Marcelo,
Essa foi só uma introdução. Eu não sei se poderia descrever isso como
"migração". Foi uma mudança de idéias, um amadurecimento. Ainda tenho
que explicar o que aconteceu. Não estou fazendo mistério, mas é que
preciso preparar isso direito.
Escrevi uma pequena comparação entre Zerzan e Quinn faz uns anos:
http://umanovacultura.blogspot.com/2007/07/zerzan-e-quinn.html
Mas acho que a questão principal entre Zerzan e Quinn é a crítica à
modernidade. Isso fica óbvio na crítica de Quinn ao Ted Kazinsky, o
Unabomber, que era amigo de Zerzan.
Veja só este trecho tirado de Além da civilização: "As pessoas que não
gostam do que estou dizendo vão tentar tranqüilizar-se com a idéia de
que sou apenas um sujeito que não gosta da civilização e que
preferiria viver “mais perto da natureza”. O que faria sorrir qualquer
um que me conheça, pois sou um grande amante da civilização e vivo com
a maior felicidade no coração da quarta maior cidade dos Estados
Unidos, (...) Ou então me perguntam como é que vou viver sem
ar-condicionado, sem aquecimento central, sem água encanada,
geladeira, telefone, computador etc. Acham que sou um apóstolo da
pobreza, embora não possam mostrar uma única palavra de meus textos
que confirme essa idéia. Não sou um Luddite, nem um Unabomber. Não
considero a civilização uma maldição e sim uma bênção de que as
pessoas (eu também) deviam ter a liberdade de abandonar — por algo
melhor. Procuro algo melhor, não pior. É claro que aqueles que
procuram algo pior devem ler outro livro." -
(
http://alemdacivilizacao.blogspot.com/2008/07/um-amante-da-civilizao.html)
É só ler um pouco de Zerzan (por exemplo:
http://umanovacultura.blogspot.com/2009/10/john-zerzan.html) para
perceber muito claramente porque Zerzan disse: "Não sei o que vocês
vêem em Quinn". Neste texto Quinn se diz um amante da civilização, que
seria apenas "parte da natureza", compara a falta de produtos
tecnológicos com pobreza, e diz que o problema da civilização não está
nela mesma, mas apenas no fato de que não podemos abandoná-la para
seguir para algo MELHOR (Ele repete isso em outros livros também,
quando diz que o problema não está no tipo de coisa que é feito, mas
no fato de todos fazerem o mesmo). Também sugere que Zerzan e os
anarco-primitivistas estejam apenas querendo algo PIOR, ou seja, algo
que nunca será visto como VANTAJOSO pelos CIVILIZADOS, e logo, algo
que nunca dará certo.
Em seu ensaio sobre religiões
(
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/04/313738.shtml), Quinn
diz o seguinte: "Ted Kaczynski, o Unabomber, parecia pensar que estava
dizendo algo terrivelmente original em 1995 culpando tudo na Revolução
Industrial, mas isto era somente o conhecimento convencional de
1962.". Talvez Quinn nem tenha lido Kaczynski, ou teria visto que ele
não está "culpando tudo na Revolução Industrial". Ele chama esse
conhecimento de "banal", desdenhando abertamente as teorias que ele,
provavelmente, mal conhece. O mesmo é visto em História de B: "Se você
apertar um grupo de estudantes para que lhe expliquem por que estamos
oscilando na beira da calamidade, eles logo vão repetir todos os
clichês dos bares — todas as teorias que Unabomber apresentou tão
solenemente e com tantos detalhes como os contidos em sua obra máxima
há alguns anos: avanço tecnológico descontrolado, ganância industrial
descontrolada, expansão governamental descontrolada, e assim por
diante". Em outras palavras, ele está chamando a teoria do Zerzan e
dos primitivistas de ingênua, pouco aprofundada, pouco distante da
"visão de mundo" civilizada.
O engraçado é que em "Ismael" há uma acusação à tecnologia. Mas em Meu
Ismael o discurso muda, na página 203 deste livro, Daniel Quinn diz
que: "Você sabe por experiência que, a esta altura, muita gente
imagina que eu estou pensando num futuro no qual a tecnologia tenha
desaparecido. Para vocês, é fácil demais colocar a culpa de todos os
problemas na tecnologia. Contudo, os humanos nascem com vocação para a
tecnologia, assim como nascem com vocação lingüística". Conhecendo a
crítica de Zerzan, é fácil ver que há um conflito grave e direto.
Muitos leitores de ambos os autores ignoram essa disparidade. Quinn
"naturaliza" a tecnologia e a linguagem, e o que ele diz parece uma
afronta direta aos argumentos de Zerzan.
Em História de B também é possível ver a mudança de discurso quando
comparado com Ismael. Enquanto em Ismael ele chega a dizer que divisão
de trabalho e a tecnologia são parte do problema, em História de B ele
difere as coisas. "Nossos ancestrais realizaram uma proeza semelhante
nos três primeiros milhões de anos da vida humana: aprenderam a viver
como seres humanos — a viver bem, a ter uma vida maravilhosa.
Desenvolveram um modo de vida que era exclusivamente humano,
inteiramente diferente do estilo de vida de todos os outros primatas,
um modo de vida de criaturas capazes de fazer poesia, filosofia,
música, dança, mitologia, arte e de inventar um vasto leque de
tecnologias". Enquanto em Ismael há claramente uma acusação à
"civilização": "O assentamento levou à divisão do trabalho; a divisão
do trabalho levou à tecnologia; a tecnologia trouxe o comércio e os
negócios; o comércio e os negócios trouxeram a matemática, a linguagem
escrita, a Ciência e tudo o mais". Em História de B se lê: " Os
membros da nossa cultura acham que inventamos a tecnologia, a
agricultura, o direito e, evidentemente, a civilização". Indicando que
nem tecnologia nem propriamente a civilização entram no problema. A
partir daí, o que era parte da causa é considerado como efeito que não
deve ser focado: "A gente ouve dizer que a insaciável ganância
capitalista é a culpada, ou que a tecnologia é a culpada. A gente ouve
dizer que os pais são os culpados, ou as escolas, ou o rock and roll.
Às vezes a gente ouve dizer que os próprios sintomas são os culpados:
coisas como pobreza, opressão e injustiça, coisas como superpopulação,
indiferença burocrática e corrupção política". Percebam a jogada
retórica de dizer que a culpa não é do "rock and roll", por exemplo.
Me lembrei do punk que disse ao Zerzan: Poxa, você quer que fiquemos
sem as guitarras? E ele respondeu: Você se dispõe a entrar na mina e
extrair o metal para fazer sua guitarra? A preocupação de Zerzan é que
a civilização nos permite obrigar os mais necessitados a fazer o
trabalho que ninguém quer fazer.
Um membro deste grupo, o Giba, que leu bastante coisa, chegou a
cogitar a possibilidade de que "Ismael" não tenha de fato sido escrito
por Quinn. Isso acontece com livros que ganham prêmios de meio milhão
de dólares. Segundo este site
(
http://www.readishmael.com/readishturner.html), o prêmio que o livro
Ismael recebeu em 1991, o Turner Tomorrow Fellowship, foi " the
largest sum ever awarded to a single work of literature" (a maior soma
de dinheiro jamais dada a um único trabalho literário). Dá para
desconfiar. Isso pode explicar o motivo real para o livro não ter sido
mais publicado, durante muitos anos, por supostos problemas com o
direito autoral, e porque o tom de História de B e de Meu Ismael é tão
diferente, algumas vezes tentando "corrigir os erros" de Ismael.
Foi sentindo a diferença entre os livros que eu escrevi o texto
"Falhas de Ismael"
(
http://umanovacultura.blogspot.com/2007/08/as-falhas-de-ismael.html)
alguns anos atrás. Mas se vocês relerem este texto com essa nova
perspectiva dada agora, então verão que a coisa muda de figura. A
impressão que eu tive naquele momento é que Quinn queria corrigir
"interpretações equivocadas" de leitores de Ismael. Talvez por isso
Quinn tenha se ausentado estranhamente, e me respondido de forma
ignorante quando eu o procurei por e-mail.
Um dos pontos que eu creio ter entrado numa armadilha é sua questão
sobre "criar uma mitologia melhor". Isso soa como criar um Deus mais
sensato para adorarmos. É aí que entra a questão de criar "outra
história". Uma clara apologia ao "espírito inventivo" do homem que
"cria a si mesmo". Essa aparente continuidade com a natureza é na
verdade uma descontinuidade com qualquer tipo de tradição. Quinn
demonstra certa admiração pelo Iluminismo. Isto é o que leva Quinn a
dizer que o que nos interessa em povos primitivos é assimilar suas
funções "vantajosas". Por isso talvez, em além da civilização, ele
parta para exemplos urbanos. E por isso em História de B se fala de
"um tipo de agricultura", ao invés do que é dito em Ismael sobre a
agricultura como um todo. Em ambos se fala em "mudança de paradigma",
mas num é o paradigma cultural, e no outro é o paradigma econômico. É
aí que se encaixa sua controversa questão sobre comida e população,
que levou um dos seus leitores a desenvolver uma tese de mestrado
sobre mudança de paradigma econômico (que eu li e resumi:
http://umanovacultura.blogspot.com/2007/08/mudando-o-paradigma-econmico.html).
Como eu disse no texto, um ponto chave é a defesa do animismo, e o
ataque às religiões "salvacionistas". Hoje, tendo estudado mais sobre
religião, posso dizer que sua idéia representa mais uma
espiritualidade moderna do que uma "religião natural".
Já naquela época eu percebi uma coisa, que acabei deixando de lado,
relevando. Eu escrevi: "Quinn apresenta uma certa tendência ao
determinismo, principalmente o biológico". É verdade, Quinn claramente
usa argumentos do determinismo biológico (como visto em Edward
Wilson). Por isso mesmo o conflito com as ciências sociais. Hoje,
também tendo mais conhecimento sobre sociologia e antropologia, posso
dizer que Quinn cometeu gafes muito grandes. Seu estilo, usando
diálogos, hoje me parece um método retórico de fazer a mensagem ser
mais facilmente assimilada. Porém, assimilar e compreender são coisas
diferentes. A ausência de citações de fontes parece ser proposital
porque, ao ver bem, Quinn recorta e cola teorias de forma inadequada.
Desconfio que foi por isso que a tese de Quinn não ganhou a
notoriedade que ele esperava na academia.
Quando Quinn diz: "isso não é uma jornada interna", no fundo ele está
negando mais do que a tendência "new age". Ele está afirmando um
funcionalismo. E acho que essa divisão entre "visão" e "programa" é o
que gerou a grande confusão de "não saber o que fazer". Talvez Quinn
não soubesse o que fazer porque de fato nunca encontrou as grades da
prisão, pois em Ismael se afirma que isto é tudo que falta para saber
o que fazer.
Eu não quero fazer uma crítica destrutiva para o grupo. Entendam que
para mim é muito difícil ter que fazer essa crítica, porque eu
"respirei" as idéias de Quinn por anos. É difícil ter que dizer que
talvez a intuição de muita gente que eu critiquei estivesse correta:
há algo de podre aí.
Zerzan tem a vantagem de citar fontes, mas ao mesmo tempo cita
excessivamente, e muitas vezes de forma pouco clara. Certamente, mais
do que nunca, eu recomendo a leitura de Zerzan, porém, para
compreendê-lo é preciso ter também algum grau de intimidade com textos
acadêmicos da área de humanas.
Eu espero que essa longa explicação tenha sido de algum proveito para
que vocês entendam porque abandonei Daniel Quinn.
Abraços
Janos
2009/12/13 marcelo estraviz <
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