Amor

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Janos Biro

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Sep 7, 2009, 12:42:36 AM9/7/09
to Civilização?
Como prelúdio de uma discussão sobre o amor, eu queria colocar algumas
visões sobre amor para pensarmos:

"Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver
amor, serei como o bronze que soa ou o címbalo que retine. Ainda que
eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a
ciência; ainda que eu tenha tamanha fé a ponto de transportar montes,
se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus
bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser
queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. O amor é
paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se
ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura seus
interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com
a injustiça, mas regozija-se com a verdade" (Cor, 13.1-6)

Embora o consenso entre psicólogos é que devemos amar a nós mesmos
antes de tudo, e que amar o outro em demasia gera doença, podemos
dizer que isso é um pseudo-amor. A necessidade de dizer ou de ouvir
"eu te amo" para preencher uma carência, uma deficiência, como se
estas palavras pudessem suprir a falta de capacidade de amar. Quando o
outro tem capacidade de amar, perde-se o interesse. Existe medo de
amar, antes é mais fácil dispensar o amor e substituí-lo pelo consumo
de prazer ou de predicados. "Amar" a sua própria doença é também uma
doença.

Vejamos esta poesia:

"Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!"

Augusto dos Anjos

Que tipo de idéia sobre o amor está pressuposta nesta poesia? Qual a
relação disto com a vida moderna? Proponho analisarmos os textos. Que
tal?

Junia Machado Saedt

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Sep 23, 2009, 3:19:04 PM9/23/09
to Civilização
O amor como o colocado no primeiro parágrafo, transcende a
individualidade e é assustador para quem o sente, embora seja cálido.
É útil no que tange a benfeitoria e a anulação da moldura egóica. Os
psicólogos estão certos quando dizem que devemos nos amar em primeiro
lugar, mas porque deveríamos seguir ordens?
Não é possível querer o amor como consolo, por isso Augusto dos Anjos
decepcionou-se até a tampa. Esta poesia não passa da auto-piedade de
um homem febril que esperava a perfeição pela mão de terceiros. Assim
como amar o própria doença é doente, amar a própria racionalidade pode
apontar uma personalidade psicopática.
Logo, percebemos que amar é algo feito em conjunto, do contrário
amamos a nós mesmos e nosso próprio reflexo no outro.
Qual q diferença entre o sentimento do primeiro autor e do segundo
autor destas citações?
O primeiro estava extasiado, pois apesar de "gastar" a sua pessoa, a
alegria e a surpresa nunca acabava. Isso porque o amor para ele era
algo a ser sentido em si e encontrado.
Já o segundo está amargo e ressentido, pois buscou o amor num outro
humano, e nunca se encontra o amor quando o buscamos. As pessoas
possuem limitações e é fato que nos sentimos mais à vontade para um
entrevero com quem nos sentimos à vontade que com um desconhecido
qualquer. Onde está o amor no poeta amargo? Tão inteligente e
perspicaz, não pode dar o braço a torcer àqueles menores que ele, e
assim, a única benção que uma desgraça póde trazer é desperdiçada por
este miserável.

Milenne_Matias

unread,
Sep 24, 2009, 9:44:39 AM9/24/09
to civil...@googlegroups.com
Olá Junia,


O amor que o primeiro autor fala, não é um amor em si, mas para o outro. O amor próprio não fazia parte das preocupações do autor, ou melhor, ele não pensava em si, mas como ele podia amar o outro. Por isso, se fosse nos dias de hoje (seguindo a linha de pensamento dele) ele discordaria dos psicólogos, pois este são pragmáticos e suas premissas são de que o indivíduo deve ser feliz, pois felicidade = saúde. Os psicólogos orientam seus pacientes da seguinte forma: se amar o outro faz bem a mim, então vou amar. Ou: se amar o outro me cura, então eu vou amar. Por isso, eu descordo apenas da parte que vc escreveu assim: "Isso porque o amor para ele era algo a ser sentido em si e encontrado"

Não há nenhuma linha da psicologia que diz renuncia = seu próprio sofrimento em detrimento do outro = saúde psicológica, que é o que o autor do primeiro texto quer dizer.

abraços
Milenne



2009/9/23 Junia Machado Saedt <junia...@gmail.com>



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"A esperança que se vê não é esperança. A fé é certeza das coisas que esperamos. É a convicção do que não vemos"

Janos Biro

unread,
Sep 27, 2009, 1:52:28 PM9/27/09
to civil...@googlegroups.com
Existem 4 regras morais básicas:

Regra de Ferro: Faz aos outros o que quiseres, antes que te façam o mesmo.

Regra de Bronze: Faz aos outros o que te fazem.

Regra de Prata: Não faças aos outros o que não desejas que te façam.

Regra de Ouro: Faz aos outros o que desejas que te façam.

O poema de Augusto dos anjos parece seguir a regra de ferro: se o bem
é apenas o que antecede o mal, faça o mal ao outro antes que este
tenha a oportunidade de te fazer mal. Esta paranóia dirige muitos
relacionamentos que eu vejo por aí. Ferir como prevenção de um mal que
é tomado como inevitável, e que assim se faz realmente inevitável. É
possível que o outro não me machuque, mas não vale a pena arriscar, ou
seja, não há confiança. Se o outro é colocado numa situação em que
pode me ferir ou se arriscar a ser ferido, ele preferirá ferir. Quem
segue a regra de ferro acha que todos os demais a seguem.

A regra de ouro é o que podemos dizer de amar ao outro como a ti
mesmo. Vou fazer ao outro tudo que eu gostaria que ele fizesse comigo.
Mas este não é destituído de auto-interesse, pois ambos simplesmente
se dão tudo que gostariam de receber, e receber exatamente o que
queremos nem sempre é satisfatório. Era o máximo da moral judaica.
Jesus, porém, introduziu uma nova regra: Ame ao outro como eu vos
amei.

O amor em Coríntios se relaciona com a verdade. Assim, não basta fazer
o que o outro deseja, é preciso saber o que o outro realmente
necessita.

O amor no contexto do Augusto dos Anjos se ruiu pelo ressentimento. A
vida se tornou sem sentido e solitária. Assim, o homem está condenado
a uma existência vazia, e é melhor ferir do que ser ferido, evitar
cair na ilusão de que alguém ainda pode amar, pois nesse sentido o
amor gera sempre dor. Melhor desistir logo do amor e aceitar sua
própria dor, alimentando-a você mesmo. As pessoas criam essas dores
dentro de si, como dores de estimação. Se apegam a elas e passam a
enxergar a dor como uma fonte de beleza poética que substitui o
sentido da vida por uma sensação de plenitude, ainda que composta de
vazio. O sentido na e da falta de sentido. Assim, elas se aproximam
pela comparação das dores. Pessoas se apaixonam uma pelas outras por
este gosto comum em cultivar a própria dor, e podem até se auxiliar
criando situações em que fortalecem a dor um do outro, numa cooperação
auto-depreciativa. Se observa isso em relações em que ambos se atacam
sistematicamente "de brincadeira". Por isso muito do que as pessoas
chamam de amor hoje é na verdade a negação cooperativa do amor, uma
cooperação para se afastar do amor e para alimentar o sofrimento como
se alimenta um vulcão, em constante medo de que ele entre em erupção.
Quando entra, o desespero toma conta. Quanto a isso podemos também
distinguir amor erótico de amor ágape.

Janos

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