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roteiro genérico para aprender a pesquisar

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Alexandre Aguiar

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Apr 18, 2013, 1:59:23 PM4/18/13
to
Olá,

Constatada a mediocridade da pesquisa brasileira (medida pela proporção de
artigos brasileiros citados), houve uma acalorada discussão numa lista de
discussão. Esta mensagem é um crossspost da lista para o ng. Tb foi
crosssposted no brasil.ciencia.capes e no brasil.ciencia.cnpq.

--

Vou me arriscar: propor um roteiro genérico de "solução". :-) Com uma
breve cutucada na falta de inteligência do nosso sistema.

Em Qua 10 Abr 2013 às 17:24, falava-se sobre "[cirurgiapediatrica] GBCIPE
publish and perish" e lisieux escreveu:
> Acho que você tocou num ponto que eu acho interessante: trabalhos de
> levantamento de casuística ainda me parecem ter alguma importância PARA
> NÓS.

Como dizia o livro que usei no primeiro ano da escola de Inglês que
frequentei, há mais de 40 anos :-), first things first. É preciso começar
em algum lugar: o básico.

Estudar séries, em especial as pequenas, não é só produzir papers com
maior risco de ser rejeitados. É, antes de mais nada, o aprendizado
prático da atividade organizada básica de planejar a pesquisa, coletar,
armazenar, processar e sintetizar os dados, redigir os documentos da
pesquisa, etc. Essas atividades envolvem múltiplas habilidades que devem
ser reunidas em uma ou mais pessoas capazes de dialogar entre si. Com
mais gente, as demandas de tempo, habilidades sociais e
educação/organização pessoal, especialmente pontualidade para evitar
prejuízos a outros e à pesquisa, aumentam. Responsabilidade para com a
pesquisa.

O banco de dados é a alma de qualquer pesquisa. A verdade de qualquer
pesquisa sempre está nos dados. Aprender a usar um banco de dados é
fundamental, não é difícil e os resultados compensam o investimento de
tempo. Ter os dados esparramados em planilhas em pouco tempo causará a
perda de dados preciosos que custaram caro para organizar e armazenar.
Investir num banco de dados decente (e pode ser muito barato se for usado
um programa open source) é o começo de uma história de sucesso. Em
relação ao armazenamento, não há outra alternativa.

Mais pessoas, equipe, é essencial. A maioria dos posgraduandos faz tudo
sem muita colaboração. Cada um quer fazer o seu rápido e cair fora e
dane-se os demais. Exceto por auxílios esporádicos em procedimentos no
laboratório de Cirurgia Experimental, nunca vi uma tentativa real de
colaboração. Duvido que, com um pouquinho de boa vontade, essa
colaboração não funcione para aprimorar os resultados de cada um. É
preciso ter equipes de pesquisadores, não um monte deles. Trabalho
colaborativo, em equipe, é fundamental se o propósito é fazer pesquisa de
valor alto. Não existe ensaio clínico feito por um só.

Capazes desse nível de organização, que pode levar alguns anos e muitas
frustrações para conquistar, podemos fazer qualquer pesquisa depois
porque já teremos as habilidades básicas. É preciso começar pelo básico:
first things first. O Bill Gates fala que as coisas mais fáceis devem ser
feitas primeiro. O meu entendimento: não é por ser fácil, mas por
permitir familiaridade com o projeto inteiro numa situação de motivação
em que as primeiras tarefas dão certo. Os projetos hoje são muito grandes
e levam anos para ser implementados. É preciso motivação e dedicação.

Com essas e outras habilidades adquiridas e incorporadas, elas precisam
ser ensinadas aos mais novos que devem ser estimulados a participar de
todos os passos de forma voluntária e devem receber atenção e tutela.
Aprendiz, seja um aluno ou alguém já graduado, não pode resolver dúvida
sobre a pesquisa sozinho! Nada de "jogar os moleques" para fazer o que
não gostamos. :-) Responsabilidade para com a pesquisa.

Começar com análise de séries é bom senso! E, com ou sem o resultado
esperado, acima de tudo, tem que ser o precioso aprendizado para voos
mais altos. Quem não coleta dados de forma sistemática e adequada não sai
nem do chão. :-) Quem não sabe cuidar de séries, não faz ensaios clínicos
(que nada mais são do que séries observadas de forma prospectiva, bem
mais complexa).

De resto, prontuário some e tem poeira em qualquer lugar; amostras, filmes
e laudos se perdem em qualquer lugar; computadores "dão pau" e fazem
sumir dados em qualquer lugar (mas só com windows :-D); nenhum banco de
dados é perfeito; toda pesquisa tem (e tem que ter) prazo. Apenas para
citar algumas das desculpas mais frequentes para justificar possíveis
fracassos (que de vez em quando acontecem em qualquer lugar) [
http://asaguiar.net/modules.php?name=Reviews&rop=showcontent&id=44 ].

E há a gestão do sistema como um todo. Há uns anos, num torneio de xadrez,
joguei com um R4 de Endocrinologia italiano. Como R4 ele era concluinte
do doutorado! Na Itália, quem faz residência não está obrigado a fazer
mestrado. Na Itália, em alguns lugares, o residente pode optar por um
programa de doutorado o que o valoriza no serviço (ele ganha duas
bolsas!), aproveita o fato de que produzimos nossas melhores ideias
originais até os 25 anos e que em geral ainda somos solteiros e sem
filhos.

Aqui há todo tipo de barreira burocrática, só formalismo sem base em
nenhum estudo, fruto do achismo de alguém que não sabe nada de pesquisa e
de Ciência mas adquiriu poder. Não se divulga porque pode criar um
problema para a indústria de bolsas: no Brasil, médico com residência não
está obrigado a fazer mestrado como pré-requisito para o doutorado desde
a reforma do ensino de 1972! Não sei se isso foi mudado em 96 mas assim está
escrito sem ambiguidade nos documentos de 1972 do MEC. Nesses 40+ anos,
quantos mestrados desnecessários foram feitos com financiamento oficial e
com o conhecimento e aval do MEC e suas agências? Qual a razão para que um
concluinte de um programa de residência não possa estar num programa de
doutorado? Com a idade certa, compromisso apenas com aprendizado, acesso
fácil aos doentes e aos prontuários, professores por perto! É a grande
oportunidade de se produzir algo melhor, tanto da pesquisa como do
profissional!

Assim é que aqui grande parte de nós acaba tendo que produzir descoberta
(ideia original) com mais de 40 anos e com empregos, empresas, família,
ex-alguma coisa, filhos adolescentes, escola, carros, cachorro, papagaio,
sogra, etc. para cuidar. E fazer a pesquisa sozinho... Só pode sair
porcaria. :-P

Just a few humble thoughts.

Meus dois tostões.


--

Alexandre

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