Verdade

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Janos Biro

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Aug 30, 2009, 2:31:23 PM8/30/09
to Civilização?
Olá,

Como todos sabem nossa proposta aqui é um pouco diferenciada da
proposta do antigo grupo Uma Nova Cultura, pois estamos dando um passo
além da crítica à civilização: rumo à re-orientação de valores que se
afastem dos valores civilizados.

Para isso eu propus leituras diferentes, que nos dêem uma perspectiva
sobre a "modernidade líquida" (Bauman), mas o tema da verdade se
mostrou prioritário, e acredito que tivemos um bom debate sobre isso.
De certa forma acabamos criticando a "verdade líquida"

Mas eu percebo que não tenho capacidade para orientar vocês como eu
pretendia, e tenho que admitir isso antes que aconteça alguma coisa
ruim. A questão é, como eu já havia avisado, que eu vou ter que
participar menos deste grupo, vou ter menos tempo para me dedicar a
ele. Acho que geramos alguma mudança, e podemos gerar mais, mas
infelizmente eu vou precisar me afastar um pouco por agora, melhorar
minha compreensão, e quem sabe no futuro ter coisas melhores para
oferecer.

Vou deixar um texto, que fala sobre a verdade e sobre a tradição, para
vocês lerem e refletirem enquanto isso. E também peço que tentem
responder questões que eu deixei em aberto no tópico sobre O último
samurai.

Vou enviar o texto ainda essa semana, aguardem.

Abraço a todos e não desistam (ao menos disso)

Janos

Janos Biro

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Aug 31, 2009, 12:44:29 AM8/31/09
to Civilização?
Ops,

Uma correção. O texto que eu queria mandar ainda vai ser publicado,
pode demorar um pouco mais, então aguardem.

Algumas pessoas me sugeriram assistir "Obrigado por fumar". Pode ser
uma boa idéia.

Abraços

Janos

Janos Biro

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Sep 3, 2009, 2:56:31 AM9/3/09
to Civilização?
Olá,

Uma observação.

Apesar do Claiton ter proposto a questão da verdade, eu a desenvolvi
com base no que eu estou aprendendo ultimamente com o Anderson e o
Claudio. O Anderson é fundador da comunidade cristã que eu faço parte,
e também doutor em teologia e em sociologia. O Claudio é doutor em
psicologia e pastor da igreja. Tenho aprendido muito com eles. E por
isso acho que vale a pena vocês lerem os artigos que o Anderson
escreveu sobre isso. Eles serão publicados em breve, eu tive acesso no
curso de teologia que estou fazendo, em que ele é professor.

A idéia de assistir O último samurai também veio do fato de que este
filme foi exibido por ele, a discussão foi muito boa, e a questão da
verdade tem sido tema corrente na comunidade.

Enquanto isso, há dois outros artigos do Anderson e do Claudio que eu
recomendo:

Sociedade do glamour e ética da verdade, publicado na Ultimato:
http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=5&registro=1067

O outro texto é "A Hermenêutica da Compreensão - Reflexão sobre o
sentido aletológico da intellectus fidei", publicado no Fragmentos de
cultura, que vou postar nos arquivos do grupo.

Abraços

Janos

Janos Biro

unread,
Sep 9, 2009, 9:55:51 PM9/9/09
to Civilização?
Olá a todos,

O artigo que eu estava comentando saiu. Recomendo a leitura:

Síndrome de aletofobia e cultura da repressão, por Anderson Clayton

http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=5&registro=1127

Abraços

Janos

rafael lima

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Sep 15, 2009, 7:11:58 AM9/15/09
to civil...@googlegroups.com
 Olá,

 Recebi um email com um texto do arnaldo jabor, intitulado "Brasileiro é povo solidário. Mentira. Brasileiro é babaca".

 No seu estilo agressivo, ele argumenta que o brasileiro é "acamodado", se contenta com puco, e não quer trabalhar, acusa as pessoas que recebem bolsa familia de serem vagabundos, pois não usam isso para "alavancar sua vida". E somos babacas, pois nos sentimos responsabilizados pelos outros, e damos esmolas, ao invés de apenas exigir que o governos faça sua parte, e tal e coisa. Ah, sim, e não crescemos e viramos uma superpotência, porque nosso povo não tem vontade.
 Se alguém quiser ler está no anexo.

 Bem, eu li, ri um pouco, e quando minha cabeça já estava apresentando argumentos políticos, e analisando os elementos de construção do discurso percebi uma coisa engraçada.

 Tudo foi dito como as piores características que um povo poderia ter, num pessimismo raivoso, mas pensando bem, um povo que não quer crescer, que se contenta com o suficiente para viver, que se precoupa pessoalmente com o outro, que não gosta de trabalhar, no sentido alienante do termo, é na verdade a grande esperança do mundo, rs, rs, rs.

 Pois são essas as caracterísitcas que precisamos recuperar e reviver.
 Mais, esse discurso conteria então duas verdades, que surgem quando a leitura é feita a partir de pressupostos diferentes.

 E os pressupostos, podem ser verdadeiros e falsos? Pois é muito claro para mim, que o pressuposto de que precisamos crescer sempre e a todo custo, que a individualidade é o valor supremo, que se o meu país não é uma potência eu devo sentir isso como um problema profundo da minha existência, é falso. É poderoso, mas falso.

 Se leva à destruição, se nos degrada fisicamente, emocionalmente e mesmo moralmente, como pode ser simplesmente uma verdade como qualquer outra, como se verdades fossem apenas uma brincadeira, um jogo onde tudo vale e nada importa?
 
Pensar civilizalção como deturpadora, é pensála como alienadora, ou seja, nos aliena, retira de nós, a capacidade de pensar, de decidir, e atuar. E não há nada mais alienante do que acreditar que não existem verdadades, que tudo é relativo, ou que a verdade depende da individualidade. Retira de nós a necessidade de julgar e decidir diante das "verdades" que nos são apresentadas.
 Abraços




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rafael lima

unread,
Sep 15, 2009, 7:14:09 AM9/15/09
to civil...@googlegroups.com
 Faltou o nexo né, r, rs
jabor.pdf

Janos Biro

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Sep 15, 2009, 8:58:01 AM9/15/09
to civil...@googlegroups.com
Rafael,

Mais uma vez sinto que estamos bem sintonizados em nossos pensamentos. Eu estava escrevendo meu artigo sobre civilização, e senti vontade de fazer um comentário sobre Locke e a teoria liberal. Locke é que fundamenta a propriedade privada como um direito natural, e não como direito civil instituído pelo soberano, como pensavam Hobbes e Rousseau. A propriedade é um direito que vem do trabalho, e Locke até mesmo usa a Bíblia para justificar isso, como bom calvinista. Isso coloca o burguesia acima da nobreza, que ganha sem trabalhar, e acima dos pobres, que não conseguem acumular porque não trabalham o suficiente ou não sabem poupar. É incrível analisarmos a inflência de Locke em nosso mundo: Ele foi um defensor da escrividão, e também defendeu o empirismo científico e a idéia de que "nascemos vazios", isto é, sem instintos. Defendia o racionalismo de Descartes e também era médico, foi importante para o iluminismo.

Acho que as idéias do Jabor, pelo que você comentou, em grande parte são inspiradas por essa ideologia que veio de Locke, e que fazem parte de nossa cultura.

Abraço

Janos

Janos Biro

unread,
Sep 15, 2009, 10:12:04 AM9/15/09
to civil...@googlegroups.com
Rafael,

Li o texto do Jabor e eu acho que, levando em consideração o conceito
de que pode-se mentir dizendo verdades, pode ser que hajam verdades,
mas todas elas compõem também 2 mentiras, no mínimo.

A primeira é essa defesa da democracia por meio do ataque ao estado
atual do Brasil, é dizer que o Brasil deveria ser como os EUA ou como
a Europa. Outra é dizer que o Brasil é o contrário disso, porque não
é, antes fosse.

Abraço

Janos

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rafael lima

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Sep 16, 2009, 8:42:23 AM9/16/09
to civil...@googlegroups.com
 Janos,

 É verdade, precisamos sempre tomar cuidado com os discursos simplistas e redutores. Mas é bem bacana preceber elementos culturais que são diagamos assim, anti-civilizatórios por natureza, o que não quer dizer que não possam ser devidamente englobados, encaixotados e vendidos.

 A grande malandragem das empresas que vendem produtos "ecológicos" e montam esquemas de produção "sustentável" com comunidades tradicionais, ribeirinhas, quilombolas, etc, é se aproveitar da tendência dessas comunidades de não desejar o crescimento como nós desejamos. Eles se contentam com muito alegria com a pequena cota que recebem ao participar da produção de produtos geralmente muito caros.

 Aqui mesmo em goiânia os grupos indígenas que visitam a cidade, nos programas da faculdade, e do museu antropológico, vendem seus artesanatos (bem pouco tradicionais hj em dia) e depois suas peças são encontradas 500% mais caras em lojas pela cidade.

 É claro que a questão aqui não é socializar os lucros, mas não viver de lucros, pois essas comunidade jã estão "destruidas" já que os objetos que era carregados de valor cultural e social são agora produtos, e que sua vida deixou de depender do ambiente e relações internas e passou a depender do mercado, e da obtenção de dinheiro.

 Abraços

Janos Biro

unread,
Sep 19, 2009, 12:24:20 AM9/19/09
to Civilização
Rafael,

É verdade. Recebi um e-mail outro dia que me lembrou isso, e copio
abaixo junto com a resposta do Moésio e a minha:

Galera, posso dizer por experiência de que não precisamos
eletrodomésticos para sobreviver, que basta sermos de um grupo unido e
desprovido de outras intenções que não o do bem estar em comum.

Creio que muitos de vocês já têm vivido essa gratificante experiência.
Recebi este texto do grupo de Pedagogia Waldorf e repasso apesar de
gostar de alimentar a mim e a minha família fora da mesa, sentados em
roda mesmo.


PASSEIO SOCRÁTICO
Por Frei Beto

Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no
Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na
pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha,
feijão, frutas e hortaliças.

"Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse.

O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo:
refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro
e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O
valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a
fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável.

É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais -
manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo,
criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é
missa, no sentido litúrgico.

A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo
desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia:
sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos
com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais.

Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me
desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da
panela.

Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos "Manuscritos
econômicos e filosóficos" (1844), ele constata que, "o valor que cada
um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens.

Portanto, em si o homem não tem valor para nós. "O capitalismo de tal
modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também
consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me
cercam é que determinam meu valor social.

Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo
ignaro da pobreza e à cultura da exclusão.

Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as
pessoas, têm alma. Em comunidades tradicionais de África também se
encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um
aborígene cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza
faremos um olhar de desdém.

Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho
guardado na adega, uma jóia?

Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na
sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife.

Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um
carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château
Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a
assinatura de um famoso estilista a gata borralheira transforma-se em
cinderela...

Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura
neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre
como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos
ricos, do poder. Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime
aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles
tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de
exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.

Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados,
é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna
também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega
nela, mas, não é ela: bens, cifrões, cargos etc.
Comércio deriva de "com mercê", com troca. Hoje as relações de consumo
são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas
pessoas.

Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o
vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de
vizinhança, como ainda ocorre na feira.
Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola
abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da
falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo. "Nada poderia
ser maior que a sedução" - diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem
que a destrói."

E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair
da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que
deseja.

Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das
lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se
acercam indagando se necessito algo. "Não, obrigado. Estou apenas
fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me intrigados. Então
explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de
Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E,
assediado por vendedores como vocês, respondia:

"Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para
ser feliz".

---

carlinhos brown não é aquele cantor baiano que manda a gente consumir
coca-cola, brahma, celular, ações da vale (ex-vale do rio doce) etc e
tal, em diversas propagandas? esse frei beto não é aquele assessor
especial do lula, o presidente que manda a gente consumir "isso e
aquilo"? que baixou certas taxações para as multinacionais dos
automóveis venderem mais? isso sem falar de outros ramos da
indústria...
será que no mercado de consumo exista algo que combata a hipocrisia?
hehehe...
enfim...

moésio R.

---

Boa resposta Moésio.

Mais do que hipocrisia, o texto reflete uma esquizofrenia, pois o
autor parece crer realmente no que está falando, sem se dar conta da
realidade. Eu poderia fazer comentários a respeito de cada frase nesse
texto, mas seria exaustivo. Tentemos compreender a idéia central do
autor:


"O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo:
refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro
e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O
valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade."

O que realmente impõe necessidades supérfluas? O problema não está na
economia de mercado, mas sim no fato de que ela deveria estar centrada
nos direitos da população? O problema não está na mercadoria, mas no
fato de que seu valor deveria ser meramente utilitário?

Frei Beto passa longe de ser um cristão. Diz que a mesa é missa e
depois cita Marx. Fala de comunidades tradicionais, mas esqueceu a
comunidade tradicional cristã, onde a questão não era simplesmente não
idolatrar os objetos de consumo. Não se tratava de fazer comércio
"justo". Não era uma economia de troca, era dádiva. E também não se
tratava de ser feliz, mas de viver na verdade, que seja no deserto.

Se não há outro interesse que não o bem estar, então se trata de um
bem-estarismo humano, que como o bem-estarismo animal se trata de uma
falsa resposta à escravidão. Segundo Huxley, é possível ser feliz na
escravidão.

Infelizmente, a tendência contemporânea é esta.

Abraços

Janos
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