar ���� por que
o Brasil representa 75% do com����rcio mundial de ferro e s���� dois por cento do
de a����o em um pa����s que tem a Embraer. E n����o ���� s���� o Brasil. Temos o caso do
Chile, que hoje exporta muito mais cobre concentrado que fundido que h���� 20
anos. A avalia�����o ���� de Gabriel Palma, professor chileno da Universidade de
Cambridge, em entrevista ���� Carta Maior.
Marcelo Justo - Correspondente da Carta Maior em Londres
*Londres* - Ao fim de 2011 a economia brasileira teve crescimento nulo. No
princ����pio deste ano, um prestigioso instituto brit����nico, o *Centre for
Economic and Busines Research*, colocou o Brasil ���� frente do Reino Unido na
lista das �����top 10����� economias do mundo e previu que, em 2020, sua economia
superaria ���� da Alemanha, hoje segundo exportador mundial depois da China.
Carta Maior dialogou com Gabriel Palma, acad����mico chileno da Universidade
de Cambridge, na Gr���� Bretanha, especialista em pol����tica econ����mica
comparada, que h���� anos procura desentranhar por que os pa����ses da ����sia t����m
um crescimento sustent����vel que n����o existe na Am����rica Latina.
*No Brasil o copo est���� meio vazio ou meio cheio?*
*Gabriel Palma* ����� Que a economia brasileira em termos de Produto Bruto
Interno tenha passado a do Reino Unido n����o ���� t����o significativo como
pareceria ���� primeira vista porque o Brasil tem tr����s vezes a popula�����o
brit����nica. Se for comparado este dado com outras estat����sticas brasileiras
como a desacelera�����o, a desindustrializa�����o, a "commoditifica�����o" da
economia, o panorama muda. Meu ponto de partida ���� outro. O que venho me
perguntando faz tempo ���� por que os pa����ses da Am����rica Latina n����o podem
crescer como os da ����sia. Na Cor����ia, Singapura, Taiwan, Mal����sia, Tail����ndia,
Indon����sia e China, o crescimento foi de dois d����gitos durante d����cadas. Na
Am����rica Latina n����o. D����-se um crescimento de dois d����gitos que dura uns anos
e depois se esvazia. E n����o acontece s���� no Brasil. Acontece no Chile, na
Argentina, no resto da regi����o.
*E qual ���� a resposta a essa pergunta?*
*Gabriel Palma* ����� Como voc���� pode imaginar ���� muito complexa. Mas os dados
s����o muito claros. Em 1980 o parque industrial brasileiro era maior que o da
Tail����ndia, Mal����sia, Cor����ia do Sul e China combinados. Em 2010, a ind����stria
brasileira representou pouco menos de 15% em compara�����o com esses pa����ses.
Acho que o que tem que perguntar ���� por que o Brasil representa 75% do
com����rcio mundial de ferro e s���� dois por cento do de a����o em um pa����s que tem
a Embraer. E n����o ���� s���� o Brasil. Temos o caso do Chile, que hoje exporta
muito mais cobre concentrado que fundido que h���� 20 anos. O caso do M����xico,
que nos anos 80 se prop����s um desenvolvimento exportador com as montadoras.
Hoje tem a mesma propor�����o de montadoras que 30 anos atr����s.
A China, que tamb����m teve este modelo exportador nos anos 80, hoje exporta a
metade de sua produ�����o com produtos de alto valor agregado. H���� uma ambi�����o
econ����mica na ����sia que contrasta com a in����rcia que se sente na Am����rica
Latina. Isso n����o quer dizer que n����o h���� tentativas. Na Argentina se est����
experimentando algo diferente. No Brasil, Mantega est���� tentando, mas se
choca com o Banco Central. Na ����sia todos parecem querer se superar.
*Entretanto, no caso do Brasil se calcula que uns 13 milh����es de pessoas
sa����ram da extrema pobreza na ����ltima d����cada, sinal de que houve avan����os.*
*Gabriel Palma* ����� No Brasil como no Chile e na Argentina, houve avan����os,
tanto neste sentido como na redu�����o do desemprego. No Brasil temos o
sal����rio m����nimo e o bolsa-fam����lia que dar���� a 11 milh����es de fam����lias
subs����dios que lhes permitam baixar os n����veis de pobreza. A quest����o ���� que
todo este bolsa-fam����lia ���� 0,5% do PIB. Agora, se com 0,5% do PIB se
consegue esta redu�����o da pobreza, por que n����o se tenta com 1% do PIB que
n����o ���� nada do outro mundo e que reduziria em 11 milh����es mais a pobreza?
Segundo um estudo da CEPAL, h���� seis pa����ses latino-americanos, entre eles a
Argentina, o Brasil e o Chile, nos quais custaria menos de 1% do PIB
terminar com a pobreza. Se falarmos da ����ndia, com 500 milh����es de pobres, a
tarefa ���� tit����nica: custa 10% do PIB terminar com a pobreza. Na Am����rica
Latina n����o. No Chile, com 20 anos de governo da Concerta�����o se reduziu
primeiro a pobreza de 40% a 20% e, uma d����cada mais tarde, 10%. Hoje voltou
a dar um salto a 15%. Inclusive com governos progressistas, que t����m uma
vontade pol����tica neste sentido, com contas fiscais em ordem e um boom de
commodities, o avan����o ���� muito menor do que poderia ser.
*H���� um assunto que trata do desenvolvimento tamb����m. A pobreza est����
inevitavelmente vinculada com o modelo econ����mico que se aplica. *
*Gabriel Palma* ����� N����o resta d����vida. No Brasil h���� uma crescente
"commoditifica�����o" da economia. H���� 10 anos as commodities representavam 25%
do total. Hoje constituem 50%. H���� um grande desenvolvimento das
commodities, mas com poucos produtos processados e com um abandono da
ind����stria manufatureira que ���� lament����vel. O atual modelo econ����mico, que
come����ou nos anos 80, aprofundou-se com Cardozo e continuou com Lula, se
baseia em um tipo de c����mbio sobrevalorizado e na entrada de capital, o que
vem causando a desindustrializa�����o do pa����s. N����o h���� pa����s asi����tico que siga
esta pol����tica macro.
*O governo lan����ou o programa Brasil Maior para revitalizar a ind����stria. O
caminho pode ser este?*
*Gabriel Palma* ����� Se parar a decad����ncia j���� me conformo. Ao olhar a taxa de
investimento total ����� nacional, estrangeira, p����blica e privada ����� por
trabalhador no Brasil, se percebe que hoje s����o menores do que nos anos 80.
Ao comparar com a China se percebe que o investimento aumentou 12 vezes com
respeito aos anos 80. O Brasil vem h���� 30 anos com um investimento p����blico
menor que 3% do PIB. Hoje a infra-estrutura est���� caindo aos peda����os. E as
taxas de juro s����o usur����rias. No ����ltimo estudo da Federa�����o de Comercio de
S����o Paulo, a taxa de juros m����dia do cart����o de cr����dito batia em 230 % anual.
Fala-se muito da cria�����o de una nova classe m����dia gra����as ao acesso ao
cr����dito, mas al����m de acesso ao consumo o que eu vejo ���� um grande
endividamento com taxas de mora muito altas.
*H���� uma bomba-rel����gio no setor financeiro do Brasil?*
*Gabriel Palma* ����� N����o acho que seja como a dos Estados Unidos e Europa. H����
problemas, mas as contas fiscais s����o sustent����veis, a d����vida externa caiu, o
setor produtivo n����o tem grandes d����vidas. O melhor que se pode dizer do
Brasil ���� que n����o h���� nenhuma bomba-rel����gio financeira nos pr����ximos cinco
anos. Mas tamb����m est���� claro que n����o vai haver um crescimento de mais de
tr����s ou 4 % e ter���� um grande desenvolvimento do setor financeiro e das
commodities. O ����ltimo informe global do Banco Santander ���� muito
interessante neste sentido. No Brasil est����o 15% de seus ativos e 30 % de
seus lucros mundiais. Por isso todos receberam Lula como um her����i em Davos.
*Que impacto pode ter esta situa�����o do Brasil em seus vizinhos em meio ����
atual crise econ����mica?*
*Gabriel Palma* ����� A grande vantagem dos pa����ses latino-americanos ���� que a
demanda das commodities vai continuar. Isto amortiza o impacto de uma crise
externa. Acho que a atual crise mundial vai deixar lembran����as, n����o tanto
pela profundidade, mas pelo tempo que vai custar para sair. Neste sentido,
a Am����rica Latina teria que se preparar para cinco ou dez anos de
dificuldades no setor externo e se concentrar mais em potencializar seu
mercado dom����stico.
*Tradu�����o: Lib����rio Junior*
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