Pasquale Cipro Neto - Demóstenes, sua defesa e Pessoa
Foi pelo blog do grande e querido companheiro Fernando Rodrigues que
fiquei
sabendo, anteontem, que na peça de defesa ("Memorial da Defesa do
senador
Demóstenes Torres") do agora ex-senador Demóstenes Torres, assinada
pelos
seus cinco advogados, foram citados Martin Luther King e Fernando
Pessoa.
As citações estão na "capa" da peça, imediatamente depois do título
formal
que a ela foi dado.
De King, citou-se esta passagem: "A injustiça num lugar qualquer é uma
ameaça à justiça em todo lugar". De Pessoa, a passagem é esta: "Ergo-me
da
cadeira com um esforço monstruoso, mas tenho a impressão de que levo a
cadeira comigo, e que é mais pesada, porque é a cadeira do
subjetivismo".
Estupefaz-me o esforço de certos pré-condenados, sobretudo daqueles que
já
se sabem condenados e (é claro) consideram-se injustiçados. Apiedo-me,
ou
melhor, apiado-me, já que, dadas as circunstâncias, talvez seja mais
apropriado empregar a flexão (paronomástica) da forma variante e antiga
"apiadar".
Em pronunciamentos muitas vezes patéticos (vide a origem dessa palavra
grega), essas figuras lançam mão de trechos bíblicos, de frases de
grandes
líderes, poetas, filósofos ou juristas. Tivera eu podido fazer uma
sugestão
aos defensores de Demóstenes, tê-los-ia aconselhado a citar estes
versos de
Drummond, de "Segredo": "Suponha que um anjo de fogo varresse a face da
terra e os homens sacrificados pedissem perdão. Não peça". Drummond e
meu
filho Carlos (assim nominado em homenagem ao Poeta, que estava vivo
quando
meu filho nasceu) que me perdoem, mas não resisti.
Mas o que eu gostaria mesmo de ter feito, se mo tivessem permitido os
causídicos de Demóstenes, é outra coisa. Explico: o trecho de Pessoa
citado
no "Memorial da Defesa" na verdade é de Bernardo Soares, um dos
heterônimos
de Fernando Pessoa. Está no imprescindível "Livro do Desassossego" (são
incríveis as coincidências da vida! -o título por si só já diz tudo).
Aliás, por mais uma fatídica coincidência, Bernardo Soares é ajudante
de
guarda-livros (em Brasília, digo, em Lisboa...).
Bem, para ir de vez ao ponto, eu teria sugerido aos patronos da causa
de
Demóstenes que tivessem ido para uma das páginas anteriores à em que
está o
trecho citado. Lá teriam encontrado o que segue: "Todo esforço,
qualquer
que seja o fim para que tenda, sofre, ao manifestar-se, os desvios que
a
vida lhe impõe; torna-se outro esforço, serve outros fins, consuma por
vezes o mesmo contrário do que pretendera realizar. Só um baixo fim
vale a
pena, porque só um baixo fim se pode inteiramente efetuar. Se quero
empregar meus esforços para conseguir uma fortuna, poderei em certo
modo
consegui-la; o fim é baixo, como todos os fins quantitativos, pessoais
ou
não, e é atingível e verificável. Mas como hei de efetuar o intento de
servir minha pátria, ou alargar a cultura humana, ou melhorar a
humanidade?
Nem posso ter a certeza dos processos nem a verificação dos fins".
Santo Bernardo Soares! Santo Fernando Pessoa!
[Fonte:
www.folha.com.br]
via: Diálogos Lusófonos / Yahoo Grupos
--
Eduardo
Sorocaba,SP - Brasil
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